domingo, fevereiro 26, 2006

"Com que então..."



Não são bem 39... na verdade são mais 10!
E não é quinta-feira mas domingo.
Seja como for, neste dia que nos impingiram como sendo 'especial', apesar de em nada diferir dos outros, lembrei-me de comemorar a efeméride parabenizando-me com a recordação de um importante poeta português. Ei-lo:

Com que então caiu na asneira
De fazer na quinta-feira
trinta e nove anos, que tolo!
Ainda se os desfizesse,
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo!

Não sei quem foi que me disse
Que fez a mesma tolice
Aqui o ano passado...
Agora o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo. Coitado!

Não faça tal; porque os anos
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho:
Faça outra coisa; que, em suma,
Não fazer coisa nenhuma,
Também não lhe aconselho.

Mas anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois se se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los queira ou não queira!

JOÃO DE DEUS (1830-1896)

p.s.: Um beijo especial para a mamã Elvira, que teve a pachorra de aguentar o parto no dia em que ela própria fazia 21 anos. Olha que bela prenda!!

sábado, fevereiro 25, 2006

j'aime mon pays



© josé antónio 2006

terça-feira, fevereiro 21, 2006

do pó vieste...



© josé antónio 2006

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

a abadessa leiteira


desenho: © josé antónio 2006

esclarecimento / declaração de intenções

Olá visitante.

Não recordo se alguma vez o disse. Mas mesmo que nunca o tenha dito, parece-me que um simples passeio por este blog permite tirar a seguinte conclusão. Este é um espaço onde tudo pode acontecer, e sem aviso prévio ou qualquer justificação.
Desde a publicação de uma prosa de ficção, um texto sem pés nem cabeça, um poema, uma citação, uma fotografia ou um desenho, uma coisa séria ou uma simples brincadeira, qualquer coisa pode de súbito acontecer por aqui.
Este é um espaço que assume integralmente e em pleno que "de sábio e de louco, todos temos um pouco". E eu, mais que 'pouco', acho mesmo que tenho 'muito'. Para que algo aconteça basta apenas que me apeteça.

Vem isto a propósito de eu ter para aqui algumas coisas que gostava de expor. Mas não faço tenções de para cada uma delas ter que estar com explicações, que me soariam primárias, rebuscadas e inúteis.
Tenciono simplesmente começar a expô-las para vossa fruição, dentro dum espírito de 'obra aberta'. Cada um terá a fruição que quiser e como quiser.
Não excluo, obviamente, a hipótese de responder a quem me quiser questionar sobre o que eu expuser. E muito me agradarão todos os comentários que possa suscitar. Aliás, agradeço que não se escusem de os fazer.

Mas o que me interessa mesmo é que se divirtam tanto na fruição como eu me divirto na execução. É esse o meu objectivo primeiro. Divertir-vos.
Fico por aqui.
Passo à EXPOSIÇÃO (permanente).

Abraços.

josé antónio, 15 de Fevereiro de 2006, Oeiras.

domingo, fevereiro 12, 2006

... normal...


Tenho como adquirido que o 'normal' é o que segue a norma comummente aceite e o 'anormal' é o oposto do anterior, aquilo que, pelos mais diversos e tantas vezes incompreensíveis, inauditos e intangíveis motivos, não se rege por essa mesma norma.
Frequentemente na dinâmica dos entes, o anormal, pela sua dialéctica de vulgarização, acaba por tornar-se normal. Isto é histórico.
Veja-se o caso do preservativo masculino, vulgo camisa-de-vénus, em Portugal, ou camisinha, no Brasil.
Durante muito tempo foi considerado uma coisa obscura e obscena, julgo mesmo que obstipante, nomeadamente nos primórdios em que era feita de tripa de porco, acerca da qual não se devia falar ou escrever, muito menos exibir, e que hoje, não só se refere livremente em todos os 'media', como se pode adquirir nos supermercados. Vulgarizou-se. Passou da anormalidade à normalidade.
Ou o caso da homossexualidade, vulgo paneleirice.
Durante muito tempo foi considerada 'anormal' e até mesmo uma doença. A própria Ciência, num conluio com a igreja ainda não devidamente esclarecido e clarificado, aprovou e sancionou esta tese, dando-lhe fundamentos científicos, durante muito tempo incontornáveis. Contudo, hoje em dia assiste-se a uma inversão de valores e é o heterossexual que é subrepticiamente e subliminarmente considerado um anormal (freak, em inglês). A um tal extremo tal, que os heterossexuais começam a temer assumir a sua condição, com medo de serem alvo de represálias sócio-profissionais...
Em suma, o que no passado era anormal hoje é normal, e vice-versa. Esta é a dinâmica das coisas.
É por isso que não compreendo que esdrúxula lógica subjaz a certas modalidades de pensamento de determinadas pessoas.

Por exemplo, o caso da BICA.
Refiro-me à pequenina chávena de café expresso pela qual pagamos quase dez vezes mais que o seu real valor.
Quantas vezes, ao pedirmos uma bica num estabelecimento, o empregado nos olha com ar de quem julga que estamos a falar chinês e nos pergunta "a bica é NORMAL?"
Confesso que fico frequentemente sem palavras.
Por uma razão simplérrima: não sei o que é uma bica anormal...
Respondo, quase sem dar por isso, que "Sim."
Muitas vezes apenas acenando com a cabeça, numa inconsciente e paupérrima imitação de uma cornuda vaca com tonturas.
O caso repete-se tão frequentemente, que acabou por se tornar uma obsessão compulsiva reflectir sobre a questão: "O que é uma bica anormal?"
Confesso que por vezes tenho a tentação de não responder ao empregado, com a esperança de que ele decida por 'motu proprio' trazer-me uma das referidas bicas anormais, de modo a eu poder tomar contacto estético (aisthetikós), sensorial, com ela e poder apreciá-la em todos os seus caracteres. Percepcioná-la em toda a substância do seu ser, na sua concreção, em toda a sua constância e inconstância.
Já pensei mesmo em tomar a iniciativa e na altura de responder, pedir uma bica anormal.

Mas temo.
No momento de o fazer, quando o empregado ali está solicito com aquela típica e promíscua cara de boi à minha frente, aquele seu ar de borrego trombeiro, aguardando uma resposta, faltam-me as forças, vou-me abaixo pois um enorme terror invade todo o meu ser.
Temo que o pedido, verbalizado finalmente, soe na minha límpida boca como uma ofensa conspurcativa aos mais altos valores pátrios, e a polícia me leve para interrogatório numa cave escura, fedorenta e húmida (sofro muito com a humidade, tenho bronquite asmática) ou, pior ainda, que apareçam uns senhores corpulentos com ar labrego mas fardados de branco, que me metam num carro com pirilampos luminosos e me levem para um quarto forrado de paredes nacaradas de branco e me obriguem a ver as gravações todas dos programas da Maria de Lurdes Modesto ou, pior ainda, a fazer cunnilingus à Manuela Ferreira Leite.
Quando me preparo para formar as palavras, que não chegam a vibrar, nem nas cordas vocais da minha garganta nem no ar à frente dos meus doces e carnudamente lascivos lábios, o meu coração decide por sua auto-recreação trabalhar como um cavalo a galope e o meu sangue, indiferente ao seu carácter O Rh+, lateja nas minhas têmporas com o rufar de mil tambores.
A minha tensão altera-se e sobe até níveis mortais, mesmo para um rinoceronte.
Suores frios invadem-me e sinto a transpiração escorrer-me pelas vértebras num fiozinho gelado que parece o gume duma lâmina de barbeiro a correr-me a espinha. Penso que vou desfalecer. Uma tontura toma conta da minha pobre existência.
Fico literalmente congelado e a resposta acaba por sair automática: "Sim, Se Faz Favor."
Acobardo-me. Escondo-me no meu íntimo, enrolado num casulo de arame farpado que construí de propósito para estas ocasiões e que faria inveja aos israelitas.
Sou previdente. Tenho sempre este casulo à mão-de-semear para qualquer ocasião em que necessite de refúgio rápido e imediato.
Adio. Protelo.

Um destes dias, talvez me ocorra ao espírito um vulgar e vernacular "Foda-se!" e quando já nada tiver a perder pronuncie a expressão fatal: "Dê-me uma bica ANORMAL, se faz favor!!!"

foto: © josé antónio

domingo, fevereiro 05, 2006

a Torre, o café, e a neve! (a)



Olá! Após algumas peripécias informáticas que me obrigaram a uma breve ausência forçada, cá estou de novo. Ainda não a 100%, que tenho alguns pormenores para resolver.
Contudo já deu para passar por aqui e deixar este post que, como não podia deixar de ser, é sobre o tema mais falado nos últimos tempos por estas bandas: o prémio "Bica na Praia da Torre em Oeiras".
Assim, 'a pedido de várias famílias' aqui fica a fotografia da célebre bica saboreada na Praia da Torre, no dia 29 de Janeiro, com a qual se premiou a pessoa, I.M., que acertou na mouche e deu a resposta certa ao pequeno exercício que propus.
Pena foi as restantes pessoas que estavam convidadas para assistirem à entrega do prémio terem-se, na sua maioria, deixado intimidar pelo clima, porque perderam um bocadinho bem passado e muito agradável (ah, a esplanada é fechada e aquecida, não se pense que estivemos ao frio e à chuva). Mas estejam atentas porque temos uma surpresa em preparação...
Aproveito ainda para deixar uma imagem da praia tirada pouco tempo antes de ter começado a NEVAR!

(a) título furtado à Isabel, que sei não vai levar a mal, mas achei-o sublime! ;)

sábado, janeiro 21, 2006

o candidato - last but not least

Há sempre um atrasado...
Foi este. Ficou para último mas apareceu.
Os outros estão mais abaixo...



clique para ampliar.


desenho: © josé antónio 2006

o candidato

Já passam algumas horas desde que entrámos em Período de Reflexão e a partir de agora é, pelo menos, de bom tom não emitirmos opiniões político-partidárias.
Mas vocês já me conhecem. Tenho horários que nada têm a ver com o comum mortal e por isso certamente me perdoarão o abuso. Bem, a verdade é que este post era para ser publicado mais cedo, mas só agora consegui acabar os bonecos... ;)

Estamos quase a deitar o papelinho com carinhas impressas e uma cruzinha desenhada a esferográfica, paga com o dinheiro dos contribuintes, na urna.
Porra, que isto é mórbido à ganância... URNA... até parece um ritual de macumba ou de magia negra... só faltam as velas!
Ou chama-se URNA porque é nela que vamos ENTERRAR o país!?

Isto (pôr o papel na urna) para aqueles que decidiram que irão cumprir esse ritual pagão, muitos sem saberem muito bem porque o fazem.
Os outros, que devem ser uns quantos, que já decidiram que não vão lá pôr os presuntos, talvez já tenham decidido o que irão fazer para passar o tempo nesse dia e deixar aos outros, os anteriores, a responsabilidade de fazer a merda...

E VOSSA MERCÊ!?

Para si, quer se inclua no primeiro grupo, quer no segundo, aqui está o meu contributo nesta semana que é a recta final antes da hecatombe geral!
Não lhe pretendo mudar, muito, as opções, não.
Apenas quero contribuir um pouco para a sua reflexão com a minha opinião.

Por isso e para isso: EIS...... O CANDIDATO !!!







clique nas imagens para ampliar.


desenhos: © josé antónio, 2006

quarta-feira, janeiro 18, 2006

o desabrigo...

