sexta-feira, janeiro 13, 2006

toquei os deuses


Era uma fria manhã de primavera. O ar fresco, como uma mão de gelo, acariciava-me o rosto e gelava-me as narinas. Lutando contra o frio, os primeiros raios de sol, arautos de um dia quente, desfaziam as poucas nuvens matinais, pinceladas de branco no fundo azul clareante. O chão molhava-me as botas e as calças enquanto avançava sobre um manto de finas e frescas gotículas, sobras da noite, que embranqueciam ainda as ervas esparsas.

Cheguei à placa. Um grande espaço cinzento, de cimento, colorido pela presença da “malta”. Atarefados, homens e mulheres compunham os seus fatos de voo, tiravam os pára-quedas dos sacos de transporte, verificavam-nos. Alguns, inexperientes, preocupavam-se com as brincadeiras dos outros:
— É pá! esse pára-quedas não tem os cordões todos! — ou —tenho a impressão que essa merda não abre! pelo aspecto dele...
Sorrisos nervosos, benzeres em pensamento, todos se equiparam. Pus o capacete, tirei o pára-quedas do saco de transporte, verifiquei-o, inclinei-me e coloquei-o sobre as costas, fixando o arnês com gestos seguros.

Na pista, com o seu ar cinzento, a DO-21 rugia já, aquecendo o seu velho motor, roncando e parecendo, também ela, tremer de frio. Fui com a primeira equipa. Quatro mais o largador. À medida que me aproximava do avião, a tensão ia baixando. Contornámo-lo por trás e chegámos à porta, debaixo da asa de bombordo. Segundo a ordem inversa à de saída começámos a subir para o avião. O espaço interior era exíguo, pelo que íamos sentados no chão. Dois encostados ao fundo, de costas para o piloto e navegador, os outros dois sentados entre as pernas esticadas dos primeiros. Todos tínhamos as tiras extractoras enganchadas num anel de enganchamento entre os dois primeiros, excepto o largador, equipado com pára-quedas manual. Parecíamos, e sentíamo-nos, sardinhas em lata. O largador fechou a porta e fez sinal ao piloto.

Súbito o ronco do motor aumentou, o avião estremeceu, e começámos a deslocar-nos na pista. Íamos subir. Ganhámos velocidade rapidamente. Por breves instantes, senti o meu coração aumentar as batidas e a minha boca pareceu secar. Passei a língua pelos lábios para os humedecer enquanto por baixo do meu rabo o chão vibrava como se um tremor de terra tivesse tomado conta de nós. Ouvia as rodas chiarem sofridas do tremendo esforço. Balouçávamos, por vezes, bruscamente como se nos tivessem dado um encontrão. Pela janela transparente da porta via a pista como uma faixa cinzenta contínua, correndo lá para trás. Então, foi como se nos tivessem empurrado contra o chão. Tive a nítida sensação das rodas se terem esborrachado lá em baixo. O nariz do avião içou-se para os céus. Um peso enorme no corpo, um vácuo no estômago, e as rodas rolavam livres no ar. Já não ouvia barulho por baixo de mim. Tinha sido substituído por um leve assobiar no exterior.

Estávamos a subir. Olhei pela janela. O chão afastava-se rapidamente de nós. O meu coração descansou. Uma excitação tremenda invadiu-me o corpo. Olhei os meus companheiros. Todos olhavam hipnotizados para o chão, talvez pensando se a ele voltaríamos em segurança. Foi grande e longa a volta que demos para ganhar altitude suficiente para o salto. Sem percalços fomos subindo, distraídos pela paisagem que víamos pela janela. O chão estava cada vez mais longe. Os objectos diminuíam proporcionalmente tornando-se peças de um gigantesco presépio. Pequenas casinhas, pequenas estradas e ribeiros, árvorezinhas, um rebanho de mini ovelhinhas com um minúsculo pastorinho e um ainda mais minúsculo canito saltitante. Que estranho que é quando conseguimos divisar, passando abaixo de nós, alguma ave! Que estranhas são as aves vistas de cima! Que baque profundo agride e viola o nosso corpo! Apetece gritar como uma criança - olha mãe, aquele pássaro lá em baixo!

