sexta-feira, junho 23, 2006

estafermo



Há diversos anos que, de quando em vez, me dá na bolha escrever um ou outro conto.
São frequentemente estórias que mesclam a realidade, revivida na memória, com a ficção, saída da imaginação (ou sabe-se lá donde... às vezes do fundo do copo de bourbon...)
Algumas destas estórias podem ser encontradas um pouco por todo o lado nos meus blogs.
Não que eu me considere um escritor. Apenas tenho um imenso prazer em usar a escrita, e em deixar para quem a quiser ler um pouco da minha vida. Sobretudo vista pelos olhos com que a vivi, os meus olhos.

Um destes dias tive a surpresa de tomar conhecimento da existência de um audioblog, ESTÚDIO RAPOSA, no qual o locutor lê, entre outras leituras, textos de autores portugueses, poetas e romancistas, desde clássicos a modernos.
O locutor de serviço, Luís Gaspar, é locutor de publicidade e é dono duma voz fabulosa. Muitos de nós já o ouvimos sem nunca o termos visto...

Há poucas semanas o Luís Gaspar criou no audioblog uma rubrica semanal intitulada LUGAR AOS OUTROS.
Nesta ele convida os 'outros', que somos nós, desconhecidos, a enviar para leitura os nossos poemas e os nossos contos.
Achei que esta era a minha oportunidade dourada de ter também os meus 'cinco minutos de fama'... :)

Assim, peguei numa das minhas estórias, "ESTAFERMO", referente a memórias de infância em Alcácer do Sal, e enviei-a para o Luís Gaspar.
Depois fiquei ansiosamente à espera de notícias, que chegaram ontem.

O conto está já online no audioblog para audição, no lugar aos Outros 08, AQUI, ou, indo directo ao mp3, AQUI.

Espero que gostem e que a estória vos proporcione tanto prazer a ouvi-la na maravilhosa voz do Luís Gaspar como a mim me deu a escrevê-la.
Se tiverem um tempinho, agradecia que me dissessem alguma coisa. As críticas, boas ou menos boas, serão bem acolhidas.
Fiquem atentos, pois tenho mais estórias na calha e estou com vontade de as enviar ao Luís.

nota 1: Quem dispõe do iTunes, pode subscrever os podcasts e aproveitar para semanalmente receber as actualizações com os novos episódios das diversas rubricas. Quem não tem, pode fazer o download do mp3 ou ouvir directamente no browser.

nota 2: Esta e outras estórias sobre Alcácer do Sal podem ser encontradas no meu blog Salacia.

foto: © josé antónio

sábado, junho 10, 2006

trambolho

É assim que muitas vezes me sinto, um... TRAMBOLHO!!




desenho: © josé antónio 2006

terça-feira, junho 06, 2006

hoje apeteceu-me

Ontem queixava-se uma amiga minha, num mail que me enviou, que eu já não publicava nada aqui desde o dia 25, e perguntava-me se era preguiça ou falta de tempo.

Bom, a verdade é que tem sido uma mistura das duas.
Mas isto deixou-me a pensar. Quantos amigos e visitantes não terão neste período visitado o Caracol Carolas, apenas para constatarem que o fizeram em vão.

Assim, a pedido da Cinda e de várias famílias, aqui fica um boneco, cujo esquisso original à mão data de 29Abr2006 e que estava há vários dias em execução digital (como aliás tantos outros):



Clique na imagem para ampliar.

desenho: © josé antónio 2006

quinta-feira, maio 25, 2006

vamos apoiar a Selecção Nacional!



Estava eu muito descansado sentado frente à pantalha (écran do computador) a ler alguns e-mails, daqueles da treta, quando me apercebi de um "miau, miau, renhau" ao meu lado.
Desviei os olhos do écran e dirigi o olhar na direcção de onde vinha o som.

Era o Pasoca, que de cachecol ao pescoço, me dizia naquele linguarejar que só os gatos e as bruxas entendem, que devemos todos sem excepção, humanos e demais animais, apoiar a Selecção Nacional.

Compreendi-o, não por eu ser gato ou bruxa, mas porque com o tempo tenho-me familiarizado com as nuances do seu discurso, e porque o cachecol ao pescoço não deixava margem para dúvidas, se as houvesse.

Percebi que ele pretendia transmitir aquela mensagem a todos os portugueses, aqui, em todo o mundo, periferia e arredores, e que, na sua inocência felídea, achava que a melhor forma de o fazer era deixar-se fotografar de cachecol ao pescoço, numa assunção plena das suas opções e dos seus valores pátrios.

Concordei com ele, é claro, e lá nos dirigimos para a marquise, onde o fotografei, languidamente espojado em cima da máquina de lavar a roupa.

Aqui fica em suporte fotográfico a importante mensagem do Pasoca!


foto: © josé antónio/pasoca 2006

quarta-feira, maio 17, 2006

porquê?

Não, hoje não venho fazer nenhum protesto, publicar algum desenho ou dar alguma informação.

Hoje quero apenas partilhar convosco estas três fotografias, das cerca de 60, que no último sábado tirei ao entardecer, no Centro Náutico Moitense, junto ao esteiro da Moita, quase no fenecer de uma magnífica e plácida tarde aí esplendidamente passada.

A razão de ser do título do post é que, depois de ter fruído aquela maravilhosa tarde, em local tão belo, pergunto a mim mesmo: Porquê? Porque carga de água com tantos locais tão bons para passar momentos agradáveis aqui bem perto de nós, as pessoas ADORAM, e insistem em, ir para lugares longínquos gastar uma pipa de massa...!?

