sábado, dezembro 31, 2005

chove em hueiras...


Hoje de madrugada, aí pelas 2 h., consultei o site do Instituto de Meteorologia para ter uma ideia do tempo que os manda-chuvas nos reservavam para a passagem de ano, em especial se teríamos chuva.
A informação disponibilizada dizia que ia chover em Lisboa e arredores. O.k., mas será que eles iam acertar?

Desde manhã que o meu gato Pasoca tem andado desaparecido.
É um magnífico exemplar macho (virgem, coitado) de cor negra, com 5 anos.
Habitualmente está deitado em cima do monitor do computador, em cima do livreiro da sala, ou à porta do quarto a miar, a rasgar o ténue filamento que ainda mantém a minha mulher ligada à estabilidade psicológica, levando-a a gritar como uma possessa com o inalcançável e impossível intuito de o fazer calar.

Mas hoje não. Não o via em lado nenhum. Eu sabia que ele tinha que estar cá em casa. Não tem maneira de se pirar, não temos quintal porque vivemos num andar e também não temos portas ou janelas abertas.
Então lembrei-me de episódios passados. A experiência destes 5 anos de convívio, em que temos sido os animais de estimação dele, veio-me à memória.
O Pasoca pode não ser formado em Climatologia ou Meteorologia, mas tem um faro especial para o que está para vir.

Procurei-o. Não foi difícil encontrá-lo (a casa também não é muito grande). Lá estava ele, refundido desde manhã, debaixo da mantinha em cima do sofá (ver foto; aquele altinho da mantinha vermelha é o gajo).
Tenho um gato que sabe que vai chover (mesmo não andando na rua). Esta é a atitude típica dele. Ele lá saberá como adivinha o tempo. Talvez consiga farejar a chuva. O que é certo, e já o constatei muitas vezes, é que quando está para chover, o fulano enfia-se debaixo da mantinha ou, em alternativa, refunde-se dentro dos roupeiros.

Afinal, para que preciso eu do site do Instituto de Meteorologia? Basta-me olhar para o Pasoca para saber se vai chover ou não!

nota: para confirmar o que digo, ainda há pouco começou a chuviscar cá no burgo.

foto: © josé antónio, 2005 (ainda em...)

novas previsões Karamba e mais búzios


Em 06 Mar 2005 apresentei, antecipadas, as previsões Karamba.
Pareceu-me de bem, ou não fossemos todos pessoas de bem, agora que estamos a chegar ao terminu do ano e que 2006 está a bater-nos à porta, num gesto de são, sincero e franco espírito democrático, republicar as mesmas, agora actualizadas com um nóvel acervo de previsões (na medida em que adquiri um novo e espectacular conjunto de búzios de Madagáscar de alta precisão, através do E-bay).
Assim, aqui ficam as previsões na altura feitas (a), as novas previsões re-buziadas (h) e os meus comentários de hoje (c):

(a) - Jorgio Sampas, de casaca virada, colarinhos engomados e chapéu alto, aceita convite formal para ingressar no PSD.
(c) - Já esteve mais longe...
(h) - E é convidado para presidir à Distrital de Lisboa.

(a) - Feitas du Am'ral, com um pc-wintel da micro$ofre made in Taiwan, inscreve-se online no Bloco de Esquerda.
(c) - Já esteve mais longe...
(h) - E é o cabeça de lista do BE nas eleições legislativas.

(a) - Paul Tortas, iluminado por Deus a quem pediu ajuda e protecção, publica uma autobiografia intitulada "Vida Submarina".
(c) - Já esteve mais longe...
(h) - A Marinha convida-o a visitar a dorsal atlântica numa fragata Meco. Recusa, porque prefere ir à fossa ao Mindanau.

(a) - Isaltado de Morales transfere verbas para um sobrinho, carroceiro no Sri Lanka, e pela milésima vez é presidente da Câmara Municipal de Oeiras.
(c) - Nem são precisos os búzios...
(h) - Um turista milionário texano propõe à Câmara de Oeiras comprar-lhe o SATU para instalar no seu rancho de 3.000 ha no Texas. O povo de Oeiras grita "Vendam essa merda já, porra!"

(a) - O Caso 'Casa Bia' é arquivado por falta de provas; Bibocas e Carl Cuz abrem uma creche multimédia.
(c) - Acertei quando disse que iam sair todos em liberdade...
(h) - No verão rebenta um novo escândalo a envolver ambos e todos os outros. São acusados de terem roubado uma caixa de preservativos a um adolescente no Parque Eduardo VII, e de lhos terem metido um a um no recto, insuflados com matéria carnuda e dura.

(a) - O Sporting sagra-se Campeão Nacional de Futebol... verdade ! juro !
(c) - Já esteve mais perto...
(h) - O SCP muda a cor das camisolas para vermelho, a ver se dá mais sorte.

(h) - Cabaco Silve é eleito presidente da república e a sua primeira medida é que todos os topónimos começados por 'Poço' sejam mudados para 'Fonte'. O primeiro a ser alterado é o Poço do Bispo.
(c) - Antes de ele ocupar o Palácio de Belém, era boa ideia remover de lá todas as mantas e tapeçarias, não vá a 'Maria' tecê-las...

(h) - Ieronimus de Susa inventa o pseudónimo, internacionalista, 'James' e publica sob-pseudónimo o romance 'Até Depois de Amanhã, Tovarich'.
(c) - Vai ser um sucesso de vendas na Festa do Avante...

(h) - Francis Louça, com o dinheiro arrecadado nas eleições, compra uma casa na Quinta da Marinha e um Ferrari, é descoberto pela SIC e acaba expulso do partido. Ferdinand Roses torna-se o cabecilha... perdão, a cabeça do Bloco.
(c) - Assim se parte a louçã toda...

(h) - O Papa Bendix XVI escreve uma Encíclica contra os infiéis e os pandeleiros.
(c) - Sem comentários...


Agora a sério:

QUE O ANO NOVO SEJA O ANO DA TRANSMUTAÇÃO DE TODOS OS VOSSOS SONHOS EM REALIDADES !!!

!!! ÓPTIMO 2006 !!!


foto: © josé antónio, 2005

segunda-feira, dezembro 26, 2005

à custa dos doentes

Encher os cofres do estado à custa dos doentes...


Para todos aqueles que ainda acreditam ingenuamente que o estado português não é HIPÓCRITA e merece respeito, aqui está um exemplo flagrante dessa hipocrisia, colhido numa decisão do governo (com minúscula) que o representa e desgoverna. A notícia é de hoje e da SIC online:

"O tabaco vai aumentar cerca de 15 por cento já a partir de 1 de Janeiro. O maço de tabaco sobe em média mais 35 cêntimos. (...) O Estado espera desta forma arrecadar mais 180 milhões de euros. (...)"
in: http://sic.sapo.pt/online/noticias/dinheiro/20051226+-+tabaco+mais+caro.htm

Não é verdade que o tabagismo é uma DOENÇA? É o que dizem todas as campanhas anti-tabagismo. E dizem também que o fumador é um doente.
Não é verdade que esta doença é particularmente DIFÍCIL de curar? É muito maior o número dos que tentaram a cura e não conseguiram ou reincidiram, que o dos que tiveram efectivo sucesso.
Então que nome se pode dar a esta atitude de penalizar este particular tipo de doentes, já de si muito penalizados pelas doenças associadas e custos associados ao tabagismo, fazendo-os PAGAR IMPOSTOS em duplicado?

Porque é que o estado não leva esta atitude mais longe, legalizando o consumo de drogas e criando um imposto sobre o consumo das mesmas? Sempre arrecadava mais uns MILHÕES...

nota 1: A 'desculpa' de que o aumento de preço contribui para diminuir o consumo de tabaco é uma FALÁCIA. Se fosse verdade as tabaqueiras já tinham ido à falência. O consumo tem AUMENTADO, sobretudo entre os jovens, por mais que os preços aumentem. E aumentaram muito: há 30 anos um maço custava em média 2 cêntimos (5$00).

nota 2: Eu até estaria de acordo com o aumento, se o imposto arrecadado fosse TODO para investir na SAÚDE. Mas isto é um mito e uma ilusão. Sabemos bem para onde vai ele...

foto: © josé antónio 2005

quarta-feira, dezembro 21, 2005

a saga do beduíno VII - neve sobre o beduíno

Talvez alguns de vós já estejam com saudades da dramática 'saga do beduíno' iniciada em 25 de Março de 2005 com o seu primeiro episódio e continuada nos dias subsequentes, mas que imperativos de ordem ontológica superior obrigaram a interromper no episódio VI em 30 de Março de 2005.
Retomamos aqui a estória no seu episódio VII, para não defraudar os nossos eméritos e imensos leitores que tão veementemente apostaram na veracidade inquestionável dos factos relatados. Segue o episódio:

a saga do beduíno VII - neve sobre o beduíno

A neve caía copiosamente sobre a pobre e oblíqua cabeça do beduíno (português), que estremeceu num arrepio de frio, num gelo que lhe percorreu a óssea espinha.
Os minúsculos flocos cristais de gelo eram como pontas de alfinetes a agredir a sua rude e áspera pele tostada pelo sol queimada pelo tempo assada pelo vento violador das estepes arenosas do deserto.
Assada como as suas virilhas eram assadas.
Andar no deserto palmilhar os espaços infindáveis calcorrear as picadas invisíveis matrizadas pela memória, pode assar as virilhas a qualquer um.