É uma tristeza...

http://olharapoeiras.blogspot.com/2006/01/o-desabrigo.html

segunda-feira, janeiro 16, 2006

a praia da foto é...




Bom, chegou finalmente o dia de revelar a Correcção do Exercício que propus no dia 4 de Janeiro.

Eu tinha dito que a mesma seria apresentada antes da Páscoa e gosto de cumprir as promessas.
Devo referir que me desiludiu a fraca participação, assim como os fracos resultados.
Apenas UMA pessoa acertou na resposta— ISABEL MAGALHÃES —, pelo que as outras todas levam um rotundo ZERO!!
Mas destas houve quem se aproximasse (à custa das resmas de pistas que fui dando).
Recordo essas pistas: A foto tem 48 anos; ao fundo não se vê nenhuma linha de comboio; o edifício branco são balneários e ainda existe; a praia é pouco maior que o que se vê na foto; em tempos era conhecida pela 'Praia dos Artistas'; é pertíssimo de Carcavelos; por cima do balneário existe um restaurante com esplanada; por trás do restaurante existe um bar também esplanada; no próprio balneário existe um bar também com uma esplanada sobre a areia; desta praia tem-se uma vista esplêndida para o Bugio; a Barra do Tejo é ali mesmo em frente; os banhistas que daqui são arrastados pela corrente costumam dar à costa em Carcavelos; o que há nos lados da praia, são construções muito importantes, umas muito antigas e outras muito recentes...

Bem, minhas caras e meus caros, com tantas pistas fico admirado como não conseguiram identificar, surpreendam-se, a PRAIA DA TORRE em Oeiras !!!

Comparem a foto de 1957 com as fotos recentes de 2000.

O merecido prémio será assim entregue à ISABEL MAGALHÃES, em data a designar.

Como sou uma alma generosa e aprecio o esforço alheio, decidi ainda dar um PRÉMIO DE CONSOLAÇÃO a quem tanto se esforçou durante estes dias para resolver o problema.
Assim sendo

A SARA MM, a SULISTA, e a CARACOLINHA (que não chegou a dizer quem é o puto :) ) estão formalmente CONVIDADAS para aparecerem, se o desejarem e em dia a combinar, na Praia da Torre, a fim de disfrutarmos a maravilhosa vista sobre a Barra do rio Tejo e o próprio rio numa das esplanadas existentes no local. Consultem as vossas agendas e digam coisas. Recomendo lá mais para a Primavera, quando o clima for mais ameno.

fotos: © josé antónio

sexta-feira, janeiro 13, 2006

toquei os deuses


Era uma fria manhã de primavera. O ar fresco, como uma mão de gelo, acariciava-me o rosto e gelava-me as narinas. Lutando contra o frio, os primeiros raios de sol, arautos de um dia quente, desfaziam as poucas nuvens matinais, pinceladas de branco no fundo azul clareante. O chão molhava-me as botas e as calças enquanto avançava sobre um manto de finas e frescas gotículas, sobras da noite, que embranqueciam ainda as ervas esparsas.

Cheguei à placa. Um grande espaço cinzento, de cimento, colorido pela presença da “malta”. Atarefados, homens e mulheres compunham os seus fatos de voo, tiravam os pára-quedas dos sacos de transporte, verificavam-nos. Alguns, inexperientes, preocupavam-se com as brincadeiras dos outros:
— É pá! esse pára-quedas não tem os cordões todos! — ou —tenho a impressão que essa merda não abre! pelo aspecto dele...
Sorrisos nervosos, benzeres em pensamento, todos se equiparam. Pus o capacete, tirei o pára-quedas do saco de transporte, verifiquei-o, inclinei-me e coloquei-o sobre as costas, fixando o arnês com gestos seguros.

Na pista, com o seu ar cinzento, a DO-21 rugia já, aquecendo o seu velho motor, roncando e parecendo, também ela, tremer de frio. Fui com a primeira equipa. Quatro mais o largador. À medida que me aproximava do avião, a tensão ia baixando. Contornámo-lo por trás e chegámos à porta, debaixo da asa de bombordo. Segundo a ordem inversa à de saída começámos a subir para o avião. O espaço interior era exíguo, pelo que íamos sentados no chão. Dois encostados ao fundo, de costas para o piloto e navegador, os outros dois sentados entre as pernas esticadas dos primeiros. Todos tínhamos as tiras extractoras enganchadas num anel de enganchamento entre os dois primeiros, excepto o largador, equipado com pára-quedas manual. Parecíamos, e sentíamo-nos, sardinhas em lata. O largador fechou a porta e fez sinal ao piloto.

Súbito o ronco do motor aumentou, o avião estremeceu, e começámos a deslocar-nos na pista. Íamos subir. Ganhámos velocidade rapidamente. Por breves instantes, senti o meu coração aumentar as batidas e a minha boca pareceu secar. Passei a língua pelos lábios para os humedecer enquanto por baixo do meu rabo o chão vibrava como se um tremor de terra tivesse tomado conta de nós. Ouvia as rodas chiarem sofridas do tremendo esforço. Balouçávamos, por vezes, bruscamente como se nos tivessem dado um encontrão. Pela janela transparente da porta via a pista como uma faixa cinzenta contínua, correndo lá para trás. Então, foi como se nos tivessem empurrado contra o chão. Tive a nítida sensação das rodas se terem esborrachado lá em baixo. O nariz do avião içou-se para os céus. Um peso enorme no corpo, um vácuo no estômago, e as rodas rolavam livres no ar. Já não ouvia barulho por baixo de mim. Tinha sido substituído por um leve assobiar no exterior.

Estávamos a subir. Olhei pela janela. O chão afastava-se rapidamente de nós. O meu coração descansou. Uma excitação tremenda invadiu-me o corpo. Olhei os meus companheiros. Todos olhavam hipnotizados para o chão, talvez pensando se a ele voltaríamos em segurança. Foi grande e longa a volta que demos para ganhar altitude suficiente para o salto. Sem percalços fomos subindo, distraídos pela paisagem que víamos pela janela. O chão estava cada vez mais longe. Os objectos diminuíam proporcionalmente tornando-se peças de um gigantesco presépio. Pequenas casinhas, pequenas estradas e ribeiros, árvorezinhas, um rebanho de mini ovelhinhas com um minúsculo pastorinho e um ainda mais minúsculo canito saltitante. Que estranho que é quando conseguimos divisar, passando abaixo de nós, alguma ave! Que estranhas são as aves vistas de cima! Que baque profundo agride e viola o nosso corpo! Apetece gritar como uma criança - olha mãe, aquele pássaro lá em baixo!

Um burburinho desperta-me do sonho. O piloto está a alinhar o avião com a zona de lançamento, contra a direcção do vento. O motor acalma-se. Esforça-se para estabilizar a aeronave. O largador abre a porta e uma aragem fresca entra e envolve-nos. Lá fora está fresco. Estamos a setecentos metros de altitude e o ar aqui em cima ainda não aqueceu. Ordem para verificar equipamento. O largador, colocado junto à porta, espreita para fora e faz avançar o primeiro. Que por acaso sou eu. Avanço arrastando-me pelo chão, chego à porta, coloco as pernas para fora e fico sentado com o pé direito no estribo, agarrado com a mão direita numa pega ao lado da porta. O chão longínquo convida-me. Coloco-me em posição, agarrando-me com firmeza, inclinando ligeiramente o corpo para fora, colocando o meu peso no estribo. O largador grita:
— JÁ!!

E nesse instante qualquer dúvida que tivesse dissipa-se. Ao mesmo tempo que largo a pega projecto o corpo para a frente, procurando alinhar o corpo paralelamente ao avião numas aspas perfeitas. Por um breve instante, uma fracção de infinito, pareço voar ao lado dele, debaixo da protecção da sua asa:
— Mãe, olha! sem mãos!
Mas, não. Sinto o corpo cair e o avião afastar-se rapidamente de mim. Estou só. Completamente só. Setecentos metros de ar separam-me do solo, lá muito em baixo. Olho para o chão enquanto conto mentalmente:
— Zero zero um, zero zero dois, zero zero três.

Três segundos. É o que demora da saída até à abertura. A minha atenção está toda concentrada na tira extractora que sinto esticar e extrair o meu pára-quedas do seu invólucro. Há uma enorme turbulência à minha volta. Oiço o frufru do nylon e dos cordões que se esticam. Oiço um cordão que rebenta num estoiro que parece um tiro. Foi o cordão umbilical. Chamado fio de estropo, une a extremidade da tira extractora ao topo da calote do pára-quedas e quando rebenta — convém mesmo que rebente, ou... — separa o pára-quedas do avião. Agora sim. Nada me une aquela máquina que mais acima se afasta velozmente. Apercebo-me, até porque sei, que os outros estão também a saltar. Mas continuo concentrado em mim. O meu corpo cai cada vez mais depressa e só uma coisa pode evitar que me esborrache que nem um tomate. O tempo parece eterno. Tenho tempo para ver que lá em baixo um magote está de nariz no ar, talvez a pensar:
— Abre, não abre...

Bruscamente, a enorme mão de Deus desce dos céus, agarra-me pelos ombros e puxa-me para cima, travando a minha descida vertiginosa. Oiço um “ftau!” e faz-se um profundo silêncio à minha volta. Sei que aquele som foi a calote que se abriu completamente. Sinto-me parado no ar. Olho para cima. Lá está ela, um imenso disco verde, um grande prado de um verde lindo, magnífica brilhando ao sol. No chão não parecia tão bela! Mas outros afazeres se impõem. Isto ainda não acabou. Verifico se não há cordões passados sobre a calote. Nem um. Óptimo! A temível vela romana, em que o nylon fica aderente e a calote não insufla, já vi que não aconteceu. Os cordões estão correctamente esticados e não há enrolamento. O pára-quedas de reserva que se comprime contra o meu ventre não me vai ser, em princípio, necessário. Fixe! ‘Tá tudo o.k.. Posso gozar a descida que vai demorar ainda cerca de um minuto. Depois terei outros problemas para o contacto com o solo. Desde que não caia na água, na estrada ou em cima de uma árvore... E entretenho-me a olhar a paisagem. Que poucos têm o privilégio de ver daqui. Oiço malta gritar. São os meus companheiros, suspensos nas suas calotes, que gritam de alegria uns para os outros. De facto é o que apetece. Gritar como uma criança endiabrada quando anda pela primeira vez de carrossel. Gritar ao sol:
— Vês, o céu não é só teu! Também tenho um pedacinho!