Será para mostrar as fotografias aos amigos, que esperam fiquem roídinhos de inveja? Comigo não resulta. Vão para Paris, Londres, Los Angeles, Agadir, Berlim, New York, Caracas, Rio... para o raio que os parta. Eu, sempre que puder, vou passar o sábado à MOITA!

Enjoy:






fotos: © josé antónio 2006

segunda-feira, maio 15, 2006

OEIRAS LOCAL



Clique na FÉNIX RENASCIDA para aceder.

domingo, maio 07, 2006

Gato Pedra - Maria de São Pedro



A minha Amiga e Escritora MARIA DE SÃO PEDRO endereça-nos a todos um convite para o lançamento do seu mais recente trabalho - "GATO PEDRA".
Anote na sua Agenda: o evento terá lugar no dia 19 de Maio pelas 19 h. na Fnac do Cascais Shopping.

Os meus agradecimentos à autora pelo simpático convite e os meus Votos de que seja um sucesso e um acontecimento memorável!

quinta-feira, maio 04, 2006

Feira do Livro de Alg�és

Já lá fui. O post está AQUI

um subtil assédio...


Provavelmente isto acontece ou já aconteceu a todos vós...
Aconteceu-me a mim ontem e já não é a primeira vez.
Hoje achei que devia lançar aqui o meu protesto contra estas situações, não só em relação à empresa directamente envolvida, mas relativamente a muitas outras com as quais acontece o mesmo.

Passemos aos factos:
Quando regressei a casa, como é de costume, verifiquei a caixa de correio.
Até aqui nada de novo nem de anormal. É um hábito que todos temos.
Talvez a única coisa pouco normal é que o meu vício é tão tamanho que chego a ver se há correio aos sábados, domingos e dias feriados... É um dos meus, poucos, vícios. Adoro a sensação de inserir a chave na ranhura da minúscula fechadura da caixa de correio, abrir a portinhola e espreitar com estes, que a terra há-de comer, para o interior daquela... devo sofrer de voyeurismo epistolar...

No interior da mesma estavam dois envelopes nevados (brancos e frios). Também nada disto merece a intervenção do CSI ou dos X-Files visto tratarem-se das habituais continhas para pagar.
Levei os ditos-cujos para casa e, também como é hábito, abri-os para verificar os valores, datas de pagamento, etc., aquelas coisas do costume.
Todos os meses nos temos que haver com este ordálio que consiste em percebermos o que gastámos afinal para justificar os exorbitantes valores que as empresas nos cobram.
Mas enfim, parece que já nos vamos habituando a essa estranha contradição que é gastarmos pouco e pagarmos muito...

Ao conferir a factura da PT qual não é o meu espanto (mentira, já nada me espanta), quando vi que estava a dia 3 e a data limite de pagamento era 5... faltavam 2 dias!
Claro que fiquei irritado por ter um prazo tão limitado para 'organizar' as contas, e apeteceu-me enviar-lhes um email com os últimos sucessos da Romana em anexo.
Mas depois acalmei, tive a intuição que era vingança pesada demais e pior que um envelope com Antraz ou encher-lhes o ar condicionado de Sarin, e achei por bem ver qual a data de emissão da factura. E não é que a mesma foi emitida dia 20 de Abril, há cerca de 13 dias !!!

Tenho a suspeita de que se lhes (PT) perguntar o porquê deste desfasamento, provavelmente darão a resposta típica que consiste em desculparem-se com os correios, os CTT... e se perguntar a estes provavelmente dirão que não têm registado atrasos na correspondência nos últimos tempos...
Em verdade, acho que estou mais virado para acreditar nos CTT.

Aqui para nós, que ninguém nos ouve, serão estes 'atrasos' uma subtil e sinistra estratégia de ASSÉDIO para nos levarem a optar pelo designado 'DÉBITO DIRECTO' (que tantas vezes nos tentam impingir), através da criação do desconforto e das dificuldades causadas por estes prazos apertados?
Não sei, não...

p.s.: Acho que um destes dias as facturas ainda começam a aparecer com data limite no próprio dia em que chegam pelo correio... ou com data limite no dia anterior à recepção... Quem te avisa teu amigo é!

imagem: © josé antónio 2006. Digitalização da factura supra considerada. PROIBIDA A REPRODUÇÃO sem autorização expressa do autor.


MORRA O DANTAS, MORRA, PIM !!!

segunda-feira, maio 01, 2006

vai ao mar, tóino...


Da Newsletter da CONFIQUATRO, de 26 de Abril de 2006, cito esta notícia que me parece de interesse para todos os que adoram o mar:

"Portugal vai ser palco de mais uma Regata de Grandes Veleiros que irá fazer escala em Lisboa entre os dias 20 e 23 de Julho. Esta regata denominada "Golden Jubilee", comemora o cinquentenário da "1`Regata de Grandes Veleiros", que se realizou entre Torbay, na Inglaterra, e Lisboa, em 1956.

Depois da realização de grandes regatas de veleiros da CUTTY SARK TALL SHIP'S RACES denominadas Lisbon Sail 1982, Colombo 1992 (saída de Lisboa), Prince Henry Memorial-Porto 1994 e Vasco da Gama Memorial - 1998, Lisboa prepara-se para reunir em Portugal cerca de 100 veleiros e mais de 3.000 jovens tripulantes oriundos de todas as partes do mundo.