Um burburinho desperta-me do sonho. O piloto está a alinhar o avião com a zona de lançamento, contra a direcção do vento. O motor acalma-se. Esforça-se para estabilizar a aeronave. O largador abre a porta e uma aragem fresca entra e envolve-nos. Lá fora está fresco. Estamos a setecentos metros de altitude e o ar aqui em cima ainda não aqueceu. Ordem para verificar equipamento. O largador, colocado junto à porta, espreita para fora e faz avançar o primeiro. Que por acaso sou eu. Avanço arrastando-me pelo chão, chego à porta, coloco as pernas para fora e fico sentado com o pé direito no estribo, agarrado com a mão direita numa pega ao lado da porta. O chão longínquo convida-me. Coloco-me em posição, agarrando-me com firmeza, inclinando ligeiramente o corpo para fora, colocando o meu peso no estribo. O largador grita:
— JÁ!!

E nesse instante qualquer dúvida que tivesse dissipa-se. Ao mesmo tempo que largo a pega projecto o corpo para a frente, procurando alinhar o corpo paralelamente ao avião numas aspas perfeitas. Por um breve instante, uma fracção de infinito, pareço voar ao lado dele, debaixo da protecção da sua asa:
— Mãe, olha! sem mãos!
Mas, não. Sinto o corpo cair e o avião afastar-se rapidamente de mim. Estou só. Completamente só. Setecentos metros de ar separam-me do solo, lá muito em baixo. Olho para o chão enquanto conto mentalmente:
— Zero zero um, zero zero dois, zero zero três.

Três segundos. É o que demora da saída até à abertura. A minha atenção está toda concentrada na tira extractora que sinto esticar e extrair o meu pára-quedas do seu invólucro. Há uma enorme turbulência à minha volta. Oiço o frufru do nylon e dos cordões que se esticam. Oiço um cordão que rebenta num estoiro que parece um tiro. Foi o cordão umbilical. Chamado fio de estropo, une a extremidade da tira extractora ao topo da calote do pára-quedas e quando rebenta — convém mesmo que rebente, ou... — separa o pára-quedas do avião. Agora sim. Nada me une aquela máquina que mais acima se afasta velozmente. Apercebo-me, até porque sei, que os outros estão também a saltar. Mas continuo concentrado em mim. O meu corpo cai cada vez mais depressa e só uma coisa pode evitar que me esborrache que nem um tomate. O tempo parece eterno. Tenho tempo para ver que lá em baixo um magote está de nariz no ar, talvez a pensar:
— Abre, não abre...

Bruscamente, a enorme mão de Deus desce dos céus, agarra-me pelos ombros e puxa-me para cima, travando a minha descida vertiginosa. Oiço um “ftau!” e faz-se um profundo silêncio à minha volta. Sei que aquele som foi a calote que se abriu completamente. Sinto-me parado no ar. Olho para cima. Lá está ela, um imenso disco verde, um grande prado de um verde lindo, magnífica brilhando ao sol. No chão não parecia tão bela! Mas outros afazeres se impõem. Isto ainda não acabou. Verifico se não há cordões passados sobre a calote. Nem um. Óptimo! A temível vela romana, em que o nylon fica aderente e a calote não insufla, já vi que não aconteceu. Os cordões estão correctamente esticados e não há enrolamento. O pára-quedas de reserva que se comprime contra o meu ventre não me vai ser, em princípio, necessário. Fixe! ‘Tá tudo o.k.. Posso gozar a descida que vai demorar ainda cerca de um minuto. Depois terei outros problemas para o contacto com o solo. Desde que não caia na água, na estrada ou em cima de uma árvore... E entretenho-me a olhar a paisagem. Que poucos têm o privilégio de ver daqui. Oiço malta gritar. São os meus companheiros, suspensos nas suas calotes, que gritam de alegria uns para os outros. De facto é o que apetece. Gritar como uma criança endiabrada quando anda pela primeira vez de carrossel. Gritar ao sol:
— Vês, o céu não é só teu! Também tenho um pedacinho!