Conforme desço, o silêncio e a paz vão-se alterando. Começo a ouvir os barulhos da terra. As vozes das pessoas, os animais, máquinas, automóveis, etc. Estou perto do solo. Tenho que me preparar para a aterragem. Molho um dedo na boca e uso-o para calcular a direcção do vento. Tenho que traccionar as tiras do lado deste para reduzir a velocidade horizontal. É o que faço. Não tenho nenhum obstáculo entre mim e o solo. Preparo a posição de aterragem. Cabeça para baixo, queixo junto ao peito. As mãos a traccionar com força as tiras, cotovelos para dentro, para o estômago, para não partir nada. Pernas unidas e ligeiramente flectidas. Calculo a flexão tirando visualmente uma mirada entre os joelhos e as biqueiras das botas. Pés paralelos ao solo. Tento não retesar o corpo e aguentar a posição. O chão aumenta rapidamente e parece vir ao meu encontro. Estou quase, quase, quase... “Tram!” As minhas botas tocam o solo. Flicto as pernas e, ao mesmo tempo, rodo o corpo para o rolamento. A minha nádega toca no chão. Em cima de um calhau. Porra, doeu! Rolo e levanto-me rapidamente correndo em torno do pára-quedas, tombado de lado como uma alforreca. Evito o arrastamento e a calote fecha-se vergando sob o seu próprio peso como um balão que perdeu o ar. Faço uma dobragem sumária usando os braços estendidos como para enrolar uma corda. Dirijo-me ao local onde deixara o saco e arrumo o pára-quedas.
Acabou. Fica-me para sempre a recordação. Daqueles três segundos durante os quais toquei os deuses. Só os pára-quedistas sabem porque cantam os pássaros!

josé antónio, Oeiras


foto: autor desconhecido, Portugal 1979

quinta-feira, janeiro 12, 2006

ainda a tempo


Está a chegar ao seu termo o exercício que propus no último dia 4.
Recordo que se trata de reconhecer a praia da fotografia e que o prémio é uma bica na esplanada da mesma, em dia a combinar.
Até agora ainda ninguém acertou.
Quem se quiser candidatar ainda vai a tempo de o fazer.
Clique no título deste post ou vá a 4 Janeiro 2006.

Se não pela bica, pelo menos pela soberba vista que se disfruta do local, tentem lá!

sábado, janeiro 07, 2006

lê o que 'tá lá escrito...


Quase todos os dias assisto a cenas que me deixam indignado, pelo que carregam de intolerância e falta de civismo e de espírito solidário entre pessoas humanas (que o deviam ser e que advogam sê-lo...) Isto para não lhe chamar, simplesmente, 'estupidez', que é uma palavra que detesto e que, em alternativa, substituo por irracionalidade e falta de amor ao próximo. E, porque não, falta de um bocadinho de amor-próprio?
E o que talvez ainda me incomoda mais é que na maioria dos casos, estes resultam de simples falta de bom senso de um, de outro ou de todos os intervenientes.


Vem isto a propósito de uma cena a que assisti ontem, por volta da hora de almoço, quando esperava uma camioneta para a estação de Oeiras na paragem junto ao Pingo Doce de Sassoeiros, a qual se situa ao lado dos semáforos no entroncamento da Av. da República com a Av. D. José I.

Quando cheguei à paragem cerca das 13:20 já lá estavam duas senhoras, sentadas no banco do abrigo. Eu fiquei de pé um pouco afastado, porque a camioneta ali, devido ao semáforo, pára sempre um pouco mais atrás. No entretanto chegou um outro senhor que ficou também de pé, ligeiramente recuado em relação a mim.

Passados seriam alguns minutos eis que surge uma camioneta, que encosta à berma, se imobiliza e abre a porta. Não me mexi pois, apesar das minhas limitações visuais, eu tinha conseguido ler a bandeira e percebido que era a camioneta destinada à Parede e que, assim sendo, não me servia.
Uma das senhoras levantou-se, avançou e entrou na camioneta.
A outra senhora, mais jovem, avançou também mas imobilizou-se à porta sem entrar e dirigiu-se ao motorista questionando-o sobre o destino da camioneta. Eu estava bastante perto e ouvi o diálogo.
A resposta do motorista, apontando para cima, foi e pasme-se: "LÊ O QUE 'TÁ LÁ ESCRITO!"...

Exactamente, isso mesmo. Assim. Como se estivesse a admoestar um miúdo calão e traquina. Aquele senhor motorista supõe certamente que toda a gente sabe ler, que o consegue fazer quando a camioneta se vem a aproximar, que a bandeira e o texto são bastante legíveis, que não existem pessoas com dificuldades visuais, ou até que possam estar distraídas, etc. etc. etc.
Aquele senhor motorista deu a resposta ERRADA...

Não faço a mais pequena ideia se aquela reacção e forma de tratamento do senhor motorista se deveu ao facto da senhora ser preta. Não o julgo, porque também ele, senhor motorista, o era. Também não me pareceu que fosse por se conhecerem. Ela não deu qualquer sinal nesse sentido e mostrou-se indignada. Seja como for, este caminho 'étnico' não conduz a nada, não vou por ele e repudio-o. Na verdade, e isto é que é importante, é que nada justifica que o senhor motorista tratasse uma passageira (uma CLIENTE...) daquela forma!!


Quero ainda deixar aqui expresso que utilizo os serviços da Stagecoach há cerca de 10 anos, quase diariamente. Assim, são muitos os motoristas que conheço, pelo menos de vista, mesmo não sabendo os seus nomes. Da maioria deles tenho a melhor impressão. São de um modo geral pessoas tolerantes, compreensivas e competentes. Este post não tem qualquer intenção de os agredir. Mas como diz o povo:
"No melhor pano cai a nódoa".

foto: © josé antónio, 2006

quarta-feira, janeiro 04, 2006

uma bica a quem reconhecer esta praia

Este é o PRIMEIRO post deste ano 2006 que ainda agora começou. Havia tanta forma de começar a 'postar': fazer o balanço, positivo vs. negativo, do ano que acabou, criticar a porra dos aumentos de preços, a gaita da diminuição do poder de compra, falar mal dos candidatos, de todos eles, mandar vir com a falta de perspectivas de futuro, etc., etc., etc... Fazer o que toda a gente faz.
Mas como gosto de ser diferente, este é um post diferente.

O propósito deste post é propor um pequeno exercício para testarem os vossos conhecimentos sobre o litoral português.
Não se preocupem com o puto, que hoje tem mais 48 anos que no dia em que a fotografia foi tirada.
Também não o vou identificar e, mesmo que o fizesse, isso para vós teria uma importância tão nula como a existência de vida microbiana num planeta do sistema Saiph (se é que existe lá algum...) Se se cruzarem com o miúdo na rua, não o vão reconhecer de certeza!!
Concentrem-se apenas na fotografia e nos pormenores da mesma.
E não é preciso ter mais de 48 anos para resolver a Questão. Basta conhecer o local (pelo menos já ter por lá passado) e ser bom observador.


EXERCÍCIO

Tempo: 90 minutos.



Questão: EM QUE PRAIA FOI TIRADA A FOTOGRAFIA?

Resposta: _______________________________________ (JUSTIFIQUE)



Pago uma BICA, nesta praia, a quem acertar. E JUSTIFICAR a resposta. Sim, 'à sorte' não vale, levam ZERO, que isto não é nenhum teste tipo americano...

Nota: A Correcção do exercício será apresentada antes da Páscoa, se a ministra não mudar entretanto...

sábado, dezembro 31, 2005

chove em hueiras...


Hoje de madrugada, aí pelas 2 h., consultei o site do Instituto de Meteorologia para ter uma ideia do tempo que os manda-chuvas nos reservavam para a passagem de ano, em especial se teríamos chuva.
A informação disponibilizada dizia que ia chover em Lisboa e arredores. O.k., mas será que eles iam acertar?

Desde manhã que o meu gato Pasoca tem andado desaparecido.
É um magnífico exemplar macho (virgem, coitado) de cor negra, com 5 anos.
Habitualmente está deitado em cima do monitor do computador, em cima do livreiro da sala, ou à porta do quarto a miar, a rasgar o ténue filamento que ainda mantém a minha mulher ligada à estabilidade psicológica, levando-a a gritar como uma possessa com o inalcançável e impossível intuito de o fazer calar.

Mas hoje não. Não o via em lado nenhum. Eu sabia que ele tinha que estar cá em casa. Não tem maneira de se pirar, não temos quintal porque vivemos num andar e também não temos portas ou janelas abertas.
Então lembrei-me de episódios passados. A experiência destes 5 anos de convívio, em que temos sido os animais de estimação dele, veio-me à memória.
O Pasoca pode não ser formado em Climatologia ou Meteorologia, mas tem um faro especial para o que está para vir.

Procurei-o. Não foi difícil encontrá-lo (a casa também não é muito grande). Lá estava ele, refundido desde manhã, debaixo da mantinha em cima do sofá (ver foto; aquele altinho da mantinha vermelha é o gajo).
Tenho um gato que sabe que vai chover (mesmo não andando na rua). Esta é a atitude típica dele. Ele lá saberá como adivinha o tempo. Talvez consiga farejar a chuva. O que é certo, e já o constatei muitas vezes, é que quando está para chover, o fulano enfia-se debaixo da mantinha ou, em alternativa, refunde-se dentro dos roupeiros.

Afinal, para que preciso eu do site do Instituto de Meteorologia? Basta-me olhar para o Pasoca para saber se vai chover ou não!

nota: para confirmar o que digo, ainda há pouco começou a chuviscar cá no burgo.

foto: © josé antónio, 2005 (ainda em...)

novas previsões Karamba e mais búzios


Em 06 Mar 2005 apresentei, antecipadas, as previsões Karamba.
Pareceu-me de bem, ou não fossemos todos pessoas de bem, agora que estamos a chegar ao terminu do ano e que 2006 está a bater-nos à porta, num gesto de são, sincero e franco espírito democrático, republicar as mesmas, agora actualizadas com um nóvel acervo de previsões (na medida em que adquiri um novo e espectacular conjunto de búzios de Madagáscar de alta precisão, através do E-bay).
Assim, aqui ficam as previsões na altura feitas (a), as novas previsões re-buziadas (h) e os meus comentários de hoje (c):

(a) - Jorgio Sampas, de casaca virada, colarinhos engomados e chapéu alto, aceita convite formal para ingressar no PSD.
(c) - Já esteve mais longe...
(h) - E é convidado para presidir à Distrital de Lisboa.

(a) - Feitas du Am'ral, com um pc-wintel da micro$ofre made in Taiwan, inscreve-se online no Bloco de Esquerda.
(c) - Já esteve mais longe...
(h) - E é o cabeça de lista do BE nas eleições legislativas.

(a) - Paul Tortas, iluminado por Deus a quem pediu ajuda e protecção, publica uma autobiografia intitulada "Vida Submarina".
(c) - Já esteve mais longe...
(h) - A Marinha convida-o a visitar a dorsal atlântica numa fragata Meco. Recusa, porque prefere ir à fossa ao Mindanau.

(a) - Isaltado de Morales transfere verbas para um sobrinho, carroceiro no Sri Lanka, e pela milésima vez é presidente da Câmara Municipal de Oeiras.
(c) - Nem são precisos os búzios...
(h) - Um turista milionário texano propõe à Câmara de Oeiras comprar-lhe o SATU para instalar no seu rancho de 3.000 ha no Texas. O povo de Oeiras grita "Vendam essa merda já, porra!"

(a) - O Caso 'Casa Bia' é arquivado por falta de provas; Bibocas e Carl Cuz abrem uma creche multimédia.
(c) - Acertei quando disse que iam sair todos em liberdade...
(h) - No verão rebenta um novo escândalo a envolver ambos e todos os outros. São acusados de terem roubado uma caixa de preservativos a um adolescente no Parque Eduardo VII, e de lhos terem metido um a um no recto, insuflados com matéria carnuda e dura.

(a) - O Sporting sagra-se Campeão Nacional de Futebol... verdade ! juro !
(c) - Já esteve mais perto...
(h) - O SCP muda a cor das camisolas para vermelho, a ver se dá mais sorte.