Um verdadeiro espectáculo náutico ao qual não pode faltar!"

Este é sem dúvida um bom argumento para levar os seus filhos até à beira-mar e assistir ao fascinante espectáculo que constitui a passagem dos gigantescos veleiros rumo ao alto-mar. Eu já anotei na Agenda !!

foto: Cordame do navio-escola Esmeralda, fotografado em 25 de Abril de 1992 ao largo de Cascais aquando da regata Colombo © josé antónio 2006.

sábado, abril 29, 2006

por um punhado de centímetros...



Hoje, pouco faltou para que ocorresse no nosso Concelho (Oeiras) uma horrível tragédia, daquelas que nos fazem pensar se em verdade o "destino marca a hora".

A história completa está AQUI


foto: © josé antónio 2006

terça-feira, abril 25, 2006

no país dos cinzentões...



desenho: © josé antónio 2006

segunda-feira, abril 24, 2006

lembrete



Para saber a que se refere este LEMBRETE, p.f. clique AQUI

foto: Palácio Ribamar © josé antónio 2006

quinta-feira, abril 20, 2006

concurso: "hoje é dia de heil"...


Provavelmente a grande maioria de vós não terá notado que hoje foi dia de "parabéns a você". Daqueles parabéns que poucos terão vontade de comemorar...

É que neste mesmo dia, em 1889, em Braunau am Inn, na Áustria, nascia uma criancinha a quem seria dado o nome de baptismo de Adolf Hitler...

Lanço-te blogonauta um desafio: ver quem consegue chamar ao dito-cujo o pior nome de todos! Sem vergonha! Sem medo!

Começo eu, como é da praxe: BORREGO, CABRÃO, FILHO DUMA 'GRANDASSÍSSIMA' PUTA, FILHO DUM CABAZ DE CORNOS!!!

Vá, agora é a tua vez.

imagem: picada da net, com uma suástica acrescentada em Photoshop® à pressa para este post.

segunda-feira, abril 17, 2006

a paixão segundo... eu



desenho: © josé antónio, 2006

quinta-feira, abril 13, 2006

ai!



desenho: © josé antónio, 2006

Exposiçã�o de Fotografia


Eis uma exposição que me parece deveras interessante, se se tratar do que estou a pensar...

O Palácio de Belém não é propriamente um sítio que possamos conhecer como as palmas das nossas mãos, para lá da fachada, a menos que sejamos eleitos presidente da república, primeira-dama, ministro ou afim.
É bem capaz de valer a pena a visita: O Pal�ácio de Belé�m - Uma Exposiçã�o de Fotografia

quarta-feira, abril 12, 2006

A TERRA É AZUL!


"A Terra é azul!"
Ficou para a História esta famosa exclamação de Iuri Alieksieievitch Gagarin (1934-1968), proferida há 45 anos aquando do seu passeio no cosmos a bordo da cápsula Vostok I, no dia 12 de Abril de 1961, passeio que durou apenas 1 hora e 48 minutos numa órbita em torno da Terra a 315 km de altitude. Viagem esta que o tornou o primeiro homem no espaço.

Aqui fica a memória desse feito histórico e a minha singela homenagem a esse herói que tanto inspirou a minha vida.

imagem: fotografia 'picada' na internet e manipulada em Photoshop®.

sábado, março 25, 2006

sexta-feira, março 24, 2006

exposição de pintura

De Alma e Cora�ção - Isaura Oliveira

dia do balde e do... TRAPO...

Ontem esteve um dia assim:


E deve ter sido por isso... sim, só pode.

Se em 17 de Janeiro último foi dia do balde, ontem foi dia do balde e do...TRAPO !!

local: Galeria Comercial do Pingo Doce de Sassoeiros.

Convenhamos que a situação de ontem representa alguma melhoria em relação à do dia 17, apesar de eu pessoalmente preferir os baldes pretos, e que o esforço do investimento feito deve ser aplaudido e incentivados novos investimentos.
Lanço-te o desafio, visitante, para que juntos e em espírito de sã e fraterna solidariedade demos sugestões que tornem ainda melhor a solução adoptada, que pelos vistos não se vai alterar nos tempos mais próximos.

Começo eu:
— Sugiro que dentro dos baldes ponham peixinhos vermelhos de água doce para distrair as criancinhas enquanto as mamãs fazem as compritas...

Agora és tu:



fotos: © josé antónio 2006

quinta-feira, março 23, 2006

momento



Há momentos irrepetíveis que recordo com profunda saudade e alegria.
Este aconteceu há exactamente 17 anos, lembras-te?
Quão jovens e sonhadores que nós eramos (somos?)

Obrigado minha querida, por toda a felicidade que me tens dado.

quarta-feira, março 22, 2006

help...




"FALLOR ERGO SUM" (sou enganado logo existo)
Sto. Agostinho (354-430)

desenho: © josé antónio 2006

sábado, março 18, 2006

teste

este post é só para testar um link

AQUI

sexta-feira, março 17, 2006

dia do balde


Pois, hoje foi dia do balde...

Foto: Galeria Comercial do Pingo Doce de Sassoeiros, hoje ca. 17 h.
© josé antónio 2006

el Che d'Oeiras

Já por diversas vezes tenho sentido nos interstícios das prosas que leio que muitas pessoas têm curiosidade em conhecer o meu facies (na verdade e em rigor, o meu 'brutus facies').