Lembrou-se dos chatos (Phthirius pubis) que apanhara com as danccarinae ventralis, e as imagens daqueles corpos lascivos, luxuriosos, gordurosos e a cheirar a haxixe nos quais deixara amolecer a sua essência, intumesceram-lhe o membro dito viril. O que agravou ainda mais a sensação de queimadura nas virilhas.
Mas o seu verdadeiro problema era a neve. Andar na areia já é difícil. Fazê-lo debaixo dum forte nevão... Porreta, cagalheta!
Em milhares de anos nunca ninguém tinha visto nevar no deserto. O mais perto que alguma vez algum beduíno estivera do frio e do gelo provavelmente fora no mercado de Agadir, frente ao carrinho do vendedor de gelados de cone e coca-colas.

Aqui devemos colocar uma nota.
NOTA: todo o beduíno que se preze sabe que a melhor forma de tirar o tesão aos dromedários é enfiar-lhes um gelado de manga pelo ânus acima. Não há conhecimento de dromedário que, após sodomizado por um belo dum gelado de manga (ou outra fruta), se tenha posto com brincadeiras sexo-fantasiosas no meio da cáfila a atrofiar a progressão da caravana!!! (para falar verdade, o método é válido também para os humanos.)

E a puta da fria neve que não parava de cair. Já lhe doíam os cornos (uma costela ribatejana). A neve acumulava-se e formava um manto branco espraiado que engrossava e dificultava a progressão. Os seus pés, habituados a mergulhar na quente areia dunar, enterravam-se obscenamente, porcamente, na neve, formando à sua volta charcos de água arenosa que rapidamente voltava a congelar. Puta que pariu! A culpa desta merda foi de terem ido à Lua! Pensou o beduíno, mais para se convencer, do que para se justificar da sua inatitude ramelosa. Os seus olhos estavam cheios de ramelas com semanas de vida. Estava mesmo um frio de merda!

O beduíno lembrou com saudade o doce calor das bostas de dromedário nas quais estivera mergulhado. Tão quentinhas!

Veio-lhe à memória um fadinho:
— Ai quem me dera... que um dromedário me cagasse em cima...

domingo, dezembro 18, 2005

!!! BOAS FESTAS !!!



Votos de FELIZ e SANTO NATAL e BOM ANO NOVO !!!

Ah, já agora: Lembre-se dos outros...

desenho: © josé antónio 2005
clique na imagem para ampliar.

segunda-feira, dezembro 12, 2005

uma foto para a SARA


Ofereço esta fotografia à Sara, que adora cogumelos mas detesta fungos nas paredes ;) , e que tem o seu blog aqui: http://saramm.blogspot.com/
Se não quiser ter o trabalho de escrever o endereço clique no título deste post ou procure SaraMM nos links à direita.

clique na foto para ampliar.

domingo, dezembro 11, 2005

são trevo, senhor !


Porque hoje é domingo aqui fica um passatempo para o/a repousar e divertir.
Clique na foto para ampliar e divirta-se à procura de um trevo de quatro folhas.
Quem sabe? Pode ser que encontre algum! Talvez lhe traga sorte para o sapatinho! :)

quarta-feira, dezembro 07, 2005

O OUTRO LADO DA MOEDA


Há dias em que fico assim... há dias em que vejo coisas que me esfrangalham completamente e me fazem sentir culpado de estar vivo, há dias em que me sinto um ser abjecto, uma grotesca obscenidade, preocupado que estou com as minhas coisas comezinhas, esquecido do mundo, como se não existisse mundo para lá de mim, mas existe... há dias em que me apetecia nunca ter nascido, há dias em que até o respirar me dói e me crucifica, há dias em que desejo que me metam numa camisa-de-forças e me internem e me enfiem num quarto almofadado de paredes brancas onde eu possa marrar com os cornos nas paredes à vontade até ao fim dos meus dias ou me levem para uma tourada de morte em Barrancos e me ponham no papel do touro... PORRA !!!

Clique no título do post, corra a página até encontrar Portugal e clique em Flash Exe para ver O OUTRO LADO DA MOEDA.

Sem comentários (antes que enlouqueça de vez...)

sábado, dezembro 03, 2005

não tem mal nenhum


Ontem fui surpreendido, ao consultar o Site da SIC, por esta notícia:
"Não aos trabalhadores fumadores"
Novo critério de contratação na Organização Mundial de Saúde
A Organização Mundial de Saúde vai deixar de contratar fumadores. A agência das Nações Unidas justifica a medida por imperativos de credibilidade .
A partir de agora, a pergunta “É fumador?” passa a estar incluída nos formulários de candidatura a um emprego da Organização Mundial de Saúde (OMS).
Se a resposta for afirmativa, a candidatura é logo excluída. Se a resposta for negativa, mas se se confirmar que o candidato/trabalhador mentiu para ser admitido nos serviços, este vai ser sujeito a medidas disciplinares.
Quanto aos funcionários fumadores existentes, a agência das Nações Unidas vai passar a oferecer apoio médico e económico para que deixem de fumar. O regresso à OMS só acontecerá se o indivíduo deixar de fumar.
Num comunicado interno enviado a todos os trabalhadores, a direcção da OMS justifica esta medida por imperativos de credibilidade e imagem da instituição, que deve dar o exemplo já que desempenha um papel internacional na luta contra o tabaco.
De acordo com dados da própria organização, sediada em Genebra, o tabaco é a principal causa de morte evitável do mundo. Anualmente mata, directa ou indirectamente, quase cinco milhões de pessoas."
in: SIC ONLINE


O meu espírito sentiu-se agredido e insultado como se o tivessem metido numa prensa de azeite. Fiquei completamente amarfanhado.
Não por eu ser fumador, que assumidamente sou, não por ser candidato a emprego na OMS que, garanto, não sou, mas porque ouvi ao longe soarem as trombetas do FASCIZOIDISMO !!!

Não me canso de alertar para certas ideias que a priori parecem boas e justificáveis, mas que na minha perspectiva transportam no seu íntimo e nos interstícios um permissivismo ideológico e uma intolerância perigosas.
Não me canso de avisar que foi assim que o 'inocente' nazismo e muitos 'angelicais' fascismos começaram.
Se lermos as teses nazis à luz da época em que foram produzidas facilmente constataremos que 'não tinham nada de mal...'
E se calhar até aderiríamos a elas como milhões de alemães fizeram.
O pior foi o resto. Basta uma pequena faísca para incendiar e destruir uma floresta.

A minha preocupação é que estas ideias aparentemente inocentes, abrem um precedente que permite a posteriori outras ideias muito graves e perniciosas.
E para as mesmas se imporem basta o facto de as populações já terem aderido à 'ideia-base' que subjaz a todas as outras e que 'não fazia nenhum mal'.

Se se for por tal caminho, já os estou a ver daqui a adoptarem a mesma 'filosofia' para a contratação de médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, técnicos farmacêuticos, vendedores de rua de pensos rápidos, etc...

E, já agora, porque não generalizar e adoptar a mesma ideia para quem bebe bebidas alcoólicas, para os diabéticos, para quem quer ter filhos, para quem usa óculos, para quem sofre de hemorroidal, para quem masca pastilha elástica (chuinga) ou até para quem usa peúgas cor-de-salmão...
São tudo coisas que prejudicam fundamente a imagem de qualquer empresa ou instituição.


PRIMEIRO LEVARAM OS COMUNISTAS,
MAS EU NÃO ME IMPORTEI
PORQUE NÃO ERA NADA COMIGO.

EM SEGUIDA LEVARAM ALGUNS OPERÁRIOS,
MAS A MIM NÃO ME AFECTOU
PORQUE NÃO SOU OPERÁRIO.

DEPOIS PRENDERAM OS SINDICALISTAS,
MAS EU NÃO ME INCOMODEI
PORQUE NUNCA FUI SINDICALISTA.

LOGO A SEGUIR CHEGOU A VEZ
DE ALGUNS PADRES, MAS COMO
NÃO SOU RELIGIOSO, TAMBÉM NÃO LIGUEI.

AGORA LEVARAM-ME A MIM
E QUANDO PERCEBI,
JÁ ERA TARDE.