(h) - Cabaco Silve é eleito presidente da república e a sua primeira medida é que todos os topónimos começados por 'Poço' sejam mudados para 'Fonte'. O primeiro a ser alterado é o Poço do Bispo.
(c) - Antes de ele ocupar o Palácio de Belém, era boa ideia remover de lá todas as mantas e tapeçarias, não vá a 'Maria' tecê-las...

(h) - Ieronimus de Susa inventa o pseudónimo, internacionalista, 'James' e publica sob-pseudónimo o romance 'Até Depois de Amanhã, Tovarich'.
(c) - Vai ser um sucesso de vendas na Festa do Avante...

(h) - Francis Louça, com o dinheiro arrecadado nas eleições, compra uma casa na Quinta da Marinha e um Ferrari, é descoberto pela SIC e acaba expulso do partido. Ferdinand Roses torna-se o cabecilha... perdão, a cabeça do Bloco.
(c) - Assim se parte a louçã toda...

(h) - O Papa Bendix XVI escreve uma Encíclica contra os infiéis e os pandeleiros.
(c) - Sem comentários...


Agora a sério:

QUE O ANO NOVO SEJA O ANO DA TRANSMUTAÇÃO DE TODOS OS VOSSOS SONHOS EM REALIDADES !!!

!!! ÓPTIMO 2006 !!!


foto: © josé antónio, 2005

segunda-feira, dezembro 26, 2005

à custa dos doentes

Encher os cofres do estado à custa dos doentes...


Para todos aqueles que ainda acreditam ingenuamente que o estado português não é HIPÓCRITA e merece respeito, aqui está um exemplo flagrante dessa hipocrisia, colhido numa decisão do governo (com minúscula) que o representa e desgoverna. A notícia é de hoje e da SIC online:

"O tabaco vai aumentar cerca de 15 por cento já a partir de 1 de Janeiro. O maço de tabaco sobe em média mais 35 cêntimos. (...) O Estado espera desta forma arrecadar mais 180 milhões de euros. (...)"
in: http://sic.sapo.pt/online/noticias/dinheiro/20051226+-+tabaco+mais+caro.htm

Não é verdade que o tabagismo é uma DOENÇA? É o que dizem todas as campanhas anti-tabagismo. E dizem também que o fumador é um doente.
Não é verdade que esta doença é particularmente DIFÍCIL de curar? É muito maior o número dos que tentaram a cura e não conseguiram ou reincidiram, que o dos que tiveram efectivo sucesso.
Então que nome se pode dar a esta atitude de penalizar este particular tipo de doentes, já de si muito penalizados pelas doenças associadas e custos associados ao tabagismo, fazendo-os PAGAR IMPOSTOS em duplicado?

Porque é que o estado não leva esta atitude mais longe, legalizando o consumo de drogas e criando um imposto sobre o consumo das mesmas? Sempre arrecadava mais uns MILHÕES...

nota 1: A 'desculpa' de que o aumento de preço contribui para diminuir o consumo de tabaco é uma FALÁCIA. Se fosse verdade as tabaqueiras já tinham ido à falência. O consumo tem AUMENTADO, sobretudo entre os jovens, por mais que os preços aumentem. E aumentaram muito: há 30 anos um maço custava em média 2 cêntimos (5$00).

nota 2: Eu até estaria de acordo com o aumento, se o imposto arrecadado fosse TODO para investir na SAÚDE. Mas isto é um mito e uma ilusão. Sabemos bem para onde vai ele...

foto: © josé antónio 2005

quarta-feira, dezembro 21, 2005

a saga do beduíno VII - neve sobre o beduíno

Talvez alguns de vós já estejam com saudades da dramática 'saga do beduíno' iniciada em 25 de Março de 2005 com o seu primeiro episódio e continuada nos dias subsequentes, mas que imperativos de ordem ontológica superior obrigaram a interromper no episódio VI em 30 de Março de 2005.
Retomamos aqui a estória no seu episódio VII, para não defraudar os nossos eméritos e imensos leitores que tão veementemente apostaram na veracidade inquestionável dos factos relatados. Segue o episódio:

a saga do beduíno VII - neve sobre o beduíno

A neve caía copiosamente sobre a pobre e oblíqua cabeça do beduíno (português), que estremeceu num arrepio de frio, num gelo que lhe percorreu a óssea espinha.
Os minúsculos flocos cristais de gelo eram como pontas de alfinetes a agredir a sua rude e áspera pele tostada pelo sol queimada pelo tempo assada pelo vento violador das estepes arenosas do deserto.
Assada como as suas virilhas eram assadas.
Andar no deserto palmilhar os espaços infindáveis calcorrear as picadas invisíveis matrizadas pela memória, pode assar as virilhas a qualquer um.

Lembrou-se dos chatos (Phthirius pubis) que apanhara com as danccarinae ventralis, e as imagens daqueles corpos lascivos, luxuriosos, gordurosos e a cheirar a haxixe nos quais deixara amolecer a sua essência, intumesceram-lhe o membro dito viril. O que agravou ainda mais a sensação de queimadura nas virilhas.
Mas o seu verdadeiro problema era a neve. Andar na areia já é difícil. Fazê-lo debaixo dum forte nevão... Porreta, cagalheta!
Em milhares de anos nunca ninguém tinha visto nevar no deserto. O mais perto que alguma vez algum beduíno estivera do frio e do gelo provavelmente fora no mercado de Agadir, frente ao carrinho do vendedor de gelados de cone e coca-colas.

Aqui devemos colocar uma nota.
NOTA: todo o beduíno que se preze sabe que a melhor forma de tirar o tesão aos dromedários é enfiar-lhes um gelado de manga pelo ânus acima. Não há conhecimento de dromedário que, após sodomizado por um belo dum gelado de manga (ou outra fruta), se tenha posto com brincadeiras sexo-fantasiosas no meio da cáfila a atrofiar a progressão da caravana!!! (para falar verdade, o método é válido também para os humanos.)

E a puta da fria neve que não parava de cair. Já lhe doíam os cornos (uma costela ribatejana). A neve acumulava-se e formava um manto branco espraiado que engrossava e dificultava a progressão. Os seus pés, habituados a mergulhar na quente areia dunar, enterravam-se obscenamente, porcamente, na neve, formando à sua volta charcos de água arenosa que rapidamente voltava a congelar. Puta que pariu! A culpa desta merda foi de terem ido à Lua! Pensou o beduíno, mais para se convencer, do que para se justificar da sua inatitude ramelosa. Os seus olhos estavam cheios de ramelas com semanas de vida. Estava mesmo um frio de merda!

O beduíno lembrou com saudade o doce calor das bostas de dromedário nas quais estivera mergulhado. Tão quentinhas!

Veio-lhe à memória um fadinho:
— Ai quem me dera... que um dromedário me cagasse em cima...

domingo, dezembro 18, 2005

!!! BOAS FESTAS !!!



Votos de FELIZ e SANTO NATAL e BOM ANO NOVO !!!

Ah, já agora: Lembre-se dos outros...

desenho: © josé antónio 2005
clique na imagem para ampliar.

segunda-feira, dezembro 12, 2005

uma foto para a SARA


Ofereço esta fotografia à Sara, que adora cogumelos mas detesta fungos nas paredes ;) , e que tem o seu blog aqui: http://saramm.blogspot.com/
Se não quiser ter o trabalho de escrever o endereço clique no título deste post ou procure SaraMM nos links à direita.

clique na foto para ampliar.

domingo, dezembro 11, 2005

são trevo, senhor !


Porque hoje é domingo aqui fica um passatempo para o/a repousar e divertir.
Clique na foto para ampliar e divirta-se à procura de um trevo de quatro folhas.
Quem sabe? Pode ser que encontre algum! Talvez lhe traga sorte para o sapatinho! :)

quarta-feira, dezembro 07, 2005

O OUTRO LADO DA MOEDA


Há dias em que fico assim... há dias em que vejo coisas que me esfrangalham completamente e me fazem sentir culpado de estar vivo, há dias em que me sinto um ser abjecto, uma grotesca obscenidade, preocupado que estou com as minhas coisas comezinhas, esquecido do mundo, como se não existisse mundo para lá de mim, mas existe... há dias em que me apetecia nunca ter nascido, há dias em que até o respirar me dói e me crucifica, há dias em que desejo que me metam numa camisa-de-forças e me internem e me enfiem num quarto almofadado de paredes brancas onde eu possa marrar com os cornos nas paredes à vontade até ao fim dos meus dias ou me levem para uma tourada de morte em Barrancos e me ponham no papel do touro... PORRA !!!

Clique no título do post, corra a página até encontrar Portugal e clique em Flash Exe para ver O OUTRO LADO DA MOEDA.

Sem comentários (antes que enlouqueça de vez...)

sábado, dezembro 03, 2005

não tem mal nenhum


Ontem fui surpreendido, ao consultar o Site da SIC, por esta notícia:
"Não aos trabalhadores fumadores"
Novo critério de contratação na Organização Mundial de Saúde
A Organização Mundial de Saúde vai deixar de contratar fumadores. A agência das Nações Unidas justifica a medida por imperativos de credibilidade .
A partir de agora, a pergunta “É fumador?” passa a estar incluída nos formulários de candidatura a um emprego da Organização Mundial de Saúde (OMS).
Se a resposta for afirmativa, a candidatura é logo excluída. Se a resposta for negativa, mas se se confirmar que o candidato/trabalhador mentiu para ser admitido nos serviços, este vai ser sujeito a medidas disciplinares.
Quanto aos funcionários fumadores existentes, a agência das Nações Unidas vai passar a oferecer apoio médico e económico para que deixem de fumar. O regresso à OMS só acontecerá se o indivíduo deixar de fumar.
Num comunicado interno enviado a todos os trabalhadores, a direcção da OMS justifica esta medida por imperativos de credibilidade e imagem da instituição, que deve dar o exemplo já que desempenha um papel internacional na luta contra o tabaco.
De acordo com dados da própria organização, sediada em Genebra, o tabaco é a principal causa de morte evitável do mundo. Anualmente mata, directa ou indirectamente, quase cinco milhões de pessoas."
in: SIC ONLINE


O meu espírito sentiu-se agredido e insultado como se o tivessem metido numa prensa de azeite. Fiquei completamente amarfanhado.
Não por eu ser fumador, que assumidamente sou, não por ser candidato a emprego na OMS que, garanto, não sou, mas porque ouvi ao longe soarem as trombetas do FASCIZOIDISMO !!!

Não me canso de alertar para certas ideias que a priori parecem boas e justificáveis, mas que na minha perspectiva transportam no seu íntimo e nos interstícios um permissivismo ideológico e uma intolerância perigosas.
Não me canso de avisar que foi assim que o 'inocente' nazismo e muitos 'angelicais' fascismos começaram.
Se lermos as teses nazis à luz da época em que foram produzidas facilmente constataremos que 'não tinham nada de mal...'
E se calhar até aderiríamos a elas como milhões de alemães fizeram.
O pior foi o resto. Basta uma pequena faísca para incendiar e destruir uma floresta.

A minha preocupação é que estas ideias aparentemente inocentes, abrem um precedente que permite a posteriori outras ideias muito graves e perniciosas.
E para as mesmas se imporem basta o facto de as populações já terem aderido à 'ideia-base' que subjaz a todas as outras e que 'não fazia nenhum mal'.

Se se for por tal caminho, já os estou a ver daqui a adoptarem a mesma 'filosofia' para a contratação de médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, técnicos farmacêuticos, vendedores de rua de pensos rápidos, etc...