Julgo que as pessoas que frequentam este meio bloguístico e internetez, no qual me incluo, temem por vezes estar apenas a comunicar com uma máquina, um cérebro electrónico, um reles e vulgar CPU; que por trás dos textos, comentários e demais virtualidades, está apenas lógica booleana, um código binário, uma sequência de zeros e uns, e não um ser humano de carne e osso, flesh and blood, body and soul. Uma PESSOA! Arriscaria chamar-lhe o "Síndroma Matrix..."

Pois bem, para que não restem dúvidas a ninguém que deste lado não está nem um CPU made in Silicon Valley nem um chimpanzé amestrado pela NASA nas masmorras floridas, mas está um ser que ama, sofre e sente, que chora e ri, que respira, transpira, come e caga, que tem emoções, desejos, medos e etecéteras, decidi finalmente revelar a minha verdadeira face (física; a outra vão conhecendo aos poucos).

Eis portanto, o EU numa versão auto-retratada por mim mesmo: EL CHE D'OEIRAS!*



memória descritiva:

- desenho em FreeHand 5.0 sobre auto-retrato do autor, pré-manipulado em Adobe Photoshop® 4.0;
- máquina fotográfica digital: Kodak EasyShare C300;
- computador: Macintosh G4 QuickSilver;
- tabaco: Português Suave azul;
- vinho: Convento da Vila tinto 2004 (Borba).

© josé antónio 2006

* Agradeço à minha esposa Isaura o epíteto, quando confrontada com a imagem...

domingo, março 12, 2006

o sinistro sorriso da morte


Perguntei: Porque sorris, ó macaco morto caído na terra fria e molhada?

Respondeu-me, sorrindo: Sou um cínico.

Afirmei-lhe: Afinal és apenas um peluche descartado e deitado fora ao abandono! Lixo!

Retorquiu-me: ... Milhões de crianças que nunca saberão o que é ter um brinquedo...

Foda-se! Apeteceu-me trocar de lugar com ele!


foto: © josé antónio, 2006.

sábado, março 11, 2006

sabe o que são CARETOS?


Rememorar Oeiras: sabe o que s�ão CARETOS?

clique no título acima e fique a saber!

desenho feito com base numa fotografia picada da net (sem autorização, mas a esta hora da madrugada, 03:42, não ia telefonar para ninguém a pedi-la...)

quinta-feira, março 09, 2006

ilusão de cronos...




© josé antónio, 2006

domingo, março 05, 2006

reflectindo sobre o homem...



© josé antónio 2006

domingo, fevereiro 26, 2006

"Com que então..."



Não são bem 39... na verdade são mais 10!
E não é quinta-feira mas domingo.
Seja como for, neste dia que nos impingiram como sendo 'especial', apesar de em nada diferir dos outros, lembrei-me de comemorar a efeméride parabenizando-me com a recordação de um importante poeta português. Ei-lo:

Com que então caiu na asneira
De fazer na quinta-feira
trinta e nove anos, que tolo!
Ainda se os desfizesse,
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo!

Não sei quem foi que me disse
Que fez a mesma tolice
Aqui o ano passado...
Agora o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo. Coitado!

Não faça tal; porque os anos
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho:
Faça outra coisa; que, em suma,
Não fazer coisa nenhuma,
Também não lhe aconselho.

Mas anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois se se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los queira ou não queira!

JOÃO DE DEUS (1830-1896)

p.s.: Um beijo especial para a mamã Elvira, que teve a pachorra de aguentar o parto no dia em que ela própria fazia 21 anos. Olha que bela prenda!!

sábado, fevereiro 25, 2006

j'aime mon pays



© josé antónio 2006

terça-feira, fevereiro 21, 2006

do pó vieste...



© josé antónio 2006

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

a abadessa leiteira


desenho: © josé antónio 2006

esclarecimento / declaração de intenções

Olá visitante.

Não recordo se alguma vez o disse. Mas mesmo que nunca o tenha dito, parece-me que um simples passeio por este blog permite tirar a seguinte conclusão. Este é um espaço onde tudo pode acontecer, e sem aviso prévio ou qualquer justificação.
Desde a publicação de uma prosa de ficção, um texto sem pés nem cabeça, um poema, uma citação, uma fotografia ou um desenho, uma coisa séria ou uma simples brincadeira, qualquer coisa pode de súbito acontecer por aqui.
Este é um espaço que assume integralmente e em pleno que "de sábio e de louco, todos temos um pouco". E eu, mais que 'pouco', acho mesmo que tenho 'muito'. Para que algo aconteça basta apenas que me apeteça.

Vem isto a propósito de eu ter para aqui algumas coisas que gostava de expor. Mas não faço tenções de para cada uma delas ter que estar com explicações, que me soariam primárias, rebuscadas e inúteis.
Tenciono simplesmente começar a expô-las para vossa fruição, dentro dum espírito de 'obra aberta'. Cada um terá a fruição que quiser e como quiser.
Não excluo, obviamente, a hipótese de responder a quem me quiser questionar sobre o que eu expuser. E muito me agradarão todos os comentários que possa suscitar. Aliás, agradeço que não se escusem de os fazer.

Mas o que me interessa mesmo é que se divirtam tanto na fruição como eu me divirto na execução. É esse o meu objectivo primeiro. Divertir-vos.
Fico por aqui.
Passo à EXPOSIÇÃO (permanente).