Bertolt Brecht (1898-1956)


ilustração: © josé antónio

quarta-feira, novembro 30, 2005

solução dentária de um pobre


Há verdades insofismáveis. Esta é uma delas. A de que poucas são as pessoas que chegam ao fim da vida com os seus dentes naturais. A excepção, de um modo geral, aplica-se àqueles que por esta ou aquela razão morreram novos. E muitos, talvez nunca tenham entrado num consultório de dentista. Tinham carros demasiado velozes.
Para todos os outros, que somos nós, a realidade é outra. A nossa vida é um permanente atentar contra a saúde dos nossos dentes por via do tabaco, do álcool, das drogas, de utilizar os dentes para abrir embalagens teimosas, dos maus hábitos de higiene dentária, lambidelas das gengivas alheias e dos dentes cariados dos parceiros e parceiras, chupadelas de línguas, sexo oral, fellatio, cunilingus, beijos no ânus e etecéteras.
A verdade é que para a maioria de nós, mais cedo ou mais tarde, numa corriqueira consulta de dentista o homem da bata branca e alicate na mão nos agride com aquela afirmação "estes dentes estão muito beras, têm que ser tirados, depois pomos uma prótese dentária..."
E a calma e descontração com que os gajos dizem isto! Como se fosse um mecânico a dizer a um cliente que o carro precisa de mudar o filtro de óleo...
Enfim, alguns mais aventureiros, ou talvez resignados, aceitam a coisa à primeira (julgo que talvez por acharem que a vida é uma foda permanente e por isso...) Outros só se deixam convencer após um ou dois anos de dores de dentes, abcessos, terabites de analgésicos, antibióticos e anti-inflamatórios, uma estupidez auto-administrativa pseudo-medicinal porque o problema é mesmo e só: um dente na merda e a solução é extirpar o diabinho.

Então, marcada a consulta lá se apresenta o 'desgraçado' para a matança. Sim, matança. Um dente é uma coisa viva e, já agora, uma coisa viva que faz parte do nosso corpo, porra!
Não valerá a pena entrar agora em pormenores sórdido sobre a extracção dos dentes para não ferir susceptibilidades. Há pessoas muito sensíveis à visão do sangue e de agulhas, além de não suportarem o barulho da broca (brrrrrrrrrrrrr). A verdade é que um bom dentista, em pouco mais de 5 minutos, é capaz de extrair quase todos os 32 dentes a um ser humano. E se for alentejano ainda arranja tempo para ir dar uma rapidinha à Maria Papoila, que anda a pedi-las.
Quanto a prótese dentária (no vulgo conhecida por 'placa' ou 'dentadura') o arranca-dentes tem o hábito de propôr 3 preços, correspondentes, grosso modo, aos 3 estratos sociais. A 'perereca', a mais barata e de pior qualidade, que se racha ao meio três meses depois à primeira pratada de cozido à portuguesa ou entrecosto na brasa; uma assim-assim que se aguenta bem desde que se cole com polident, mas não é das melhores e passa a vida a querer fugir da boca, sobretudo quando a pessoa espirra, tosse, dá um peido ou faz força para defecar; e a totalmente de acrílico, feita à medida, super, a mais cara, à prova de raios gama e que dura até à próxima glaciação (como se um gajo estivesse preocupado com essa merda...)
O problema que sempre se coloca, e isto é um drama português que parece não ter fim, é estabelecer a melhor relação qualidade-preço. Claro que a priori qualquer um optaria pela placa de melhor qualidade, mesmo sendo a mais cara, se tivéssemos um serviço nacional-racional de saúde decente. Mas não temos. As placas saem-nos, literalmente, do bolso, para nos entrarem pela boca dentro.
Assim, as pessoas avaliam o que podem pagar e juntam-lhe a previsível comparticipação, quando esta é possível, perguntam ao homem da bata branca se podem pagar em duas vezes com cheques pré-datados e escolhem. Enfim, é como é.

Agora o meu drama.
Eu passei por esta merda!
Com uma diferença. Não havia comparticipação alguma e tudo tinha que ser pago do meu bolso. Que tinha um buraco no fundo maior que a c... da Cicciolina, pois!
Assim, pedi milhões de desculpas ao homem da bata branca, disse-lhe para me arrancar os dentes, mas que quanto à placa precisava de tempo para pensar, e que depois lhe diria alguma coisa.
Um dia de manhã lá fui à consulta e voltei com cinco dentes a menos. Não, não doeu mas é uma sensação estranha a porra da língua encostada à parte interior lisa e molhada do lábio inferior. Um gajo tem uma permanente sensação, que dura dias, de estar a fazer uma trombada!
Seja como for, eu tinha um problema para resolver. Precisava duma placa e as soluções propostas pelo homem da bata branca não se me afiguravam exequíveis. Eu andava mesmo muito desabonado.
Então, para pensar no assunto, um dia lembrei-me de ir passear até à cidade-luz. Não, não é Paris. Vocês têm a certeza que conhecem Lisboa?
Fui andando por ali às voltas a passear ao acaso até que me apercebi que estava no Campo de Sta. Clara e que era dia de feira. Pois, eu tinha, por coincidência, ido parar à Feira da Ladra, um dos mais importantes centros comerciais de Lisboa. Curioso, gosto de velharias, velhacarias, e também de apreciar as coisas roubadas, circulei pela feira descontraído. Mais ou menos. Ia particularmente atento ao bolso do blusão onde transportava a carteira e ao bolso dos jeans onde tinha o telemóvel. Nunca se sabe.

E então aconteceu. Ao acercar-me de uma banca, que não passava de um trapo cinzento emporcalhado estendido no chão com tralha em cima, vi uma impresssionante caixa de sapatos.
O que tem de impressionante uma caixa de sapatos? Nada. O que me impressionou naquela é que estava cheia de... dentaduras!
Montes e montes de dentaduras de todos os tamanhos e feitios. Havia algumas muito brancas, duas ou três mais amareladas, uma acastanhada com sinais de nicotina de fumador de cachimbo, outra com os incisivos magnificamente estalados e, impressionem-se com a riqueza do acervo, até uma com um pedacinho de um palito e restos de comida entre os dentes!
Perguntei ao homem o preço.
O homem, um magriço escanzelado com olhos de cão à espera de ser atropelado, e uma tromba que me lembrou vagamente um porco que vi numa feira de gado em Travanca, respondeu-me que "as simples custavam 5 € e as outras 7 €". Não percebi lá muito bem aquela distinção entre 'simples' e 'outras' mas pareceu-me que tinha a ver com o número de dentes. Ou com as ventas dos clientes...
Ora eu precisava de uma com 5 dentes para o maxilar inferior.
Disse isso ao rapaz-fronha-de-suíno e ele tentou impingir-me uma, suja de bâton rosa, de facto com cinco dentes, mas para o maxilar superior. Disse-lhe que não dava e ele, com argumentos que me lembraram os políticos em campanha eleitoral, tentou convencer-me a usá-la e que dava se a virasse de pernas para o ar! Fiquei fodido com o gajo! Estes cabrões andam a gamar para a droga e ainda me tentam ludibriar! Estive a ponto de explodir e mandar o gajo "bardacaca, bardachicha e bardaporra", para não o mandar "bardamerda", mas lembrei-me do governo e acalmei.
Respirei fundo, remexi e remexi na caixa com as placas, e acabei por finalmente escolher uma, após a ter posto na boca para ver se me servia. Não magoava e era a minha medida. Não tive coragem para perguntar ao moço-reco se tinha um espelho onde eu pudesse apreciar a composição do meu rosto com a placa. Temi que me mandasse bugiar e que já não me vendesse a placa, o que seria uma lástima.
Ainda me quis levar 7 € pela placa com o argumento de que a mesma tinha pertencido a um conhecido professor universitário, mas não acreditei na história e dissse-lhe isso mesmo, argumentando com ele que o sabor a fénico da placa demonstrava sem margem para dúvidas que a mesma pertencera a um fiscal das actividades económicas gay ou a um sacerdote pedófilo. O tipo aceitou o argumento, depois de olhar desconfiado em redor de nós, pediu desculpa, acho que "A do professor é esta mais amarelinha", e aceitou os 5 €.

Meti a dentadura na boca e voltei para casa, sorridente, sentindo-me um homem novo.

calcário anarca

terça-feira, novembro 29, 2005

¿HAS VISTO A MI PADRE?



Clique no título do post para aceder às petições da Amnistía Internacional ao Rei do Nepal e à guerrilha maoísta, ou escreva no browser: https://www.es.amnesty.org/ssl/nepal/interes/?origen=nepal

sábado, novembro 26, 2005

iluminações natalícias...


nota: este post está no meu blog Olharapo. Foi feito para ele mas... apeteceu-me colocá-lo também aqui!