E, já agora, porque não generalizar e adoptar a mesma ideia para quem bebe bebidas alcoólicas, para os diabéticos, para quem quer ter filhos, para quem usa óculos, para quem sofre de hemorroidal, para quem masca pastilha elástica (chuinga) ou até para quem usa peúgas cor-de-salmão...
São tudo coisas que prejudicam fundamente a imagem de qualquer empresa ou instituição.


PRIMEIRO LEVARAM OS COMUNISTAS,
MAS EU NÃO ME IMPORTEI
PORQUE NÃO ERA NADA COMIGO.

EM SEGUIDA LEVARAM ALGUNS OPERÁRIOS,
MAS A MIM NÃO ME AFECTOU
PORQUE NÃO SOU OPERÁRIO.

DEPOIS PRENDERAM OS SINDICALISTAS,
MAS EU NÃO ME INCOMODEI
PORQUE NUNCA FUI SINDICALISTA.

LOGO A SEGUIR CHEGOU A VEZ
DE ALGUNS PADRES, MAS COMO
NÃO SOU RELIGIOSO, TAMBÉM NÃO LIGUEI.

AGORA LEVARAM-ME A MIM
E QUANDO PERCEBI,
JÁ ERA TARDE.

Bertolt Brecht (1898-1956)


ilustração: © josé antónio

quarta-feira, novembro 30, 2005

solução dentária de um pobre


Há verdades insofismáveis. Esta é uma delas. A de que poucas são as pessoas que chegam ao fim da vida com os seus dentes naturais. A excepção, de um modo geral, aplica-se àqueles que por esta ou aquela razão morreram novos. E muitos, talvez nunca tenham entrado num consultório de dentista. Tinham carros demasiado velozes.
Para todos os outros, que somos nós, a realidade é outra. A nossa vida é um permanente atentar contra a saúde dos nossos dentes por via do tabaco, do álcool, das drogas, de utilizar os dentes para abrir embalagens teimosas, dos maus hábitos de higiene dentária, lambidelas das gengivas alheias e dos dentes cariados dos parceiros e parceiras, chupadelas de línguas, sexo oral, fellatio, cunilingus, beijos no ânus e etecéteras.
A verdade é que para a maioria de nós, mais cedo ou mais tarde, numa corriqueira consulta de dentista o homem da bata branca e alicate na mão nos agride com aquela afirmação "estes dentes estão muito beras, têm que ser tirados, depois pomos uma prótese dentária..."
E a calma e descontração com que os gajos dizem isto! Como se fosse um mecânico a dizer a um cliente que o carro precisa de mudar o filtro de óleo...
Enfim, alguns mais aventureiros, ou talvez resignados, aceitam a coisa à primeira (julgo que talvez por acharem que a vida é uma foda permanente e por isso...) Outros só se deixam convencer após um ou dois anos de dores de dentes, abcessos, terabites de analgésicos, antibióticos e anti-inflamatórios, uma estupidez auto-administrativa pseudo-medicinal porque o problema é mesmo e só: um dente na merda e a solução é extirpar o diabinho.

Então, marcada a consulta lá se apresenta o 'desgraçado' para a matança. Sim, matança. Um dente é uma coisa viva e, já agora, uma coisa viva que faz parte do nosso corpo, porra!
Não valerá a pena entrar agora em pormenores sórdido sobre a extracção dos dentes para não ferir susceptibilidades. Há pessoas muito sensíveis à visão do sangue e de agulhas, além de não suportarem o barulho da broca (brrrrrrrrrrrrr). A verdade é que um bom dentista, em pouco mais de 5 minutos, é capaz de extrair quase todos os 32 dentes a um ser humano. E se for alentejano ainda arranja tempo para ir dar uma rapidinha à Maria Papoila, que anda a pedi-las.
Quanto a prótese dentária (no vulgo conhecida por 'placa' ou 'dentadura') o arranca-dentes tem o hábito de propôr 3 preços, correspondentes, grosso modo, aos 3 estratos sociais. A 'perereca', a mais barata e de pior qualidade, que se racha ao meio três meses depois à primeira pratada de cozido à portuguesa ou entrecosto na brasa; uma assim-assim que se aguenta bem desde que se cole com polident, mas não é das melhores e passa a vida a querer fugir da boca, sobretudo quando a pessoa espirra, tosse, dá um peido ou faz força para defecar; e a totalmente de acrílico, feita à medida, super, a mais cara, à prova de raios gama e que dura até à próxima glaciação (como se um gajo estivesse preocupado com essa merda...)
O problema que sempre se coloca, e isto é um drama português que parece não ter fim, é estabelecer a melhor relação qualidade-preço. Claro que a priori qualquer um optaria pela placa de melhor qualidade, mesmo sendo a mais cara, se tivéssemos um serviço nacional-racional de saúde decente. Mas não temos. As placas saem-nos, literalmente, do bolso, para nos entrarem pela boca dentro.
Assim, as pessoas avaliam o que podem pagar e juntam-lhe a previsível comparticipação, quando esta é possível, perguntam ao homem da bata branca se podem pagar em duas vezes com cheques pré-datados e escolhem. Enfim, é como é.

Agora o meu drama.
Eu passei por esta merda!
Com uma diferença. Não havia comparticipação alguma e tudo tinha que ser pago do meu bolso. Que tinha um buraco no fundo maior que a c... da Cicciolina, pois!
Assim, pedi milhões de desculpas ao homem da bata branca, disse-lhe para me arrancar os dentes, mas que quanto à placa precisava de tempo para pensar, e que depois lhe diria alguma coisa.
Um dia de manhã lá fui à consulta e voltei com cinco dentes a menos. Não, não doeu mas é uma sensação estranha a porra da língua encostada à parte interior lisa e molhada do lábio inferior. Um gajo tem uma permanente sensação, que dura dias, de estar a fazer uma trombada!
Seja como for, eu tinha um problema para resolver. Precisava duma placa e as soluções propostas pelo homem da bata branca não se me afiguravam exequíveis. Eu andava mesmo muito desabonado.
Então, para pensar no assunto, um dia lembrei-me de ir passear até à cidade-luz. Não, não é Paris. Vocês têm a certeza que conhecem Lisboa?
Fui andando por ali às voltas a passear ao acaso até que me apercebi que estava no Campo de Sta. Clara e que era dia de feira. Pois, eu tinha, por coincidência, ido parar à Feira da Ladra, um dos mais importantes centros comerciais de Lisboa. Curioso, gosto de velharias, velhacarias, e também de apreciar as coisas roubadas, circulei pela feira descontraído. Mais ou menos. Ia particularmente atento ao bolso do blusão onde transportava a carteira e ao bolso dos jeans onde tinha o telemóvel. Nunca se sabe.

E então aconteceu. Ao acercar-me de uma banca, que não passava de um trapo cinzento emporcalhado estendido no chão com tralha em cima, vi uma impresssionante caixa de sapatos.
O que tem de impressionante uma caixa de sapatos? Nada. O que me impressionou naquela é que estava cheia de... dentaduras!
Montes e montes de dentaduras de todos os tamanhos e feitios. Havia algumas muito brancas, duas ou três mais amareladas, uma acastanhada com sinais de nicotina de fumador de cachimbo, outra com os incisivos magnificamente estalados e, impressionem-se com a riqueza do acervo, até uma com um pedacinho de um palito e restos de comida entre os dentes!
Perguntei ao homem o preço.
O homem, um magriço escanzelado com olhos de cão à espera de ser atropelado, e uma tromba que me lembrou vagamente um porco que vi numa feira de gado em Travanca, respondeu-me que "as simples custavam 5 € e as outras 7 €". Não percebi lá muito bem aquela distinção entre 'simples' e 'outras' mas pareceu-me que tinha a ver com o número de dentes. Ou com as ventas dos clientes...
Ora eu precisava de uma com 5 dentes para o maxilar inferior.
Disse isso ao rapaz-fronha-de-suíno e ele tentou impingir-me uma, suja de bâton rosa, de facto com cinco dentes, mas para o maxilar superior. Disse-lhe que não dava e ele, com argumentos que me lembraram os políticos em campanha eleitoral, tentou convencer-me a usá-la e que dava se a virasse de pernas para o ar! Fiquei fodido com o gajo! Estes cabrões andam a gamar para a droga e ainda me tentam ludibriar! Estive a ponto de explodir e mandar o gajo "bardacaca, bardachicha e bardaporra", para não o mandar "bardamerda", mas lembrei-me do governo e acalmei.
Respirei fundo, remexi e remexi na caixa com as placas, e acabei por finalmente escolher uma, após a ter posto na boca para ver se me servia. Não magoava e era a minha medida. Não tive coragem para perguntar ao moço-reco se tinha um espelho onde eu pudesse apreciar a composição do meu rosto com a placa. Temi que me mandasse bugiar e que já não me vendesse a placa, o que seria uma lástima.
Ainda me quis levar 7 € pela placa com o argumento de que a mesma tinha pertencido a um conhecido professor universitário, mas não acreditei na história e dissse-lhe isso mesmo, argumentando com ele que o sabor a fénico da placa demonstrava sem margem para dúvidas que a mesma pertencera a um fiscal das actividades económicas gay ou a um sacerdote pedófilo. O tipo aceitou o argumento, depois de olhar desconfiado em redor de nós, pediu desculpa, acho que "A do professor é esta mais amarelinha", e aceitou os 5 €.

Meti a dentadura na boca e voltei para casa, sorridente, sentindo-me um homem novo.

calcário anarca

terça-feira, novembro 29, 2005

¿HAS VISTO A MI PADRE?



Clique no título do post para aceder às petições da Amnistía Internacional ao Rei do Nepal e à guerrilha maoísta, ou escreva no browser: https://www.es.amnesty.org/ssl/nepal/interes/?origen=nepal

sábado, novembro 26, 2005

iluminações natalícias...


nota: este post está no meu blog Olharapo. Foi feito para ele mas... apeteceu-me colocá-lo também aqui!

Há vários dias que ela está ali e nunca a vi acesa a iluminar o local. A primeira coisa que me veio à cabeça quando a vi foi que alguém substituira uma lâmpada fluorescente ali por perto e não se dera ao trabalho de colocar a fundida no lixo, preferindo abandoná-la, perigosamente, a um canto. As coisas que eu imagino! Sou mesmo maquiavélico!

Mas entretanto comecei a raciocinar procurando fazê-lo com lógica, bom senso e sem preconceitos, afugentando do meu espírito qualquer eflúvio maldoso. E cheguei a uma dedução diferente. Deveras diferente.

Talvez em boa verdade se trate de uma nóvel, e económica, modalidade de iluminação natalícia que consista em espalhar ao acaso lâmpadas presumivelmente fundidas pelos passeios e ter a esperança, e sobretudo a fé, de que um milagre as acenda ao anoitecer, iluminando primorosa e maravilhosamente o nosso Concelho, enchendo o ar de doçura cálida e reconfortante.