Abraços.

josé antónio, 15 de Fevereiro de 2006, Oeiras.

domingo, fevereiro 12, 2006

... normal...


Tenho como adquirido que o 'normal' é o que segue a norma comummente aceite e o 'anormal' é o oposto do anterior, aquilo que, pelos mais diversos e tantas vezes incompreensíveis, inauditos e intangíveis motivos, não se rege por essa mesma norma.
Frequentemente na dinâmica dos entes, o anormal, pela sua dialéctica de vulgarização, acaba por tornar-se normal. Isto é histórico.
Veja-se o caso do preservativo masculino, vulgo camisa-de-vénus, em Portugal, ou camisinha, no Brasil.
Durante muito tempo foi considerado uma coisa obscura e obscena, julgo mesmo que obstipante, nomeadamente nos primórdios em que era feita de tripa de porco, acerca da qual não se devia falar ou escrever, muito menos exibir, e que hoje, não só se refere livremente em todos os 'media', como se pode adquirir nos supermercados. Vulgarizou-se. Passou da anormalidade à normalidade.
Ou o caso da homossexualidade, vulgo paneleirice.
Durante muito tempo foi considerada 'anormal' e até mesmo uma doença. A própria Ciência, num conluio com a igreja ainda não devidamente esclarecido e clarificado, aprovou e sancionou esta tese, dando-lhe fundamentos científicos, durante muito tempo incontornáveis. Contudo, hoje em dia assiste-se a uma inversão de valores e é o heterossexual que é subrepticiamente e subliminarmente considerado um anormal (freak, em inglês). A um tal extremo tal, que os heterossexuais começam a temer assumir a sua condição, com medo de serem alvo de represálias sócio-profissionais...
Em suma, o que no passado era anormal hoje é normal, e vice-versa. Esta é a dinâmica das coisas.
É por isso que não compreendo que esdrúxula lógica subjaz a certas modalidades de pensamento de determinadas pessoas.

Por exemplo, o caso da BICA.
Refiro-me à pequenina chávena de café expresso pela qual pagamos quase dez vezes mais que o seu real valor.
Quantas vezes, ao pedirmos uma bica num estabelecimento, o empregado nos olha com ar de quem julga que estamos a falar chinês e nos pergunta "a bica é NORMAL?"
Confesso que fico frequentemente sem palavras.
Por uma razão simplérrima: não sei o que é uma bica anormal...
Respondo, quase sem dar por isso, que "Sim."
Muitas vezes apenas acenando com a cabeça, numa inconsciente e paupérrima imitação de uma cornuda vaca com tonturas.
O caso repete-se tão frequentemente, que acabou por se tornar uma obsessão compulsiva reflectir sobre a questão: "O que é uma bica anormal?"
Confesso que por vezes tenho a tentação de não responder ao empregado, com a esperança de que ele decida por 'motu proprio' trazer-me uma das referidas bicas anormais, de modo a eu poder tomar contacto estético (aisthetikós), sensorial, com ela e poder apreciá-la em todos os seus caracteres. Percepcioná-la em toda a substância do seu ser, na sua concreção, em toda a sua constância e inconstância.
Já pensei mesmo em tomar a iniciativa e na altura de responder, pedir uma bica anormal.

Mas temo.
No momento de o fazer, quando o empregado ali está solicito com aquela típica e promíscua cara de boi à minha frente, aquele seu ar de borrego trombeiro, aguardando uma resposta, faltam-me as forças, vou-me abaixo pois um enorme terror invade todo o meu ser.
Temo que o pedido, verbalizado finalmente, soe na minha límpida boca como uma ofensa conspurcativa aos mais altos valores pátrios, e a polícia me leve para interrogatório numa cave escura, fedorenta e húmida (sofro muito com a humidade, tenho bronquite asmática) ou, pior ainda, que apareçam uns senhores corpulentos com ar labrego mas fardados de branco, que me metam num carro com pirilampos luminosos e me levem para um quarto forrado de paredes nacaradas de branco e me obriguem a ver as gravações todas dos programas da Maria de Lurdes Modesto ou, pior ainda, a fazer cunnilingus à Manuela Ferreira Leite.
Quando me preparo para formar as palavras, que não chegam a vibrar, nem nas cordas vocais da minha garganta nem no ar à frente dos meus doces e carnudamente lascivos lábios, o meu coração decide por sua auto-recreação trabalhar como um cavalo a galope e o meu sangue, indiferente ao seu carácter O Rh+, lateja nas minhas têmporas com o rufar de mil tambores.
A minha tensão altera-se e sobe até níveis mortais, mesmo para um rinoceronte.
Suores frios invadem-me e sinto a transpiração escorrer-me pelas vértebras num fiozinho gelado que parece o gume duma lâmina de barbeiro a correr-me a espinha. Penso que vou desfalecer. Uma tontura toma conta da minha pobre existência.
Fico literalmente congelado e a resposta acaba por sair automática: "Sim, Se Faz Favor."
Acobardo-me. Escondo-me no meu íntimo, enrolado num casulo de arame farpado que construí de propósito para estas ocasiões e que faria inveja aos israelitas.
Sou previdente. Tenho sempre este casulo à mão-de-semear para qualquer ocasião em que necessite de refúgio rápido e imediato.
Adio. Protelo.