Há vários dias que ela está ali e nunca a vi acesa a iluminar o local. A primeira coisa que me veio à cabeça quando a vi foi que alguém substituira uma lâmpada fluorescente ali por perto e não se dera ao trabalho de colocar a fundida no lixo, preferindo abandoná-la, perigosamente, a um canto. As coisas que eu imagino! Sou mesmo maquiavélico!

Mas entretanto comecei a raciocinar procurando fazê-lo com lógica, bom senso e sem preconceitos, afugentando do meu espírito qualquer eflúvio maldoso. E cheguei a uma dedução diferente. Deveras diferente.

Talvez em boa verdade se trate de uma nóvel, e económica, modalidade de iluminação natalícia que consista em espalhar ao acaso lâmpadas presumivelmente fundidas pelos passeios e ter a esperança, e sobretudo a fé, de que um milagre as acenda ao anoitecer, iluminando primorosa e maravilhosamente o nosso Concelho, enchendo o ar de doçura cálida e reconfortante.

Vou ficar à espera do anoitecer e ter muita, muita, muita fé para assistir a esse espectáculo maravilhoso que vai ser aquela lâmpada acender e iluminar a noite fria e aquecer os nossos depauperados corações. Já me parece ouvir ao longe o tilintar dos sinos e o drapejar das asas dos anjos! HOSSANA!

p.s.: valerá a pena falar de toxicidade e de civismo?

fotografia: © josé antónio 2005
local: estacionamento do Pingo Doce de Sassoeiros / escada de acesso à Torre Soleil.
data: 23 NOV 2005, 15:11

(clique na foto para ampliar)

quarta-feira, novembro 16, 2005

l'huomo diroxo e Mutcha

Em rigor, esta estória não pode ser considerada o primeiro episódio da saga "l'huomo diroxo, mutcha e siegref". Em verdade mesmo, a saga não está completa e é constituída, neste momento, por estórias esparsas sem grande alinhamento. Em todo o caso, sem esta estória nenhuma das subsequentes faz sentido, na medida em que esta introduz personagens, e dá um certo 'ambiente' e uma certa 'cor' à saga, pelo que pode ser considerada uma espécie de introdução.
Assim, a pedido da SaraMM, aqui fica:

L'HUOMO DIROXO E MUTCHA

atracções

Naquela parte da cidade as ruas eram cinzentas e sujas. Velhos edifícios abandonados, arquitecturas antigas, funções duvidosas. Vapores fétidos subindo por todo o lado, saindo de buracos engradados, no pavimento pejado de poças de água oleosa por toda a parte, conspurcado de detritos industriais e restos orgânicos.
Um saltinho...priii! Outro saltinho...priii! Ainda outro...chap!

l'huomo diroxo saltitava ao longo da rua sem passeios. Indiferente às poças de água que existiam por todo o lado, saltitava. Mãos nos bolsos, apito na boca, a pés juntos saltitava. A cada saltinho, uma apitadela. E assim avançava. Um saltinho...priii! Outro saltinho...priii! Ainda outro...chap! Entretanto, enquanto l'huomo diroxo saltitava na inconsistência do tempo e na insolubilidade da rua esparrinhando água das poças em todas as direcções, a noite caía, escorria pelas paredes, pelos objectos que encontrava no seu caminho. A noite caía escorrendo pelos corpos, sorvendo tudo o que encontrava. A escuridão fechava-se em torno dele, d'el huomo diroxo, ao mesmo tempo que alguns candeeiros — dos poucos que funcionavam — se acendiam soluçantes, enquanto perigosos smorfles ameaçavam invadir o negrume cúmplice da ausência de luz, ensaiando curtos voos, prenúncios do seu domínio das trevas. Naquele lugar, naquela cidade, o cosmos avançava e o caos recuava. Ao longe ouviam-se sons, sonoridades saxofónicas dolorosas e frementes, rasgando a noite como gritos de mocho, lembrando gotas de água a pingar sobre metal. Saltitando, l'huomo diroxo prosseguia, a pés juntos. Saltitando e apitando, saltitando e apitando...

Do outro lado da cidade, as ruas também eram cinzentas e sujas. Velhos edifícios de arquitecturas abandonadas, duvidosas intenções. Fétidos detritos orgânicos em movimento, arfantes (vivos?), alguns parados pelas esquinas, mergulhados em poças de água, reflectindo neons. Do outro lado da cidade a noite não existia. Melhor dizendo, a noite estava de tal modo transfigurada que parecia não existir. A ilusão era a norma. A ilusão era o ser. A ilusão era o caos. A ilusão... passar a noite em claro...
O olhar oblíquo, o cigarro ao canto da boca, a barba por fazer, as sereias no cais, o rugido dos motores das naves preparando-se para partir, a quietude do rio embalando ilusões (algumas dolorosas), mulheres do dia passeando na noite, neons estalando, doendo nos olhos, pavor do negro, da luz que se apaga por falta de corrente... E os pingos de água caindo sobre metal. E os mochos piando na noite, ecoando nos eucaliptos da imaginação...

Aí caminhava Mutcha. Cruzando neons, desviava-se rápida e bruscamente, no seu ar de habituée, dos obstáculos que lhe surgiam pela frente. Caminhava Mutcha. Na mão, um pião. Enquanto caminhava, descontraída, cantava mentalmente: eu tenho um pião, um pião que gira... eu tenho um pião a girar na mão; o pião, por seu turno, parecia um mocho. De madeira. Ilusão? Rumo ao bar, com o livre-trânsito no bolso, caminhava Mutcha, de pião na mão, e mochos esvoaçando no ar, cantando mentalmente. Para si própria? E assim prosseguia a noite que não era noite... Mutcha prosseguia. Indiferente, afinal, aquilo que já conhecia bem. O mocho a piar, os saxofones a tocar, o pião na mão, a canção a martelar-lhe o cérebro...

Também prosseguia, do outro lado da cidade, saltitando, l'huomo diroxo. Sem destino, resignado à sua condição de 'saltitão que apita'. Algures, l'huomo diroxo saltitava. Ausente. Foi subitamente que se apercebeu do silêncio. Parou bruscamente como se tivesse chocado com uma parede invisível. A sonoridade saxofónica que o acompanhara ao longo do seu deambular à deriva não se ouvia. Imobilizou-se. Completamente. A pés juntos. Apito suspenso entre os lábios. Respiração suspensa à entrada do apito. Apurou os sentidos. Tentou ouvir... Nada! Não se ouvia nada. Nem os smorfles. Parecia que tudo tinha parado. Então, no meio do silêncio, sem saber porquê ou como, ouviu uma canção bater-lhe no cérebro: eu tenho um pião...; um calafrio terrível percorreu-lhe o corpo amorfo. Estremeceu. E olhou.
Olhou para o fundo escuro da rua, para as poças de água a reflectir a pouca luz dos poucos candeeiros acesos, tremeu com o frio, sentiu passar sobre si o zumbido de um smorfle, encheu-se de coragem vinda não sabia de onde nem porquê, tirou o apito da boca, colocou-o no bolso, e caminhou decididamente, inchando o peito, em direcção ao negrume, desaparecendo na escuridão dos becos.

12out2002, sab., 02:50

pintura: josé antónio, 1995, guache sobre cartão, 100x70 cm

segunda-feira, novembro 14, 2005

finalmente o frio


Ainda ontem estive todo o dia apenas com uma t-shirt sobre o tronco. Sou um resistente e só aumento o agasalho quando sinto MESMO frio. Habitualmente só começo a vestir pullovers, camisolas e camisolões de lã lá mais para o Natal. E não dura muito, acabo com eles por volta do Carnaval. Gosto de sentir o corpo solto e à vontade, pelo que raramente uso muita roupa. Mas hoje não resisti. Senti a t-shirt insuficiente e tive que vestir uma sweatshirt. É por causa deste acontecimento/mudança que faço este post.

Não tenho preferências particulares por nenhuma estação do ano. Faça sol ou faça chuva, esteja calor ou frio, todas as épocas são importantes e necessárias aos ciclos vitais. Como ser vivo interiorizo esses ciclos e por isso sinto-me bem com qualquer tempo climático.

Digamos mesmo: Que valor teria o sol do Verão se não existissem o cinzento e o frio do Inverno para fazer a comparação? Não saberíamos dar o devido valor. E vice-versa, após a opressão do calor, que bem que sabe o alívio dos dias mais cálidos e das madrugadas frescas do Outono!

Transporto esta interiorização física e biológica vital para o espaço interior do meu espírito.
Não é só o corpo que se dá bem. Também o meu espírito adora mergulhar nas variantes epocais do clima. Nomeadamente por razões estético-artísticas. Neste sentido todas as épocas são belas e sedutoras. Todas me estimulam à criação artística, impondo-me os seus aspectos particulares.