Vou ficar à espera do anoitecer e ter muita, muita, muita fé para assistir a esse espectáculo maravilhoso que vai ser aquela lâmpada acender e iluminar a noite fria e aquecer os nossos depauperados corações. Já me parece ouvir ao longe o tilintar dos sinos e o drapejar das asas dos anjos! HOSSANA!

p.s.: valerá a pena falar de toxicidade e de civismo?

fotografia: © josé antónio 2005
local: estacionamento do Pingo Doce de Sassoeiros / escada de acesso à Torre Soleil.
data: 23 NOV 2005, 15:11

(clique na foto para ampliar)

quarta-feira, novembro 16, 2005

l'huomo diroxo e Mutcha

Em rigor, esta estória não pode ser considerada o primeiro episódio da saga "l'huomo diroxo, mutcha e siegref". Em verdade mesmo, a saga não está completa e é constituída, neste momento, por estórias esparsas sem grande alinhamento. Em todo o caso, sem esta estória nenhuma das subsequentes faz sentido, na medida em que esta introduz personagens, e dá um certo 'ambiente' e uma certa 'cor' à saga, pelo que pode ser considerada uma espécie de introdução.
Assim, a pedido da SaraMM, aqui fica:

L'HUOMO DIROXO E MUTCHA

atracções

Naquela parte da cidade as ruas eram cinzentas e sujas. Velhos edifícios abandonados, arquitecturas antigas, funções duvidosas. Vapores fétidos subindo por todo o lado, saindo de buracos engradados, no pavimento pejado de poças de água oleosa por toda a parte, conspurcado de detritos industriais e restos orgânicos.
Um saltinho...priii! Outro saltinho...priii! Ainda outro...chap!

l'huomo diroxo saltitava ao longo da rua sem passeios. Indiferente às poças de água que existiam por todo o lado, saltitava. Mãos nos bolsos, apito na boca, a pés juntos saltitava. A cada saltinho, uma apitadela. E assim avançava. Um saltinho...priii! Outro saltinho...priii! Ainda outro...chap! Entretanto, enquanto l'huomo diroxo saltitava na inconsistência do tempo e na insolubilidade da rua esparrinhando água das poças em todas as direcções, a noite caía, escorria pelas paredes, pelos objectos que encontrava no seu caminho. A noite caía escorrendo pelos corpos, sorvendo tudo o que encontrava. A escuridão fechava-se em torno dele, d'el huomo diroxo, ao mesmo tempo que alguns candeeiros — dos poucos que funcionavam — se acendiam soluçantes, enquanto perigosos smorfles ameaçavam invadir o negrume cúmplice da ausência de luz, ensaiando curtos voos, prenúncios do seu domínio das trevas. Naquele lugar, naquela cidade, o cosmos avançava e o caos recuava. Ao longe ouviam-se sons, sonoridades saxofónicas dolorosas e frementes, rasgando a noite como gritos de mocho, lembrando gotas de água a pingar sobre metal. Saltitando, l'huomo diroxo prosseguia, a pés juntos. Saltitando e apitando, saltitando e apitando...

Do outro lado da cidade, as ruas também eram cinzentas e sujas. Velhos edifícios de arquitecturas abandonadas, duvidosas intenções. Fétidos detritos orgânicos em movimento, arfantes (vivos?), alguns parados pelas esquinas, mergulhados em poças de água, reflectindo neons. Do outro lado da cidade a noite não existia. Melhor dizendo, a noite estava de tal modo transfigurada que parecia não existir. A ilusão era a norma. A ilusão era o ser. A ilusão era o caos. A ilusão... passar a noite em claro...
O olhar oblíquo, o cigarro ao canto da boca, a barba por fazer, as sereias no cais, o rugido dos motores das naves preparando-se para partir, a quietude do rio embalando ilusões (algumas dolorosas), mulheres do dia passeando na noite, neons estalando, doendo nos olhos, pavor do negro, da luz que se apaga por falta de corrente... E os pingos de água caindo sobre metal. E os mochos piando na noite, ecoando nos eucaliptos da imaginação...

Aí caminhava Mutcha. Cruzando neons, desviava-se rápida e bruscamente, no seu ar de habituée, dos obstáculos que lhe surgiam pela frente. Caminhava Mutcha. Na mão, um pião. Enquanto caminhava, descontraída, cantava mentalmente: eu tenho um pião, um pião que gira... eu tenho um pião a girar na mão; o pião, por seu turno, parecia um mocho. De madeira. Ilusão? Rumo ao bar, com o livre-trânsito no bolso, caminhava Mutcha, de pião na mão, e mochos esvoaçando no ar, cantando mentalmente. Para si própria? E assim prosseguia a noite que não era noite... Mutcha prosseguia. Indiferente, afinal, aquilo que já conhecia bem. O mocho a piar, os saxofones a tocar, o pião na mão, a canção a martelar-lhe o cérebro...

Também prosseguia, do outro lado da cidade, saltitando, l'huomo diroxo. Sem destino, resignado à sua condição de 'saltitão que apita'. Algures, l'huomo diroxo saltitava. Ausente. Foi subitamente que se apercebeu do silêncio. Parou bruscamente como se tivesse chocado com uma parede invisível. A sonoridade saxofónica que o acompanhara ao longo do seu deambular à deriva não se ouvia. Imobilizou-se. Completamente. A pés juntos. Apito suspenso entre os lábios. Respiração suspensa à entrada do apito. Apurou os sentidos. Tentou ouvir... Nada! Não se ouvia nada. Nem os smorfles. Parecia que tudo tinha parado. Então, no meio do silêncio, sem saber porquê ou como, ouviu uma canção bater-lhe no cérebro: eu tenho um pião...; um calafrio terrível percorreu-lhe o corpo amorfo. Estremeceu. E olhou.
Olhou para o fundo escuro da rua, para as poças de água a reflectir a pouca luz dos poucos candeeiros acesos, tremeu com o frio, sentiu passar sobre si o zumbido de um smorfle, encheu-se de coragem vinda não sabia de onde nem porquê, tirou o apito da boca, colocou-o no bolso, e caminhou decididamente, inchando o peito, em direcção ao negrume, desaparecendo na escuridão dos becos.

12out2002, sab., 02:50

pintura: josé antónio, 1995, guache sobre cartão, 100x70 cm

segunda-feira, novembro 14, 2005

finalmente o frio


Ainda ontem estive todo o dia apenas com uma t-shirt sobre o tronco. Sou um resistente e só aumento o agasalho quando sinto MESMO frio. Habitualmente só começo a vestir pullovers, camisolas e camisolões de lã lá mais para o Natal. E não dura muito, acabo com eles por volta do Carnaval. Gosto de sentir o corpo solto e à vontade, pelo que raramente uso muita roupa. Mas hoje não resisti. Senti a t-shirt insuficiente e tive que vestir uma sweatshirt. É por causa deste acontecimento/mudança que faço este post.

Não tenho preferências particulares por nenhuma estação do ano. Faça sol ou faça chuva, esteja calor ou frio, todas as épocas são importantes e necessárias aos ciclos vitais. Como ser vivo interiorizo esses ciclos e por isso sinto-me bem com qualquer tempo climático.

Digamos mesmo: Que valor teria o sol do Verão se não existissem o cinzento e o frio do Inverno para fazer a comparação? Não saberíamos dar o devido valor. E vice-versa, após a opressão do calor, que bem que sabe o alívio dos dias mais cálidos e das madrugadas frescas do Outono!

Transporto esta interiorização física e biológica vital para o espaço interior do meu espírito.
Não é só o corpo que se dá bem. Também o meu espírito adora mergulhar nas variantes epocais do clima. Nomeadamente por razões estético-artísticas. Neste sentido todas as épocas são belas e sedutoras. Todas me estimulam à criação artística, impondo-me os seus aspectos particulares.

É assim que quando há mudança, costumo dizer "Finalmente..."; "Finalmente o Sol"; "Finalmente a chuva"; "Finalmente o Verão"; etc. 'Finalmente', porque existe em mim um permanente desejo dessa mudança. É um movimento constante, mas em que, ao fim e ao cabo, a renovação faz com que as coisas sejam sempre novas e diferentes. Não há dois invernos iguais, duas chuvas iguais, dois nevoeiros iguais, dois granizos idênticos, todos são sempre novos, sempre outros e sempre diferentes.

O que acabo de expor tem como fundamento explicar porque digo:

FINALMENTE O FRIO!!!

foto: © josé antónio, 2005

domingo, novembro 13, 2005

fallor ergo sum


Estava já para desligar o computador e ir dormir que o trabalho castiga e vão sendo horas quando reparei BEM que dia é hoje e não me sentiria bem sem fazer este post.

A 13 de Novembro de 354 nasceu em Tagaste, na Numídia (actual Argélia), filho de Sta. Mónica e de Patrício, uma criança a quem seria dado o nome de baptismo de Aurélio Agostinho e que é um dos meus filósofos de referência: STO. AGOSTINHO.

Aqui fica uma singela memória ao jeito de homenagem.

pintura: Botticelli.

quarta-feira, novembro 09, 2005

l'huomo


Andava agora mesmo a escarafunchar no meu mac quicksilver g4 à procura de uma imagem para um determinado trabalho, quando de repente me deparei com este antigo boneco (1974).
Não recordo com que intenção (obscura?) o fiz.
L'huomo é um personagem de algumas estórias que escrevi há uns anos, e o seu nome completo nessas estórias é l'huomo di roxo. As estórias encadeiam-se umas nas outras e pertencem todas a um mesmo corpo. São como capítulos/episódios de uma obra maior, que ainda não acabei. Talvez um destes dias as solte por aí.

Para já, fica aqui o boneco, saído do fundo do baú.

© josé antónio

terça-feira, novembro 08, 2005

caça aos 'pretos'


Confesso que hesitei muito sobre este post.
Sobretudo por temer que o mesmo possa ter um tom racista ao qual sou completamente alheio. Procuro dentro do possível combater o racismo e a xenofobia.
Este meu post não tem de modo algum a intenção de ser um incentivo a esses sentimentos que, na minha perspectiva, denigrem a dignidade humana.
O meu objectivo é apenas levantar uma questão, em função dos acontecimentos recentes, que julgo dispensável referir em detalhe.

Existe uma onda de violência a alastrar pela Europa e uma vaga de incompetência generalizada para a controlar e dissipar.
As razões são fundas e históricas. São heranças dos colonialismos.
Mas as razões não são o fito deste post. De certo modo elas são conhecidas de todos.

O que eu pergunto é o que vai acontecer se não se puser termo a este descalabro.
A continuar a onda de violência, não é difícil adivinhar consequências nefastas para todos. Já morreu uma pessoa. Outras mortes poderão acontecer.
Se a violência não parar (por incompetência das autoridades e dos políticos, repito), se se generalizar a toda a Europa, sobretudo a Europa ex-colonialista, a mais atingida pelas vagas de imigração, não me custa imaginar que se acirrem os ódios raciais e xenófobos e que as pessoas, perante a passividade das autoridades, decidam 'fazer justiça pelas próprias mãos'. Não seria a primeira vez na história.

Tal pano de fundo é terreno fértil para nazis, neo-nazis e toda a espécie de fundamentalistas emergirem e atiçarem o fogo da 'limpeza étnica'. E com as pessoas a sofrerem na pele as consequências da violência, a aderência a essas teses será uma mera questão de tempo.
Como soi dizer "um diz: mata; o outro: esfola".
Não quero ser alarmista, mas se as coisas não se compõem, adivinho uma 'caça aos 'pretos'' (a).