Conforme desço, o silêncio e a paz vão-se alterando. Começo a ouvir os barulhos da terra. As vozes das pessoas, os animais, máquinas, automóveis, etc. Estou perto do solo. Tenho que me preparar para a aterragem. Molho um dedo na boca e uso-o para calcular a direcção do vento. Tenho que traccionar as tiras do lado deste para reduzir a velocidade horizontal. É o que faço. Não tenho nenhum obstáculo entre mim e o solo. Preparo a posição de aterragem. Cabeça para baixo, queixo junto ao peito. As mãos a traccionar com força as tiras, cotovelos para dentro, para o estômago, para não partir nada. Pernas unidas e ligeiramente flectidas. Calculo a flexão tirando visualmente uma mirada entre os joelhos e as biqueiras das botas. Pés paralelos ao solo. Tento não retesar o corpo e aguentar a posição. O chão aumenta rapidamente e parece vir ao meu encontro. Estou quase, quase, quase... “Tram!” As minhas botas tocam o solo. Flicto as pernas e, ao mesmo tempo, rodo o corpo para o rolamento. A minha nádega toca no chão. Em cima de um calhau. Porra, doeu! Rolo e levanto-me rapidamente correndo em torno do pára-quedas, tombado de lado como uma alforreca. Evito o arrastamento e a calote fecha-se vergando sob o seu próprio peso como um balão que perdeu o ar. Faço uma dobragem sumária usando os braços estendidos como para enrolar uma corda. Dirijo-me ao local onde deixara o saco e arrumo o pára-quedas.
Acabou. Fica-me para sempre a recordação. Daqueles três segundos durante os quais toquei os deuses. Só os pára-quedistas sabem porque cantam os pássaros!

josé antónio, Oeiras


foto: autor desconhecido, Portugal 1979

14 comentários:

Vera Cymbron disse...

Amigo...que coisa grande! E eu que pensava que escrevia testamentos...credo homem. Li um cadinho, volto com mais tempo.
Jinhos

José António disse...

Olá Verinha !

Que bom que é ver-te por aqui !

A prosa é longa, é. Não gosto de fazer posts muito grandes. A maioria das pessoas perde a paciência e não os lê até ao fim.
Mas este tem uma razão de ser. Está relacionado com um post da Sulista lá no cantinho dela (voar, uma paixão...), que me fez recordar este velho texto e me levou a partilhá-lo com todos.
Vou voltar aos meus posts curtinhos, prometo.

Continua a aparecer.

bjs,

Sara MM disse...

UAHU!!!!

Que espectáculo!!!!

Eu não seria capaz de obedecer ao tal já! :o|
Bem me lembro do que era tentar deixar-me cair na corda de escalada! Até escalava o impossível só para não ter de voar aquele pedacinho!!

Deve ter sido mesmo bom... mas triste, regressar ao desassossegos e falta de paz na terra, não?
Bem, mas esses segundos valem um eternidade! São teus para sempre!

Eu guardo o relato... adorei!
(Pena que arranjei as unhas esta semana (pela 2ª vez na vida!) e o suspense me fez roer uma (coisa que nunca faço!)... mesmo sabendo que tás vivo pra contar) ;o)

Vai haver mais toques nos Deuses?!

BJs

Sulista disse...

Adorei a descrição completa do teu vôo! que coisa espectacular e assustadora ao mesmo tempo...deve ser uma sensação única e maravilhosa mas acho que prefiro o avião ;-D

Mais Bjs

José António disse...

Olá Sara !

Desculpa lá as unhas ! Não estavam nos meus propósitos. Mas elas crescem de novo... :)

Mais "toques nos deuses" ?
A experiência militar de pára-quedismo foi de salto automático. Mas ficou aquele bichinho a roer cá dentro. Eu via os instrutores saltarem em queda-livre, conversava com eles para saber como eram as sensações, e como conhecia a experiência daqueles 3" imaginava-a transposta para uma queda de p. ex. 30".
Por isso em 1995 inscrevi-me no Pára Clube de Évora com a intenção de me dedicar à queda-livre. Razões de saúde impediram-me de prosseguir com esse sonho. E continuo assim. Também por razões de saúde já nem salto automático posso fazer.