É assim que quando há mudança, costumo dizer "Finalmente..."; "Finalmente o Sol"; "Finalmente a chuva"; "Finalmente o Verão"; etc. 'Finalmente', porque existe em mim um permanente desejo dessa mudança. É um movimento constante, mas em que, ao fim e ao cabo, a renovação faz com que as coisas sejam sempre novas e diferentes. Não há dois invernos iguais, duas chuvas iguais, dois nevoeiros iguais, dois granizos idênticos, todos são sempre novos, sempre outros e sempre diferentes.

O que acabo de expor tem como fundamento explicar porque digo:

FINALMENTE O FRIO!!!

foto: © josé antónio, 2005

domingo, novembro 13, 2005

fallor ergo sum


Estava já para desligar o computador e ir dormir que o trabalho castiga e vão sendo horas quando reparei BEM que dia é hoje e não me sentiria bem sem fazer este post.

A 13 de Novembro de 354 nasceu em Tagaste, na Numídia (actual Argélia), filho de Sta. Mónica e de Patrício, uma criança a quem seria dado o nome de baptismo de Aurélio Agostinho e que é um dos meus filósofos de referência: STO. AGOSTINHO.

Aqui fica uma singela memória ao jeito de homenagem.

pintura: Botticelli.

quarta-feira, novembro 09, 2005

l'huomo


Andava agora mesmo a escarafunchar no meu mac quicksilver g4 à procura de uma imagem para um determinado trabalho, quando de repente me deparei com este antigo boneco (1974).
Não recordo com que intenção (obscura?) o fiz.
L'huomo é um personagem de algumas estórias que escrevi há uns anos, e o seu nome completo nessas estórias é l'huomo di roxo. As estórias encadeiam-se umas nas outras e pertencem todas a um mesmo corpo. São como capítulos/episódios de uma obra maior, que ainda não acabei. Talvez um destes dias as solte por aí.

Para já, fica aqui o boneco, saído do fundo do baú.

© josé antónio

terça-feira, novembro 08, 2005

caça aos 'pretos'


Confesso que hesitei muito sobre este post.
Sobretudo por temer que o mesmo possa ter um tom racista ao qual sou completamente alheio. Procuro dentro do possível combater o racismo e a xenofobia.
Este meu post não tem de modo algum a intenção de ser um incentivo a esses sentimentos que, na minha perspectiva, denigrem a dignidade humana.
O meu objectivo é apenas levantar uma questão, em função dos acontecimentos recentes, que julgo dispensável referir em detalhe.

Existe uma onda de violência a alastrar pela Europa e uma vaga de incompetência generalizada para a controlar e dissipar.
As razões são fundas e históricas. São heranças dos colonialismos.
Mas as razões não são o fito deste post. De certo modo elas são conhecidas de todos.

O que eu pergunto é o que vai acontecer se não se puser termo a este descalabro.
A continuar a onda de violência, não é difícil adivinhar consequências nefastas para todos. Já morreu uma pessoa. Outras mortes poderão acontecer.
Se a violência não parar (por incompetência das autoridades e dos políticos, repito), se se generalizar a toda a Europa, sobretudo a Europa ex-colonialista, a mais atingida pelas vagas de imigração, não me custa imaginar que se acirrem os ódios raciais e xenófobos e que as pessoas, perante a passividade das autoridades, decidam 'fazer justiça pelas próprias mãos'. Não seria a primeira vez na história.

Tal pano de fundo é terreno fértil para nazis, neo-nazis e toda a espécie de fundamentalistas emergirem e atiçarem o fogo da 'limpeza étnica'. E com as pessoas a sofrerem na pele as consequências da violência, a aderência a essas teses será uma mera questão de tempo.
Como soi dizer "um diz: mata; o outro: esfola".
Não quero ser alarmista, mas se as coisas não se compõem, adivinho uma 'caça aos 'pretos'' (a).

(a) 'Pretos' é aqui um signo. Podem ser ciganos, kosovares, russos, búlgaros, portugueses, chineses, marroquinos...

p.s.: Parece-me sentir qualquer coisa de 'organizado' no que está a acontecer. Não é uma mera briga de rua. A forma estratégica como se têm espalhado os confrontos e a evolução táctica e técnica dos mesmos fazem pensar num acto concertado, com objectivos bem definidos. Ali anda mãozinha...

foto: © josé antónio

sábado, novembro 05, 2005

a lasca da unhaca


Dando continuidade (a) às minhas experiências de digitalização de pequeníssimos fragmentos da realidade, tão frequentemente ignorados pela cada vez maior indiferença da pessoa na obsessão do alienante ritmo actual, trago hoje mais uma curiosidade.

Os nossos estimados gatos domésticos têm o pérfido hábito de afiar as unhas nos sítios mais inconvenientes. Não conheço rigorosamente ninguém que tenha gato que não tenha passado pela humilhante experiência de ter que comprar um sofá novo com a desculpa de que o antigo não condizia com a nova cor das paredes... pois, pois!

Uma coisa que se encontra frequentemente pelo chão das nossas (ou deles?) casas são pequeníssimas lascas resultantes dessa saudável actividade de afiar as unhas.
É uma dessas lasquinhas, que há dias encontrei no chão do meu escritório, que aqui aparece representada.
Coisa estranha, não é? E contudo coisa tão vulgar!

tamanho: 8,6 x 9,1 mm.
digitalização a 2400 dpi.

(a) a primeira experiência aqui exposta data de 17 Setembro 2005 e tem o título de «crostinha duma feridinha numa orelhinha».

n.: clique na imagem para a ver ampliada.

quinta-feira, novembro 03, 2005

a feromona do tremoço


O homem, displicentemente sentado a uma mesa da esplanada, aguardou calmamente que o jovem moço brasuca atendedor de clientes ocasionais se dignasse prestar-lhe atenção. Passado pouco o maninho de terras de vera cruz aproximou-se da mesa e inquiriu o homem. Este, sem sequer levantar os olhos do tampo de madeira à sua frente, pediu apenas e só uma cerveja sem álcool, como tantas vezes fizera ao longo dos últimos anos. O magriço empregado era um tipo despachado e não demorou a trazer a dita, acompanhada... de um magnífico pires de tremoços, amarelinhos!
O vento parou o sopro outonal, as ondas do mar congelaram num sussurro espumoso, a terra imobilizou-se na frieza intemporal.
A questão emergiu bruta nos espíritos surpreendidos de todos e ficou suspensa no ar:
— Como soubera o empregado que o homem gostava de tremoços, se este não os havera pedido?

A resposta nasceu simples. Rasgou-se visível e óbvia. A lógica da mais pura ciência falou e disse que o empregado captara a FEROMONA DO TREMOÇO.

Tal como existem nas pessoas as feromonas que dão sinais sexuais, que transmitem desejos, intenções e vontades, mais ou menos confessáveis e confessadas, existe também a do tremoço que funciona subliminarmente como um almíscar. Esta feromona é resultado de se comer muitos tremoços ao longo da vida. A feromona acumula-se nas nossas células, concretamente nas mitocôndrias, e é exalada através da transpiração em momentos em que a sua acção química é solicitada. Qualquer animal sensível a ela, nomeadamente os empregados de mesa brasucas, subconscientemente detecta o seu sinal e percebe de imediato que aquela pessoa é um aniquilador de tremoços.
N.B.: São conhecidos casos de empregados de mesa que desenvolveram estranhas neuroses fóbicas, de tendência suicida, motivadas pela compulsão de servir tremoços a clientes que não os pediram.

quarta-feira, novembro 02, 2005

Carlos Santos Bueno


No meu post sobre a apresentação de "As Margens Vermelhas" faltou dizer quem é o autor. Ei-lo, segundo o convite da editora:

"Carlos Santos Bueno nasceu em 1966 em Lisboa. Foi seis vezes campeão nacional de remo entre 1981 e 1984, altura em que desistiu de estudar por motivos de saúde, tendo nascido na provação um gosto nunca antes experimentado pelas ciências humanas, a poesia e a filosofia. "As Margens Vermelhas" desenrolam-se entre o desconcerto de um mundo desfeito e a esperança de um engenho que se mantem intacto, sendo que são estas as verdadeiras margens da poesia."


Deixo também aqui um poema dum livro que o autor tem em preparação e cuja edição se espera aconteça em Março ou Abril de 2006:

O Soldado à Porta do Templo

Mestre, o soldado à porta do templo
Perguntou-me onde ia, e disse-lhe
Que vinha ao templo para pensar.
E ele perguntou-me “porquê?”
E eu respondi-lhe que a luz,
À hora em que o sol toca a última montanha,
Também põe os raios no gelo.
E assim as ideias sorriem como os raios do sol,
E os soldados novos que perguntam “porquê?”
E o soldado deixou-me passar.

Carlos Santos Bueno, 13/10/2005

domingo, outubro 30, 2005

as margens vermelhas


Hoje tive o grato prazer de ver concretizar-se algo que apoiei e incentivei por diversas vezes.
O meu amigo Carlos Bueno viu finalmente publicado o seu primeiro livro de poemas.