(a) 'Pretos' é aqui um signo. Podem ser ciganos, kosovares, russos, búlgaros, portugueses, chineses, marroquinos...

p.s.: Parece-me sentir qualquer coisa de 'organizado' no que está a acontecer. Não é uma mera briga de rua. A forma estratégica como se têm espalhado os confrontos e a evolução táctica e técnica dos mesmos fazem pensar num acto concertado, com objectivos bem definidos. Ali anda mãozinha...

foto: © josé antónio

sábado, novembro 05, 2005

a lasca da unhaca


Dando continuidade (a) às minhas experiências de digitalização de pequeníssimos fragmentos da realidade, tão frequentemente ignorados pela cada vez maior indiferença da pessoa na obsessão do alienante ritmo actual, trago hoje mais uma curiosidade.

Os nossos estimados gatos domésticos têm o pérfido hábito de afiar as unhas nos sítios mais inconvenientes. Não conheço rigorosamente ninguém que tenha gato que não tenha passado pela humilhante experiência de ter que comprar um sofá novo com a desculpa de que o antigo não condizia com a nova cor das paredes... pois, pois!

Uma coisa que se encontra frequentemente pelo chão das nossas (ou deles?) casas são pequeníssimas lascas resultantes dessa saudável actividade de afiar as unhas.
É uma dessas lasquinhas, que há dias encontrei no chão do meu escritório, que aqui aparece representada.
Coisa estranha, não é? E contudo coisa tão vulgar!

tamanho: 8,6 x 9,1 mm.
digitalização a 2400 dpi.

(a) a primeira experiência aqui exposta data de 17 Setembro 2005 e tem o título de «crostinha duma feridinha numa orelhinha».

n.: clique na imagem para a ver ampliada.

quinta-feira, novembro 03, 2005

a feromona do tremoço


O homem, displicentemente sentado a uma mesa da esplanada, aguardou calmamente que o jovem moço brasuca atendedor de clientes ocasionais se dignasse prestar-lhe atenção. Passado pouco o maninho de terras de vera cruz aproximou-se da mesa e inquiriu o homem. Este, sem sequer levantar os olhos do tampo de madeira à sua frente, pediu apenas e só uma cerveja sem álcool, como tantas vezes fizera ao longo dos últimos anos. O magriço empregado era um tipo despachado e não demorou a trazer a dita, acompanhada... de um magnífico pires de tremoços, amarelinhos!
O vento parou o sopro outonal, as ondas do mar congelaram num sussurro espumoso, a terra imobilizou-se na frieza intemporal.
A questão emergiu bruta nos espíritos surpreendidos de todos e ficou suspensa no ar:
— Como soubera o empregado que o homem gostava de tremoços, se este não os havera pedido?

A resposta nasceu simples. Rasgou-se visível e óbvia. A lógica da mais pura ciência falou e disse que o empregado captara a FEROMONA DO TREMOÇO.

Tal como existem nas pessoas as feromonas que dão sinais sexuais, que transmitem desejos, intenções e vontades, mais ou menos confessáveis e confessadas, existe também a do tremoço que funciona subliminarmente como um almíscar. Esta feromona é resultado de se comer muitos tremoços ao longo da vida. A feromona acumula-se nas nossas células, concretamente nas mitocôndrias, e é exalada através da transpiração em momentos em que a sua acção química é solicitada. Qualquer animal sensível a ela, nomeadamente os empregados de mesa brasucas, subconscientemente detecta o seu sinal e percebe de imediato que aquela pessoa é um aniquilador de tremoços.
N.B.: São conhecidos casos de empregados de mesa que desenvolveram estranhas neuroses fóbicas, de tendência suicida, motivadas pela compulsão de servir tremoços a clientes que não os pediram.

quarta-feira, novembro 02, 2005

Carlos Santos Bueno


No meu post sobre a apresentação de "As Margens Vermelhas" faltou dizer quem é o autor. Ei-lo, segundo o convite da editora:

"Carlos Santos Bueno nasceu em 1966 em Lisboa. Foi seis vezes campeão nacional de remo entre 1981 e 1984, altura em que desistiu de estudar por motivos de saúde, tendo nascido na provação um gosto nunca antes experimentado pelas ciências humanas, a poesia e a filosofia. "As Margens Vermelhas" desenrolam-se entre o desconcerto de um mundo desfeito e a esperança de um engenho que se mantem intacto, sendo que são estas as verdadeiras margens da poesia."


Deixo também aqui um poema dum livro que o autor tem em preparação e cuja edição se espera aconteça em Março ou Abril de 2006:

O Soldado à Porta do Templo

Mestre, o soldado à porta do templo
Perguntou-me onde ia, e disse-lhe
Que vinha ao templo para pensar.
E ele perguntou-me “porquê?”
E eu respondi-lhe que a luz,
À hora em que o sol toca a última montanha,
Também põe os raios no gelo.
E assim as ideias sorriem como os raios do sol,
E os soldados novos que perguntam “porquê?”
E o soldado deixou-me passar.

Carlos Santos Bueno, 13/10/2005

domingo, outubro 30, 2005

as margens vermelhas


Hoje tive o grato prazer de ver concretizar-se algo que apoiei e incentivei por diversas vezes.
O meu amigo Carlos Bueno viu finalmente publicado o seu primeiro livro de poemas.

Conheci-o há já muitos anos atrás e o nosso comum interesse pela Filosofia causou uma imediata e forte empatia entre nós. De vez em quando dava-me a ler alguns dos seus poemas. E cedo tive a percepção de estar perante um Poeta com maiúscula. Muitas vezes lhe disse isso e o aconselhei a procurar apoios para uma edição da sua obra, para que a nossa Cultura não ficasse privada de tão sublime escrita e peculiar visão do mundo.
É pela mão da Editorial Minerva que a obra está agora à disposição de quem a quiser ler e apreciar, o que aconselho vivamente.
Para o Carlos os meus votos de felicidade, boa sorte e... muita poesia!

p.s.: nunca nos entenderemos a respeito do Kant...

sexta-feira, outubro 21, 2005

garrete

Poderá parecer estranho a algumas pessoas que se proteste quanto à qualidade de um cigarro. Afinal um cigarro é um objecto pernicioso para a saúde... e patati, e patatá... é sempre mau, como é que se pode falar de qualidade!?
Mas pode. Na base do preço que custa versus o resultado que se espera obter (prazer?). Aquilo a que hoje pedantemente se chama 'relação preço-qualidade'.
Quando compro um maço de cigarros espero que os mesmos venham em condições de serem fumados. Eu PAGO isso. E não é tão pouco quanto possa parecer. Num maço de 2,40 € (o mais barato que conheço), com 20 cigarros, cada cigarro custa 12 cêntimos. Na moeda antiga MAIS de 20 escudos!
Assim, exige-se que os cigarros tenham a qualidade apregoada pelo fabricante, nomeadamente quanto à forma, ao filtro, etc... Ao design (funcionalidade), diriam alguns.


Agora vejam o que me aconteceu há dias:
Abri a caixa para tirar um cigarro, que por acaso era o último, e quando o puxo para fora... cadé o filtro? Bem que o cigarrinho me pareceu mais curtinho que o normal...
Olhei o interior da caixa, que eu julgava vazia, e ele lá estava deitadinho no fundo, a dormir regalado como um bebé.
Não, não fui eu quem partiu o cigarro. O filtro estava MESMO separado do resto. Problema de má colagem, mau controle de qualidade, seja o que for.
Nestas condições aquele cigarro era 'in-fumável'. O seu destino era naturalmente o lixo. 12 cêntimos (DOZE), 20 escudos (VINTE), para o caixote do lixo.
Ou seja, paguei por um cigarro que não fumei. E nesta marca já não é a primeira vez que denoto falhas na qualidade (já aqui referi um caso).

Palavra que me apetece reclamar; escrever para a DECO; relatar a injúria ao Parlamento Europeu; fazer uma exposição à Procuradoria Geral da República; pôr o caso em tribunal; mandar um mail à Tabaqueira. EXIGIR a substituição do material defeituoso. Não sei, enquanto penso nisso vou lá abaixo comprar outro maço, com a esperança de que não contenha cigarros defeituosos...

"Fallor ergo sum" Agostinho

bo


Há dias atrás estava eu para aqui a trabalhar e a ouvir o Coro de monjes del Monasterio Benedictino de Santo Domingo de Silos e... lembrei-me da Bo Derek.
Ela, que tanto gostava de fazer amor ao som do Bolero de Ravel...

Pergunto-me a mim mesmo: Como será fazer amor ao som de Canto Gregoriano!?

Confesso: há dias em que me sinto um perfeitíssimo goliardo.

"Nisi credideritis non intelligetis", diria Agostinho com um enigmático sorriso nos lábios.

quinta-feira, outubro 13, 2005

joana, uma tese possível


Claro que não acredito que o MP esteja a tratar este caso com leviandade e displicência, e se o mesmo pede a pena máxima para este caso é porque detém fortíssimos indícios, que desconhecemos, da prática dos crimes de que acusa os réus. Assim julgo eu.
Contudo, não acredito em absolutos e sou um relativista. Acredito que a verdade muitas vezes nos escapa por entre os dedos, oculta por uma cortina de aparências as quais têm um aspecto de verdade insofismável tão grande e tão densa que não nos permitem imaginar outra possibilidade para além daquela que nos aparece como a óbvia.
Mas ela pode existir. As nossas emoções podem tolher-nos a racionalidade, a nossa lógica pode conter falhas, a precipitação pode levar-nos a cometer erros, o hábito, terrível inimigo da razão, pode insinuar-se perfidamente, etc.
Para lá do plano que consideramos o 'real', 'verdadeiro', 'evidente' e 'factual' acredito que existe um outro plano. Um plano que de momento não conseguimos alcançar. Um plano que é o 'aquilo que realmente pode ter acontecido'.

Chamar-lhe-ia, a esse plano, a essa zona, o Limbo da Especulação, isto é, aquilo que está para lá da cortina, e que por vezes é revelado a posteriori, frequentemente muitos anos passados, e que nos surpreende levando-nos a perceber que afinal estavamos iludidos e enganados. Mostrando-nos respostas outras, perfeitamente coerentes que substituem as que tinhamos aventado e que considerávamos as únicas possíveis e inabaláveis. É assim que, indipendentemente da, também minha, forte convicção da prática dos referidos crimes, entrando naquela área indefinida e volúvel da especulação, me proponho fazer um pequeno exercício.
Este é apenas isso mesmo. Um exercício especulativo, elaborado com base apenas nas poucas informações que os media nos vão fornecendo. Outra coisa não é possível. Mas considero que de acordo com a pouca informação de que disponho, este exercício não ultrapassa as barreiras do bom-senso. Com este exercício pretendo abrir uma porta de possibilidades, que desconheço onde pode conduzir. O futuro o dirá.


A 'ESTÓRIA':
Leonor e João decidiram matar a garota, Joana. A razão, para o caso, é irrelevante por agora. Importante é que sabiam que não o podiam fazer em casa nem com ela consciente. Era necessário adormecê-la primeiro e levá-la para um sítio ermo onde a pudessem eliminar.
Assim, puseram-na inconsciente, talvez com éter, soporiferos, ou outra coisa qualquer. Meteram-na num carro e transportaram-na para Espanha. Meteram-se por caminhos escuros e ermos até chegarem a um local afastado onde encontraram uma lixeira, onde não se percebia vivalma. Trânsito na estrada também não se via nenhum. O local parecia ser excelente para os seus tenebrosos propósitos.
Tiraram a criança, ainda inconsciente, do carro e levaram-na para a lixeira. Aí, estrangularam-na com uma corda, um lenço, um cinto, ou algo assim. Contudo a garota tem a garganta pequena, o dispositivo não apertou o suficiente e ela não morreu. Também a podem ter esfaqueado, mas o nervoso estragou a precisão dos golpes e as facadas não foram mortais. Outros métodos poderão ter sido usados, qualquer um de forma desajeitada, e a criança não morreu.
Mas continuava inconsciente e parecia estar morta pois não dava acordo de si. Eles estavam convencidíssimos que tinham morto a garota e rapidamente taparam o pretenso cadáver com um monte de lixo para o ocultar e a correr voltaram para o carro e regressaram à aldeia, a casa, onde passaram o resto da noite a fornicar, para aplacar a sensação de culpa e o remorso, procurando realizá-lo nos braços um do outro.