Um destes dias, talvez me ocorra ao espírito um vulgar e vernacular "Foda-se!" e quando já nada tiver a perder pronuncie a expressão fatal: "Dê-me uma bica ANORMAL, se faz favor!!!"

foto: © josé antónio

domingo, fevereiro 05, 2006

a Torre, o café, e a neve! (a)



Olá! Após algumas peripécias informáticas que me obrigaram a uma breve ausência forçada, cá estou de novo. Ainda não a 100%, que tenho alguns pormenores para resolver.
Contudo já deu para passar por aqui e deixar este post que, como não podia deixar de ser, é sobre o tema mais falado nos últimos tempos por estas bandas: o prémio "Bica na Praia da Torre em Oeiras".
Assim, 'a pedido de várias famílias' aqui fica a fotografia da célebre bica saboreada na Praia da Torre, no dia 29 de Janeiro, com a qual se premiou a pessoa, I.M., que acertou na mouche e deu a resposta certa ao pequeno exercício que propus.
Pena foi as restantes pessoas que estavam convidadas para assistirem à entrega do prémio terem-se, na sua maioria, deixado intimidar pelo clima, porque perderam um bocadinho bem passado e muito agradável (ah, a esplanada é fechada e aquecida, não se pense que estivemos ao frio e à chuva). Mas estejam atentas porque temos uma surpresa em preparação...
Aproveito ainda para deixar uma imagem da praia tirada pouco tempo antes de ter começado a NEVAR!

(a) título furtado à Isabel, que sei não vai levar a mal, mas achei-o sublime! ;)

sábado, janeiro 21, 2006

o candidato - last but not least

Há sempre um atrasado...
Foi este. Ficou para último mas apareceu.
Os outros estão mais abaixo...



clique para ampliar.


desenho: © josé antónio 2006

o candidato

Já passam algumas horas desde que entrámos em Período de Reflexão e a partir de agora é, pelo menos, de bom tom não emitirmos opiniões político-partidárias.
Mas vocês já me conhecem. Tenho horários que nada têm a ver com o comum mortal e por isso certamente me perdoarão o abuso. Bem, a verdade é que este post era para ser publicado mais cedo, mas só agora consegui acabar os bonecos... ;)

Estamos quase a deitar o papelinho com carinhas impressas e uma cruzinha desenhada a esferográfica, paga com o dinheiro dos contribuintes, na urna.
Porra, que isto é mórbido à ganância... URNA... até parece um ritual de macumba ou de magia negra... só faltam as velas!
Ou chama-se URNA porque é nela que vamos ENTERRAR o país!?

Isto (pôr o papel na urna) para aqueles que decidiram que irão cumprir esse ritual pagão, muitos sem saberem muito bem porque o fazem.
Os outros, que devem ser uns quantos, que já decidiram que não vão lá pôr os presuntos, talvez já tenham decidido o que irão fazer para passar o tempo nesse dia e deixar aos outros, os anteriores, a responsabilidade de fazer a merda...

E VOSSA MERCÊ!?

Para si, quer se inclua no primeiro grupo, quer no segundo, aqui está o meu contributo nesta semana que é a recta final antes da hecatombe geral!
Não lhe pretendo mudar, muito, as opções, não.
Apenas quero contribuir um pouco para a sua reflexão com a minha opinião.

Por isso e para isso: EIS...... O CANDIDATO !!!







clique nas imagens para ampliar.


desenhos: © josé antónio, 2006

quarta-feira, janeiro 18, 2006

o desabrigo...

É uma tristeza...

http://olharapoeiras.blogspot.com/2006/01/o-desabrigo.html

segunda-feira, janeiro 16, 2006

a praia da foto é...




Bom, chegou finalmente o dia de revelar a Correcção do Exercício que propus no dia 4 de Janeiro.

Eu tinha dito que a mesma seria apresentada antes da Páscoa e gosto de cumprir as promessas.
Devo referir que me desiludiu a fraca participação, assim como os fracos resultados.
Apenas UMA pessoa acertou na resposta— ISABEL MAGALHÃES —, pelo que as outras todas levam um rotundo ZERO!!
Mas destas houve quem se aproximasse (à custa das resmas de pistas que fui dando).
Recordo essas pistas: A foto tem 48 anos; ao fundo não se vê nenhuma linha de comboio; o edifício branco são balneários e ainda existe; a praia é pouco maior que o que se vê na foto; em tempos era conhecida pela 'Praia dos Artistas'; é pertíssimo de Carcavelos; por cima do balneário existe um restaurante com esplanada; por trás do restaurante existe um bar também esplanada; no próprio balneário existe um bar também com uma esplanada sobre a areia; desta praia tem-se uma vista esplêndida para o Bugio; a Barra do Tejo é ali mesmo em frente; os banhistas que daqui são arrastados pela corrente costumam dar à costa em Carcavelos; o que há nos lados da praia, são construções muito importantes, umas muito antigas e outras muito recentes...

Bem, minhas caras e meus caros, com tantas pistas fico admirado como não conseguiram identificar, surpreendam-se, a PRAIA DA TORRE em Oeiras !!!

Comparem a foto de 1957 com as fotos recentes de 2000.

O merecido prémio será assim entregue à ISABEL MAGALHÃES, em data a designar.