Conheci-o há já muitos anos atrás e o nosso comum interesse pela Filosofia causou uma imediata e forte empatia entre nós. De vez em quando dava-me a ler alguns dos seus poemas. E cedo tive a percepção de estar perante um Poeta com maiúscula. Muitas vezes lhe disse isso e o aconselhei a procurar apoios para uma edição da sua obra, para que a nossa Cultura não ficasse privada de tão sublime escrita e peculiar visão do mundo.
É pela mão da Editorial Minerva que a obra está agora à disposição de quem a quiser ler e apreciar, o que aconselho vivamente.
Para o Carlos os meus votos de felicidade, boa sorte e... muita poesia!

p.s.: nunca nos entenderemos a respeito do Kant...

sexta-feira, outubro 21, 2005

garrete

Poderá parecer estranho a algumas pessoas que se proteste quanto à qualidade de um cigarro. Afinal um cigarro é um objecto pernicioso para a saúde... e patati, e patatá... é sempre mau, como é que se pode falar de qualidade!?
Mas pode. Na base do preço que custa versus o resultado que se espera obter (prazer?). Aquilo a que hoje pedantemente se chama 'relação preço-qualidade'.
Quando compro um maço de cigarros espero que os mesmos venham em condições de serem fumados. Eu PAGO isso. E não é tão pouco quanto possa parecer. Num maço de 2,40 € (o mais barato que conheço), com 20 cigarros, cada cigarro custa 12 cêntimos. Na moeda antiga MAIS de 20 escudos!
Assim, exige-se que os cigarros tenham a qualidade apregoada pelo fabricante, nomeadamente quanto à forma, ao filtro, etc... Ao design (funcionalidade), diriam alguns.


Agora vejam o que me aconteceu há dias:
Abri a caixa para tirar um cigarro, que por acaso era o último, e quando o puxo para fora... cadé o filtro? Bem que o cigarrinho me pareceu mais curtinho que o normal...
Olhei o interior da caixa, que eu julgava vazia, e ele lá estava deitadinho no fundo, a dormir regalado como um bebé.
Não, não fui eu quem partiu o cigarro. O filtro estava MESMO separado do resto. Problema de má colagem, mau controle de qualidade, seja o que for.
Nestas condições aquele cigarro era 'in-fumável'. O seu destino era naturalmente o lixo. 12 cêntimos (DOZE), 20 escudos (VINTE), para o caixote do lixo.
Ou seja, paguei por um cigarro que não fumei. E nesta marca já não é a primeira vez que denoto falhas na qualidade (já aqui referi um caso).

Palavra que me apetece reclamar; escrever para a DECO; relatar a injúria ao Parlamento Europeu; fazer uma exposição à Procuradoria Geral da República; pôr o caso em tribunal; mandar um mail à Tabaqueira. EXIGIR a substituição do material defeituoso. Não sei, enquanto penso nisso vou lá abaixo comprar outro maço, com a esperança de que não contenha cigarros defeituosos...

"Fallor ergo sum" Agostinho

bo


Há dias atrás estava eu para aqui a trabalhar e a ouvir o Coro de monjes del Monasterio Benedictino de Santo Domingo de Silos e... lembrei-me da Bo Derek.
Ela, que tanto gostava de fazer amor ao som do Bolero de Ravel...

Pergunto-me a mim mesmo: Como será fazer amor ao som de Canto Gregoriano!?

Confesso: há dias em que me sinto um perfeitíssimo goliardo.

"Nisi credideritis non intelligetis", diria Agostinho com um enigmático sorriso nos lábios.

quinta-feira, outubro 13, 2005

joana, uma tese possível


Claro que não acredito que o MP esteja a tratar este caso com leviandade e displicência, e se o mesmo pede a pena máxima para este caso é porque detém fortíssimos indícios, que desconhecemos, da prática dos crimes de que acusa os réus. Assim julgo eu.
Contudo, não acredito em absolutos e sou um relativista. Acredito que a verdade muitas vezes nos escapa por entre os dedos, oculta por uma cortina de aparências as quais têm um aspecto de verdade insofismável tão grande e tão densa que não nos permitem imaginar outra possibilidade para além daquela que nos aparece como a óbvia.
Mas ela pode existir. As nossas emoções podem tolher-nos a racionalidade, a nossa lógica pode conter falhas, a precipitação pode levar-nos a cometer erros, o hábito, terrível inimigo da razão, pode insinuar-se perfidamente, etc.
Para lá do plano que consideramos o 'real', 'verdadeiro', 'evidente' e 'factual' acredito que existe um outro plano. Um plano que de momento não conseguimos alcançar. Um plano que é o 'aquilo que realmente pode ter acontecido'.

Chamar-lhe-ia, a esse plano, a essa zona, o Limbo da Especulação, isto é, aquilo que está para lá da cortina, e que por vezes é revelado a posteriori, frequentemente muitos anos passados, e que nos surpreende levando-nos a perceber que afinal estavamos iludidos e enganados. Mostrando-nos respostas outras, perfeitamente coerentes que substituem as que tinhamos aventado e que considerávamos as únicas possíveis e inabaláveis. É assim que, indipendentemente da, também minha, forte convicção da prática dos referidos crimes, entrando naquela área indefinida e volúvel da especulação, me proponho fazer um pequeno exercício.
Este é apenas isso mesmo. Um exercício especulativo, elaborado com base apenas nas poucas informações que os media nos vão fornecendo. Outra coisa não é possível. Mas considero que de acordo com a pouca informação de que disponho, este exercício não ultrapassa as barreiras do bom-senso. Com este exercício pretendo abrir uma porta de possibilidades, que desconheço onde pode conduzir. O futuro o dirá.


A 'ESTÓRIA':
Leonor e João decidiram matar a garota, Joana. A razão, para o caso, é irrelevante por agora. Importante é que sabiam que não o podiam fazer em casa nem com ela consciente. Era necessário adormecê-la primeiro e levá-la para um sítio ermo onde a pudessem eliminar.
Assim, puseram-na inconsciente, talvez com éter, soporiferos, ou outra coisa qualquer. Meteram-na num carro e transportaram-na para Espanha. Meteram-se por caminhos escuros e ermos até chegarem a um local afastado onde encontraram uma lixeira, onde não se percebia vivalma. Trânsito na estrada também não se via nenhum. O local parecia ser excelente para os seus tenebrosos propósitos.
Tiraram a criança, ainda inconsciente, do carro e levaram-na para a lixeira. Aí, estrangularam-na com uma corda, um lenço, um cinto, ou algo assim. Contudo a garota tem a garganta pequena, o dispositivo não apertou o suficiente e ela não morreu. Também a podem ter esfaqueado, mas o nervoso estragou a precisão dos golpes e as facadas não foram mortais. Outros métodos poderão ter sido usados, qualquer um de forma desajeitada, e a criança não morreu.
Mas continuava inconsciente e parecia estar morta pois não dava acordo de si. Eles estavam convencidíssimos que tinham morto a garota e rapidamente taparam o pretenso cadáver com um monte de lixo para o ocultar e a correr voltaram para o carro e regressaram à aldeia, a casa, onde passaram o resto da noite a fornicar, para aplacar a sensação de culpa e o remorso, procurando realizá-lo nos braços um do outro.

Passadas muitas horas, já noite cerrada, a criança recupera a consciência, ferida, dorida, assustada, com frio, no meio da mais absoluta escuridão e do cheiro nauseabundo do lixo que a cobre. Está completamente desorientada, como é natural naquelas circunstâncias. Não sabe o que há-de fazer.
Grita por socorro e de dor, mas não há ninguém para a acudir. Mantém-se imóvel durante muito tempo e chora. Até que lentamente se vai apercebendo que há objectos sujos e mal-cheirosos que a cobrem e fazem pressão sobre ela.
O instinto animal fá-la reagir. Empurra o lixo e contorce-se, até sentir o ar mais respirável. Consegue afastar o lixo e sair para descobrir que está sozinha, num local que lhe é completamente desconhecido.
Não existem luzes, não existem sons, excepto uma coruja furtiva que pia ao longe, que a ajudem a orientar-se. Começa a caminhar como qualquer criança perdida e amedrontada: sem direcção, ao sabor do acaso. E é fruto do acaso, ou do azar, que os seus passos acabam por a conduzir até uma estrada. Talvez a estrada por onde veio.
Ali chegada descobre algo que conhece e sabe: uma estrada tem dois sentidos, duas direcções, e qualquer delas leva a algum lado. Talvez a leve à ajuda que deseja ansiosamente. Assim começa a caminhar, com dificuldade que as dores ainda são muitas, ao longo da berma. A estrada não tem movimento excepto o dela própria e passam horas até que um carro aparece. Talvez seja a salvação almejada.