Passadas muitas horas, já noite cerrada, a criança recupera a consciência, ferida, dorida, assustada, com frio, no meio da mais absoluta escuridão e do cheiro nauseabundo do lixo que a cobre. Está completamente desorientada, como é natural naquelas circunstâncias. Não sabe o que há-de fazer.
Grita por socorro e de dor, mas não há ninguém para a acudir. Mantém-se imóvel durante muito tempo e chora. Até que lentamente se vai apercebendo que há objectos sujos e mal-cheirosos que a cobrem e fazem pressão sobre ela.
O instinto animal fá-la reagir. Empurra o lixo e contorce-se, até sentir o ar mais respirável. Consegue afastar o lixo e sair para descobrir que está sozinha, num local que lhe é completamente desconhecido.
Não existem luzes, não existem sons, excepto uma coruja furtiva que pia ao longe, que a ajudem a orientar-se. Começa a caminhar como qualquer criança perdida e amedrontada: sem direcção, ao sabor do acaso. E é fruto do acaso, ou do azar, que os seus passos acabam por a conduzir até uma estrada. Talvez a estrada por onde veio.
Ali chegada descobre algo que conhece e sabe: uma estrada tem dois sentidos, duas direcções, e qualquer delas leva a algum lado. Talvez a leve à ajuda que deseja ansiosamente. Assim começa a caminhar, com dificuldade que as dores ainda são muitas, ao longo da berma. A estrada não tem movimento excepto o dela própria e passam horas até que um carro aparece. Talvez seja a salvação almejada.

O condutor apercebe-se da presença dela e o carro pára ao lado dela e ela imobiliza-se também, encolhendo-se um pouco e estremecendo.
O homem, enorme, corpulento, mal vestido, a tresandar a suor e álcool, sai do carro e aproxima-se dela:
— Hei niña, que haces aqui?
Ela não percebe, aquilo soa-lhe estranho. Lembra-lhe vagamente o falar de alguns ciganos que em dia de feira passam lá pela aldeia dela. Mas estes andam com carroças, mulas e burros. Não andam de carro, têm barba e vestem de negro.
Percebe que o homem lhe está a fazer uma pergunta, mas não percebe qual. Tenta responder na única língua que conhece. Diz a coisa mais óbvia. Diz o seu próprio nome. Tenta explicar o que lhe aconteceu, mas não o sabe fazer porque na verdade não sabe o que lhe aconteceu. A última coisa de que se lembra foi ter acordado debaixo dum monte de lixo. Balbucia, gesticula, engasga-se, atrapalha-se, geme de dor, tem o rosto sujo e as lágrimas cavaram sulcos na sujidade obscena que lhe cobre o rosto.
O homem percebe que ela está perdida, que está magoada e que é uma criança portuguesa.

A atitude correcta seria conduzi-la às autoridades. Mas a criança está com azar. Aquele homem não é boa rês. O demo anda à solta pelos caminhos perdidos da escuridão. E qualquer vítima que lhe apareça pela frente é uma dádiva.
Aquele homem feio e mal encarado anda metido em negócios escuros, vive de expedientes, do roubo, da falcatrua, do tráfico, tem ligações ao bas-fond, especialmente o da prostituição infantil e da pedofilia. Todo o dinheiro é bem vindo, venha de onde vier. É caso para dizer "um azar nunca vem só".
O homem, afinal um especialista em falinhas mansas, consegue aliciá-la com um sorriso onde se vê brilhar um dente de ouro, e convence-a por gestos a entrar no carro e leva-a para casa dele, a alguns quilómetros dali. Chegam passado pouco tempo.
Uma casa térrea na beira da estrada, guardada por um negro doberman, acorrentado à parede, que ladra e arreganha os dentes como um louco quando saem do carro e se aproximam da porta para entrarem. O cão reconhece o dono e cala-se, permitindo-lhes a entrada.

Para ganhar a confiança total da garota, o homem trata-lhe as feridas o melhor que sabe. Não é raro, por via das suas escaramuças, ter que tratar a si próprio arranhões, esfoladelas, facadas e, uma vez, até um tiro de raspão. Deita-a numa enxerga improvisada à pressa, confortável e bem agasalhada e, para a ajudar a adormecer, até se dá ao trabalho de lhe arranjar um ursinho de peluche que ela aceita deliciada e sorridente.
O boneco é dum lote para fornecer o chico cigano que vende nas feiras, mas ele pensa no boneco como um investimento que reverterá em lucro, rapidamente, e portanto o cigano pode bem passar sem aquele boneco. E se o chico se armar em parvo e reclamar, para alguma coisa serve aquela navalha que ele trás sempre consigo no bolso.
Ela, sentindo o doce calor do cobertor, adormece abraçada ao peluche. Dorme, como talvez nunca tenha acontecido em toda a sua ainda curta vida.
De manhã, o inevitável super-pequeno-almoço. O homem sabe que tem que a alimentar bem, para proteger o investimento. Por isso, ainda antes dela acordar, tinha ido ao pequeno supermercado fazer compras, ante o olhar estupefacto de algumas vizinhas, que nunca o tinham visto comprar aquele tipo de géneros. Vinho, cerveja, aguardente, sim... agora, leite, bolachas, chocolate, coisas de criança? Mas aquele homem é estranho, ninguém gosta dele, ninguém se mete com ele, e todos se abstêm de fazer comentários. É mais seguro para a saúde.
Enquanto ela se delicia com o leite com flocos, o pão com manteiga e as bolachas de chocolate, o homem faz um telefonema:
— Tengo una cosa para ti. Cuanto valle?
Do outro lado, o franciú:
— Báton oú fente?
Combinado o preço, combinada a hora, resta esperar.
A criança, ainda agarrada ao ursinho de peluche, que já perdeu um olho de vidro, diverte-se a espreitar pela janela os carros que passam na estrada a poucos metros e o tenebroso doberman negro de ar tão ameaçador que ladra por tudo e por nada. Não passam muitas horas.

O carro cinzento metalizado, reluzente com os reflexos da manhã, um topo de gama, chega à hora marcada. Já não há fronteiras. O homem que sai do carro, usa fato e gravata, parece um doutor, tem rabo de cavalo, e tem os dentes muito brancos e brilhantes. No rosto traz um imenso sorriso estampado, como se fora dono do mundo. Aproxima-se do outro, que o espera com a garota ao lado, quase não falam, e entrega-lhe um envelope que tira do bolso de fora do casaco. Olha para a garota e acaricia-lhe a cabeça. Fala para ela, também ele numa língua esquisita, que lembra flores multicolores agitadas pela brisa e ainda mais incompreensível que a do que a recolheu.
Ambos os homens, cada um naquelas línguas que ela não percebe, tentam convencê-la a entrar para o carro. Ela está muito confundida, quer é regressar para os braços de alguém conhecido que a acarinhe, ou pelo menos que fale numa língua que ela perceba e que a perceba a ela. Mas o homem, apesar de feio e um pouco fedorento, foi bom para ela e o outro homem tem bom aspecto, sorri muito, é simpático, deu-lhe um caramelo, e parece quererem os dois dizer-lhe que o de rabo-de-cavalo a vai levar até alguém que a vai tratar muito bem.
É o que ela compreende dos gestos que eles fazem. Gestos como o de comer, de embalar, de agasalhar, de dançar, de beijos, de mão no coração, etc., tudo acompanhado de muitos risos e sorrisos bonitos. Gestos alegres. Gestos felizes. Decide-se e entra no carro.

Nunca andara num carro tão bonito e confortável. Estofos fôfinhos, ar condicionado, música, este senhor que fala uma língua estranha deve mesmo ser boa pessoa. O conforto é tanto que cai de novo no sono.
O seu destino é França. Os subúrbios de Paris. Aí, o seu destino é a pedofilia e a prostituição infantil.
E assim vai ser durante muito tempo. Com o passar dos anos, torna-se uma 'profissional' da prostituição de luxo. Das ruas, discotecas, bares, aos clubes privados, tudo conhece, por tudo passa. Não há segredos para ela. Também nunca conheceu outra vida, ou não se lembra de a ter conhecido e vivido. Na realidade, o seu espírito fez com que ela esquecesse aqueles seus longínquos e dolorosos oito primeiros anos de vida.
Um dia, já passados 10 anos, com o homem com quem vive, e que é chulo, vigarista e toxicodependente, num Verão de muito calor, decidem fazer uma pausa e passar uns tempos de férias, e para tal escolhem Portugal. Destino natural, Algarve.

As redes informatizadas e os bancos de dados das várias polícias europeias, da Europol e da Interpol estão muito desenvolvidas e funcionam excepcionalmente bem. Inclusivé em Portugal, ao contrário do que seria previsível, mas a UE investiu muito nesse domínio para combater a criminalidade.
Portugal recebeu assim ajuda 'imposta' e sem qualquer possibilidade de 'desviar' as verbas e os equipamentos, pelo que as coisas funcionam mesmo.
O avião aterra em Faro.
Os dois amantes saem de braço dado do avião, vão levantar as bagagens e dirigem-se para a saída do aeroporto para apanharem um táxi que os conduza ao hotel frente à praia.

Dois homens, de fato cinzento, aproximam-se deles e identificam-se:
— Bonjour. Police. Venez avec nous, s'il vous plait.
— Polícia Judiciária. Façam favor de nos acompanhar.


José António, Oeiras, 13 Outubro 2005


n.b.: Como disse, esta 'tese' é apenas um exercício especulativo. Uma 'teoria' para desembrulhar a horrível confusão de dizeres e desdizeres em que o caso parece estar mergulhado. 'Tese' talvez nascida da esperança funda e profunda de que o sórdido crime de que os réus estão acusados nunca tenha acontecido e de que a Joana, afinal, esteja viva algures. Julgo que essa é a esperança da maioria de nós todos.

segunda-feira, outubro 10, 2005

resultados eleitorais

ei-la que chega


O dia foi morno e insípido, sensaborão. Nem a excitação e azáfama pouco habituais das espermicidas eleições lhe conseguiu remover essa insalubridade quase obscena. Depois de umas nuvens cinzentas, pouco acinzentadas porque somos pobres, e uns chuviscozinhos que nem deram para abrir o guarda-chuva à maioria silenciada, tudo parecia que chuva MESMO, só para segunda-feira, de acordo com as previsões dos meteorologistas. vulgo manda-chuvas de antanho. Mas a minha esperança não esmoreceu. Era já noite quando o barulho me conduziu à varanda sul de onde apreciei este maravilhoso espectáculo, que me apressei em retratar. Apesar da temperatura tépida, a chuva caía copiosamente na rua. Há momentos em que sou levado a acreditar que existe mesmo um DEUS!

"Nisi Credideritis non intelligetis" Agostinho

foto: © josé antónio 2005