Como sou uma alma generosa e aprecio o esforço alheio, decidi ainda dar um PRÉMIO DE CONSOLAÇÃO a quem tanto se esforçou durante estes dias para resolver o problema.
Assim sendo

A SARA MM, a SULISTA, e a CARACOLINHA (que não chegou a dizer quem é o puto :) ) estão formalmente CONVIDADAS para aparecerem, se o desejarem e em dia a combinar, na Praia da Torre, a fim de disfrutarmos a maravilhosa vista sobre a Barra do rio Tejo e o próprio rio numa das esplanadas existentes no local. Consultem as vossas agendas e digam coisas. Recomendo lá mais para a Primavera, quando o clima for mais ameno.

fotos: © josé antónio

sexta-feira, janeiro 13, 2006

toquei os deuses


Era uma fria manhã de primavera. O ar fresco, como uma mão de gelo, acariciava-me o rosto e gelava-me as narinas. Lutando contra o frio, os primeiros raios de sol, arautos de um dia quente, desfaziam as poucas nuvens matinais, pinceladas de branco no fundo azul clareante. O chão molhava-me as botas e as calças enquanto avançava sobre um manto de finas e frescas gotículas, sobras da noite, que embranqueciam ainda as ervas esparsas.

Cheguei à placa. Um grande espaço cinzento, de cimento, colorido pela presença da “malta”. Atarefados, homens e mulheres compunham os seus fatos de voo, tiravam os pára-quedas dos sacos de transporte, verificavam-nos. Alguns, inexperientes, preocupavam-se com as brincadeiras dos outros:
— É pá! esse pára-quedas não tem os cordões todos! — ou —tenho a impressão que essa merda não abre! pelo aspecto dele...
Sorrisos nervosos, benzeres em pensamento, todos se equiparam. Pus o capacete, tirei o pára-quedas do saco de transporte, verifiquei-o, inclinei-me e coloquei-o sobre as costas, fixando o arnês com gestos seguros.

Na pista, com o seu ar cinzento, a DO-21 rugia já, aquecendo o seu velho motor, roncando e parecendo, também ela, tremer de frio. Fui com a primeira equipa. Quatro mais o largador. À medida que me aproximava do avião, a tensão ia baixando. Contornámo-lo por trás e chegámos à porta, debaixo da asa de bombordo. Segundo a ordem inversa à de saída começámos a subir para o avião. O espaço interior era exíguo, pelo que íamos sentados no chão. Dois encostados ao fundo, de costas para o piloto e navegador, os outros dois sentados entre as pernas esticadas dos primeiros. Todos tínhamos as tiras extractoras enganchadas num anel de enganchamento entre os dois primeiros, excepto o largador, equipado com pára-quedas manual. Parecíamos, e sentíamo-nos, sardinhas em lata. O largador fechou a porta e fez sinal ao piloto.

Súbito o ronco do motor aumentou, o avião estremeceu, e começámos a deslocar-nos na pista. Íamos subir. Ganhámos velocidade rapidamente. Por breves instantes, senti o meu coração aumentar as batidas e a minha boca pareceu secar. Passei a língua pelos lábios para os humedecer enquanto por baixo do meu rabo o chão vibrava como se um tremor de terra tivesse tomado conta de nós. Ouvia as rodas chiarem sofridas do tremendo esforço. Balouçávamos, por vezes, bruscamente como se nos tivessem dado um encontrão. Pela janela transparente da porta via a pista como uma faixa cinzenta contínua, correndo lá para trás. Então, foi como se nos tivessem empurrado contra o chão. Tive a nítida sensação das rodas se terem esborrachado lá em baixo. O nariz do avião içou-se para os céus. Um peso enorme no corpo, um vácuo no estômago, e as rodas rolavam livres no ar. Já não ouvia barulho por baixo de mim. Tinha sido substituído por um leve assobiar no exterior.

Estávamos a subir. Olhei pela janela. O chão afastava-se rapidamente de nós. O meu coração descansou. Uma excitação tremenda invadiu-me o corpo. Olhei os meus companheiros. Todos olhavam hipnotizados para o chão, talvez pensando se a ele voltaríamos em segurança. Foi grande e longa a volta que demos para ganhar altitude suficiente para o salto. Sem percalços fomos subindo, distraídos pela paisagem que víamos pela janela. O chão estava cada vez mais longe. Os objectos diminuíam proporcionalmente tornando-se peças de um gigantesco presépio. Pequenas casinhas, pequenas estradas e ribeiros, árvorezinhas, um rebanho de mini ovelhinhas com um minúsculo pastorinho e um ainda mais minúsculo canito saltitante. Que estranho que é quando conseguimos divisar, passando abaixo de nós, alguma ave! Que estranhas são as aves vistas de cima! Que baque profundo agride e viola o nosso corpo! Apetece gritar como uma criança - olha mãe, aquele pássaro lá em baixo!

Um burburinho desperta-me do sonho. O piloto está a alinhar o avião com a zona de lançamento, contra a direcção do vento. O motor acalma-se. Esforça-se para estabilizar a aeronave. O largador abre a porta e uma aragem fresca entra e envolve-nos. Lá fora está fresco. Estamos a setecentos metros de altitude e o ar aqui em cima ainda não aqueceu. Ordem para verificar equipamento. O largador, colocado junto à porta, espreita para fora e faz avançar o primeiro. Que por acaso sou eu. Avanço arrastando-me pelo chão, chego à porta, coloco as pernas para fora e fico sentado com o pé direito no estribo, agarrado com a mão direita numa pega ao lado da porta. O chão longínquo convida-me. Coloco-me em posição, agarrando-me com firmeza, inclinando ligeiramente o corpo para fora, colocando o meu peso no estribo. O largador grita:
— JÁ!!