O condutor apercebe-se da presença dela e o carro pára ao lado dela e ela imobiliza-se também, encolhendo-se um pouco e estremecendo.
O homem, enorme, corpulento, mal vestido, a tresandar a suor e álcool, sai do carro e aproxima-se dela:
— Hei niña, que haces aqui?
Ela não percebe, aquilo soa-lhe estranho. Lembra-lhe vagamente o falar de alguns ciganos que em dia de feira passam lá pela aldeia dela. Mas estes andam com carroças, mulas e burros. Não andam de carro, têm barba e vestem de negro.
Percebe que o homem lhe está a fazer uma pergunta, mas não percebe qual. Tenta responder na única língua que conhece. Diz a coisa mais óbvia. Diz o seu próprio nome. Tenta explicar o que lhe aconteceu, mas não o sabe fazer porque na verdade não sabe o que lhe aconteceu. A última coisa de que se lembra foi ter acordado debaixo dum monte de lixo. Balbucia, gesticula, engasga-se, atrapalha-se, geme de dor, tem o rosto sujo e as lágrimas cavaram sulcos na sujidade obscena que lhe cobre o rosto.
O homem percebe que ela está perdida, que está magoada e que é uma criança portuguesa.

A atitude correcta seria conduzi-la às autoridades. Mas a criança está com azar. Aquele homem não é boa rês. O demo anda à solta pelos caminhos perdidos da escuridão. E qualquer vítima que lhe apareça pela frente é uma dádiva.
Aquele homem feio e mal encarado anda metido em negócios escuros, vive de expedientes, do roubo, da falcatrua, do tráfico, tem ligações ao bas-fond, especialmente o da prostituição infantil e da pedofilia. Todo o dinheiro é bem vindo, venha de onde vier. É caso para dizer "um azar nunca vem só".
O homem, afinal um especialista em falinhas mansas, consegue aliciá-la com um sorriso onde se vê brilhar um dente de ouro, e convence-a por gestos a entrar no carro e leva-a para casa dele, a alguns quilómetros dali. Chegam passado pouco tempo.
Uma casa térrea na beira da estrada, guardada por um negro doberman, acorrentado à parede, que ladra e arreganha os dentes como um louco quando saem do carro e se aproximam da porta para entrarem. O cão reconhece o dono e cala-se, permitindo-lhes a entrada.

Para ganhar a confiança total da garota, o homem trata-lhe as feridas o melhor que sabe. Não é raro, por via das suas escaramuças, ter que tratar a si próprio arranhões, esfoladelas, facadas e, uma vez, até um tiro de raspão. Deita-a numa enxerga improvisada à pressa, confortável e bem agasalhada e, para a ajudar a adormecer, até se dá ao trabalho de lhe arranjar um ursinho de peluche que ela aceita deliciada e sorridente.
O boneco é dum lote para fornecer o chico cigano que vende nas feiras, mas ele pensa no boneco como um investimento que reverterá em lucro, rapidamente, e portanto o cigano pode bem passar sem aquele boneco. E se o chico se armar em parvo e reclamar, para alguma coisa serve aquela navalha que ele trás sempre consigo no bolso.
Ela, sentindo o doce calor do cobertor, adormece abraçada ao peluche. Dorme, como talvez nunca tenha acontecido em toda a sua ainda curta vida.
De manhã, o inevitável super-pequeno-almoço. O homem sabe que tem que a alimentar bem, para proteger o investimento. Por isso, ainda antes dela acordar, tinha ido ao pequeno supermercado fazer compras, ante o olhar estupefacto de algumas vizinhas, que nunca o tinham visto comprar aquele tipo de géneros. Vinho, cerveja, aguardente, sim... agora, leite, bolachas, chocolate, coisas de criança? Mas aquele homem é estranho, ninguém gosta dele, ninguém se mete com ele, e todos se abstêm de fazer comentários. É mais seguro para a saúde.
Enquanto ela se delicia com o leite com flocos, o pão com manteiga e as bolachas de chocolate, o homem faz um telefonema:
— Tengo una cosa para ti. Cuanto valle?
Do outro lado, o franciú:
— Báton oú fente?
Combinado o preço, combinada a hora, resta esperar.
A criança, ainda agarrada ao ursinho de peluche, que já perdeu um olho de vidro, diverte-se a espreitar pela janela os carros que passam na estrada a poucos metros e o tenebroso doberman negro de ar tão ameaçador que ladra por tudo e por nada. Não passam muitas horas.

O carro cinzento metalizado, reluzente com os reflexos da manhã, um topo de gama, chega à hora marcada. Já não há fronteiras. O homem que sai do carro, usa fato e gravata, parece um doutor, tem rabo de cavalo, e tem os dentes muito brancos e brilhantes. No rosto traz um imenso sorriso estampado, como se fora dono do mundo. Aproxima-se do outro, que o espera com a garota ao lado, quase não falam, e entrega-lhe um envelope que tira do bolso de fora do casaco. Olha para a garota e acaricia-lhe a cabeça. Fala para ela, também ele numa língua esquisita, que lembra flores multicolores agitadas pela brisa e ainda mais incompreensível que a do que a recolheu.
Ambos os homens, cada um naquelas línguas que ela não percebe, tentam convencê-la a entrar para o carro. Ela está muito confundida, quer é regressar para os braços de alguém conhecido que a acarinhe, ou pelo menos que fale numa língua que ela perceba e que a perceba a ela. Mas o homem, apesar de feio e um pouco fedorento, foi bom para ela e o outro homem tem bom aspecto, sorri muito, é simpático, deu-lhe um caramelo, e parece quererem os dois dizer-lhe que o de rabo-de-cavalo a vai levar até alguém que a vai tratar muito bem.
É o que ela compreende dos gestos que eles fazem. Gestos como o de comer, de embalar, de agasalhar, de dançar, de beijos, de mão no coração, etc., tudo acompanhado de muitos risos e sorrisos bonitos. Gestos alegres. Gestos felizes. Decide-se e entra no carro.

Nunca andara num carro tão bonito e confortável. Estofos fôfinhos, ar condicionado, música, este senhor que fala uma língua estranha deve mesmo ser boa pessoa. O conforto é tanto que cai de novo no sono.
O seu destino é França. Os subúrbios de Paris. Aí, o seu destino é a pedofilia e a prostituição infantil.
E assim vai ser durante muito tempo. Com o passar dos anos, torna-se uma 'profissional' da prostituição de luxo. Das ruas, discotecas, bares, aos clubes privados, tudo conhece, por tudo passa. Não há segredos para ela. Também nunca conheceu outra vida, ou não se lembra de a ter conhecido e vivido. Na realidade, o seu espírito fez com que ela esquecesse aqueles seus longínquos e dolorosos oito primeiros anos de vida.
Um dia, já passados 10 anos, com o homem com quem vive, e que é chulo, vigarista e toxicodependente, num Verão de muito calor, decidem fazer uma pausa e passar uns tempos de férias, e para tal escolhem Portugal. Destino natural, Algarve.

As redes informatizadas e os bancos de dados das várias polícias europeias, da Europol e da Interpol estão muito desenvolvidas e funcionam excepcionalmente bem. Inclusivé em Portugal, ao contrário do que seria previsível, mas a UE investiu muito nesse domínio para combater a criminalidade.
Portugal recebeu assim ajuda 'imposta' e sem qualquer possibilidade de 'desviar' as verbas e os equipamentos, pelo que as coisas funcionam mesmo.
O avião aterra em Faro.
Os dois amantes saem de braço dado do avião, vão levantar as bagagens e dirigem-se para a saída do aeroporto para apanharem um táxi que os conduza ao hotel frente à praia.

Dois homens, de fato cinzento, aproximam-se deles e identificam-se:
— Bonjour. Police. Venez avec nous, s'il vous plait.
— Polícia Judiciária. Façam favor de nos acompanhar.


José António, Oeiras, 13 Outubro 2005


n.b.: Como disse, esta 'tese' é apenas um exercício especulativo. Uma 'teoria' para desembrulhar a horrível confusão de dizeres e desdizeres em que o caso parece estar mergulhado. 'Tese' talvez nascida da esperança funda e profunda de que o sórdido crime de que os réus estão acusados nunca tenha acontecido e de que a Joana, afinal, esteja viva algures. Julgo que essa é a esperança da maioria de nós todos.

segunda-feira, outubro 10, 2005

resultados eleitorais

ei-la que chega


O dia foi morno e insípido, sensaborão. Nem a excitação e azáfama pouco habituais das espermicidas eleições lhe conseguiu remover essa insalubridade quase obscena. Depois de umas nuvens cinzentas, pouco acinzentadas porque somos pobres, e uns chuviscozinhos que nem deram para abrir o guarda-chuva à maioria silenciada, tudo parecia que chuva MESMO, só para segunda-feira, de acordo com as previsões dos meteorologistas. vulgo manda-chuvas de antanho. Mas a minha esperança não esmoreceu. Era já noite quando o barulho me conduziu à varanda sul de onde apreciei este maravilhoso espectáculo, que me apressei em retratar. Apesar da temperatura tépida, a chuva caía copiosamente na rua. Há momentos em que sou levado a acreditar que existe mesmo um DEUS!