O Páraquedismo acabou para mim ! :(

Agora toco os deuses de outros modos, através da Cultura em geral e da Arte em particular !!

bjs,

José António disse...

Olá Sulista !

Gostos não se discutem, como soi dizer.

É preciso vencer o medo, sim. Afinal somos animais e a nossa reacção à queda (e às alturas) é a de qualquer outro ser vivo, excluídos os pássaros.
Mas vencer esse medo compensa. O prazer que se pode extrair da actividade é esmagador !
Afinal isto acontece com quase tudo o que fazemos na vida. :)

Também ADORO voar em aviões. Estar lá em cima dá-nos uma visão completamente diferente do mundo !

bjs,

Isabel Magalhães disse...

Olá Zé,

Nunca saltei e seguramente que já não o farei mas voei muito em Cesna de 2 lugares com partida de Tires e digo que foi das coisas boas que me aconteceram.

Ah! a última frase do teu post

"Só os pára-quedistas sabem porque cantam os pássaros!"


é um MUST. Parabéns.

José António disse...

Olá Isabel !

Também voei uma vez numa avioneta de 4 lugares. Fomos até ao Algarve passar um fim-de-semana, imagina!
Foi uma experiência fantástica porque eu ia no lugar do co-piloto (apesar de não pescar nada daquilo; mas também mais ninguém pescava, excepto o piloto).

A frase não é minha. Era um dos nossos slogans lá na tropa. Ela tem para mim um sentido muito profundo, pela conotação com a ideia de liberdade.

bjs,

Isabel Magalhães disse...

Caro Zé,

É por causa dessa conotação com a Liberdade que a frase é um 'must'! :)

[]

José António disse...

Olá Isabel !

Sempre achei que toda a gente devia passar pela experiência das actividades aeronáuticas.
Voar em aeronaves, aviões, hélios, ultra-ligeiros, saltar em pára-quedas - automático ou queda-livre - voar em parapente, asa delta ou em balão, estes últimos tenho muita pena de nunca ter experimentado :( , etc.
A sensação de Liberdade que nos atinge é tão intensa que nos faz ver o mundo de forma muito diferente. E acho que isso nos torna melhores. É uma experiência que todos deviamos ter.

Ainda acrescentaria a isto um sonho meu de criança: navegar no espaço numa astronave. Ver a Terra lá de cima. :)
Mas este sonho... pois...

bjs,

Sara MM disse...

:o(

Mas continuo a dizer... Aqueles segundos são TEUS! :o)

Votos de que toques então os Deuses mtas vezes de outras maneiras!
(essa da Arte e etc foi mto contida... pois eu lembrei-me foi de uma lareira ;o) ! LOL)

BJs

José António disse...

Olá Sara !

Ah, sim. Aqueles 3" ninguém mos tira !

Essa da lareira, com o frio que está, é uma excelente ideia !

Mas é coisa que não tenho cá por casa. Buá ! :(
Valem o aquecedor a óleo e muitas, muitas, mantas para contornar o problema.

Agora, que não me importava de estar sentado à lareira, ai não...
Com um uísque na mão e a ler um bom livro ou a ver um bom filme ou então a curtir um disquito de jazz.
E se há música que me aquece o espírito ! mesmo que o corpo gele... brr.

bjs,

Isabel Magalhães disse...

Há outra situação em que se vive a sensação de LIBERDADE; num pequeno barco à vela ao largo.

Quando voava em Cesna tb fazia de co-piloto - situações houve em que me deram os comandos do pequeno avião - mas eu, como tu, não sabia nada daquilo. Quem sabia era o piloto! :)

Um []

José António disse...

Olá Isabel !

Absolutamente de acordo !
Passei por essa experiência (barco à vela) e é uma sensação indescritível. O tempo eterniza-se. Não existe pressa. É apenas vogar ao sabor do vento (quando há vento... :) )

Era o meu sonho de criança. Ser marinheiro. Mas, tal como com os barcos quando enfrentam ventos contrários e correntes adversas, a vida tomou outro rumo.

bjs,