E nesse instante qualquer dúvida que tivesse dissipa-se. Ao mesmo tempo que largo a pega projecto o corpo para a frente, procurando alinhar o corpo paralelamente ao avião numas aspas perfeitas. Por um breve instante, uma fracção de infinito, pareço voar ao lado dele, debaixo da protecção da sua asa:
— Mãe, olha! sem mãos!
Mas, não. Sinto o corpo cair e o avião afastar-se rapidamente de mim. Estou só. Completamente só. Setecentos metros de ar separam-me do solo, lá muito em baixo. Olho para o chão enquanto conto mentalmente:
— Zero zero um, zero zero dois, zero zero três.

Três segundos. É o que demora da saída até à abertura. A minha atenção está toda concentrada na tira extractora que sinto esticar e extrair o meu pára-quedas do seu invólucro. Há uma enorme turbulência à minha volta. Oiço o frufru do nylon e dos cordões que se esticam. Oiço um cordão que rebenta num estoiro que parece um tiro. Foi o cordão umbilical. Chamado fio de estropo, une a extremidade da tira extractora ao topo da calote do pára-quedas e quando rebenta — convém mesmo que rebente, ou... — separa o pára-quedas do avião. Agora sim. Nada me une aquela máquina que mais acima se afasta velozmente. Apercebo-me, até porque sei, que os outros estão também a saltar. Mas continuo concentrado em mim. O meu corpo cai cada vez mais depressa e só uma coisa pode evitar que me esborrache que nem um tomate. O tempo parece eterno. Tenho tempo para ver que lá em baixo um magote está de nariz no ar, talvez a pensar:
— Abre, não abre...

Bruscamente, a enorme mão de Deus desce dos céus, agarra-me pelos ombros e puxa-me para cima, travando a minha descida vertiginosa. Oiço um “ftau!” e faz-se um profundo silêncio à minha volta. Sei que aquele som foi a calote que se abriu completamente. Sinto-me parado no ar. Olho para cima. Lá está ela, um imenso disco verde, um grande prado de um verde lindo, magnífica brilhando ao sol. No chão não parecia tão bela! Mas outros afazeres se impõem. Isto ainda não acabou. Verifico se não há cordões passados sobre a calote. Nem um. Óptimo! A temível vela romana, em que o nylon fica aderente e a calote não insufla, já vi que não aconteceu. Os cordões estão correctamente esticados e não há enrolamento. O pára-quedas de reserva que se comprime contra o meu ventre não me vai ser, em princípio, necessário. Fixe! ‘Tá tudo o.k.. Posso gozar a descida que vai demorar ainda cerca de um minuto. Depois terei outros problemas para o contacto com o solo. Desde que não caia na água, na estrada ou em cima de uma árvore... E entretenho-me a olhar a paisagem. Que poucos têm o privilégio de ver daqui. Oiço malta gritar. São os meus companheiros, suspensos nas suas calotes, que gritam de alegria uns para os outros. De facto é o que apetece. Gritar como uma criança endiabrada quando anda pela primeira vez de carrossel. Gritar ao sol:
— Vês, o céu não é só teu! Também tenho um pedacinho!

Conforme desço, o silêncio e a paz vão-se alterando. Começo a ouvir os barulhos da terra. As vozes das pessoas, os animais, máquinas, automóveis, etc. Estou perto do solo. Tenho que me preparar para a aterragem. Molho um dedo na boca e uso-o para calcular a direcção do vento. Tenho que traccionar as tiras do lado deste para reduzir a velocidade horizontal. É o que faço. Não tenho nenhum obstáculo entre mim e o solo. Preparo a posição de aterragem. Cabeça para baixo, queixo junto ao peito. As mãos a traccionar com força as tiras, cotovelos para dentro, para o estômago, para não partir nada. Pernas unidas e ligeiramente flectidas. Calculo a flexão tirando visualmente uma mirada entre os joelhos e as biqueiras das botas. Pés paralelos ao solo. Tento não retesar o corpo e aguentar a posição. O chão aumenta rapidamente e parece vir ao meu encontro. Estou quase, quase, quase... “Tram!” As minhas botas tocam o solo. Flicto as pernas e, ao mesmo tempo, rodo o corpo para o rolamento. A minha nádega toca no chão. Em cima de um calhau. Porra, doeu! Rolo e levanto-me rapidamente correndo em torno do pára-quedas, tombado de lado como uma alforreca. Evito o arrastamento e a calote fecha-se vergando sob o seu próprio peso como um balão que perdeu o ar. Faço uma dobragem sumária usando os braços estendidos como para enrolar uma corda. Dirijo-me ao local onde deixara o saco e arrumo o pára-quedas.
Acabou. Fica-me para sempre a recordação. Daqueles três segundos durante os quais toquei os deuses. Só os pára-quedistas sabem porque cantam os pássaros!

josé antónio, Oeiras


foto: autor desconhecido, Portugal 1979

quinta-feira, janeiro 12, 2006

ainda a tempo


Está a chegar ao seu termo o exercício que propus no último dia 4.
Recordo que se trata de reconhecer a praia da fotografia e que o prémio é uma bica na esplanada da mesma, em dia a combinar.
Até agora ainda ninguém acertou.
Quem se quiser candidatar ainda vai a tempo de o fazer.
Clique no título deste post ou vá a 4 Janeiro 2006.

Se não pela bica, pelo menos pela soberba vista que se disfruta do local, tentem lá!