"Nisi Credideritis non intelligetis" Agostinho

foto: © josé antónio 2005

quarta-feira, outubro 05, 2005

van cleef ou jack daniel's?


E lá se acabaram os perfumes que me ofereceram no Natal passado. Eles também não duram sempre, não é?
Como ainda faltam mais de 2 meses para o Natal deste ano, além da vida estar very hard e nunca se saber se vai haver euros para prendas..., lá tive que abrir os cordões à bolsa. Uma vez de vez em quando também não mata ninguém, e alturas há em que temos que meter a forretice no bolso.
Assim, lá me dirigi ontem a uma perfumaria das Galerias Alto da Barra. Não escolhi muito. Eu sabia o que queria. É sempre assim quando faço compras: entro, digo o que quero, pergunto o preço, se tenho o suficiente compro, se não tenho, agradeço e saio.
Pedi o meu perfume preferido (preferido há uns bons 15 anos), Van Cleef & Arpels. O único que vai com o meu temperamento e a cor da minha roupa interior, as peúgas em especial. Se me vissem SÓ de peúgas e a exalar aquele aroma por todo o quarto iriam compreender o que digo e até onde vai a profundidade da essência da existência e do Ser.
Paguei, saí e fui para casa perfumar-me. Nada de anormal até aqui. Quantos milhões de seres humanos não o fazem todos os dias? Compram perfumes e vão para casa perfumarem-se. É algo que é típico do terceiro-mundo.
É como comprar um pack de cerveja ou uma garrafa de aguardente e ir para casa bebê-la. Dá um imenso e gratificante prazer.
A minha agitação começou quando tirei do bolso o ticket da caixa com o pagamento e vi BEM quanto tinha pago. Os meus três neurónios começaram rapidamente a fazer contas de cabeça e...

Paguei 56.00 euros por um frasco de perfume de 100 ml. Ora isto significa que o valor por litro é de 560 euros!
Por curiosidade, resolvi comparar o valor com o meu bourbon, também ele preferido há muitos anos. O Jack Daniel's. Assim, fui ver no Continente Online o preço da garrafa, a qual tem 0,7 lt. Custa 17,40 euros. O valor indicado para o litro é de 24,99 euros.
Comparemos de novo:
Van Cleef & Arpels - 560 euros/lt.
Jack Daniel's - 24,99 euros/lt.
Ou seja, com 1 litro de perfume compro 22 litros de bourbon (VINTE E DOIS!!!); com 1 frasco de perfume compro 3 garrafas de bourbon.

As gajas que me perdoem, mas acho que vou passar a perfumar-me com Jack Daniel's!

foto: digitalização de objecto, recorte e manipulação de cor, © josé antónio 2005

segunda-feira, outubro 03, 2005

Ai, meu Deus! Ai, Jesus!


Como caracol que me prezo de ser, quando me levanto de manhã tenho o hábito de pôr os corninhos ao Sol.
Hoje não foi excepção e cerca das 9h. fui até à varanda espreguiçar a córnea.
Ai, meu Deus! — pensei, quando olhei para o céu — Ai, Jesus, que a cabrãozada do governo, não satisfeita com tudo o que nos tem tirado, está também a roubar-nos o Sol!
Voltei atordoado para dentro, a cambalear com o choque, e liguei o rádio por puro e instintivo gesto. O locutor, animadamente, locutava que estava a acontecer um eclipse anular do Sol em Portugal e que o auge... patati patatá...
Uma onda de alívio invadiu-me. A dentada no Sol era afinal um momento desse curioso fenómeno celeste e não o resultado duma sacanagem fiscal do governo feita à socapa para começo de semana, e em plena campanha eleitoral. Afinal, a lata dos gajos ainda não chegara a tanto. O poder tem limites, é o que nos vale.

nota: lá bem no meu íntimo senti a esperança de que com o eclipse solar o Sócrates se eclipsasse também mas, é caso para dizer, FOI SOL DE POUCA DURA!

foto: © josé antónio 2005

segunda-feira, setembro 26, 2005

já estão online - o prometido é devido



Já estão online algumas das fotografias que tirei nos 4 dias que passei na Cova da Beira.
Baseámos em Chãos, um lugarejo próximo de Donas, pequena povoação a poucos quilómetros do Fundão. As nossas voltas levaram-nos até Alpedrinha e Castelo Novo.
Apenas lamento ter sido tão pouco tempo porque ficou-me a ideia de que tanto havia para ver e conhecer!

Podem visitar a página aqui: http://homepage.mac.com/zetolas/PhotoAlbum20.html ; ou clicando no título deste post.

domingo, setembro 25, 2005

só me f... lixam!



se há coisa que me LIXA é a quantidade de LIXO com que a minha caixa de correio tem sido assediada ultimamente...

quarta-feira, setembro 21, 2005

justitia



Engraçado.

Hoje de manhã, não sei porquê, veio-me à memória este cartoon que fiz em 10 JAN 2003...

sábado, setembro 17, 2005

crostinha duma feridinha numa orelhinha


pedaços de um corpo.
sangue coagulado.
tamanho: 2,1x3 mm.
digitalização a 2400 dpi.

segunda-feira, setembro 12, 2005

olharapo



O 'olharapo de Oeiras' acaba de ver a luz do dia!
Aqui:

http://olharapoeiras.blogspot.com/

ou no link ao lado com o mesmo nome.

quinta-feira, setembro 01, 2005

sem remorso



Aquele homem era um duro. Um tronco marmóreo, triângulo de aço, aresta viva, com coração de pedra (-pomes....)
Nunca se arrependia de nada. Fazia questão de ser coerente consigo mesmo e com a sua lógica de bom senso.
Acreditava que todas as decisões que tomara no passado, mesmo que se tivessem revelado erróneas a posteriori, tinham sido as melhores, as certas. Na altura em que as tomara acreditara estar a tomar as correctas decisões. Por isso, nunca se arrependia nem sentia remorso.
Um belo dia de outono dourado, daqueles em que o gelo frio entra pelas frinchas das portas e janelas e os gatos vomitam no sofá e se escondem nos roupeiros, suicidou-se e... não sentiu remorso algum de o ter feito!


"Non!
Rien de rien...
Non !
Je ne regrette rien..."

quarta-feira, agosto 31, 2005

sou mesmo burro...


A minha ignorância da História Pátria é imensa e aqui que ninguém me ouve, vergonhosa. Mas mesmo assim ainda conservo na minha pobre alembradura, mantida não sei como por três estóícos neurónios, o A (preto), o B (cinzento e o C (branco), mantenho na minha memória, dizia, algumas noções vagas sobre acontecimentos marcantes da edificação de Portugal.
Uma dessa noções, acreditava eu que estava perto da verdade histórica, era que os mouros tinham sido corridos do território hoje pátria nossa algures na Reconquista, ali para as bandas da Idade Média, nos longínquos séculos XII, XIII, por aí.
Eis senão quando abro a caixa do correio e deparo com um daqueles folhetos de excursões que nos assediam constantemente com viagens baratuchas a todo o lado e arredores. Curiosamente este folheto incluia um passeio a Castelo Novo, bela localidade beirã onde há poucos dias espraiei a vista pelos ancestrais edifícios e regalei o espírito na imaginação de vidas passadas, sofridas no calcorrear da Gardunha.
Fiquei curioso. Abri o folheto e li o texto sobre a localidade. Senti-me atingido por um raio! Não só sei pouco sobre História, assumo, como as minhas noções básicas, que eu achava serem 'mais ou menos', ruiram levadas por uma enxurrada que arrastou os meus pobres neurónios A, B e C, pela encosta abaixo direitinhos ao mar, onde mergulharam no fundo do oceano sem fundo.
Afinal, segundo o citado folheto, os mouros apenas foram escorraçados de Castelo Novo no SÉC. XVIII, DEZOITO !!!

Ou quem escreveu/leu/reveu/paginou/imprimiu/etc. aquele texto é muito distraído ('tá-se a cagar...) ou eu tenho urgentemente que me matricular no liceu nas aulas de História...

post scriptum: a minha amiga Pi é revisora e copy-desk e bem que lhe fazia jeito uns trabalhinhos para ir fazendo em casa...

segunda-feira, agosto 29, 2005

momentum MCHL



Pois é, meus Caros!

O Verão está a acabar, aproxima-se o Outono, a estação preferida da mama Eva, pois é quando cai a folha... e, como quem não quer a coisa, está a chegar o momento a que chamo MCHL (por extenso: eme cê agá ele; em código militar: mike charlie hotel lima).
Acredito que se tenha gerado curiosidade sobre esta críptica e um pouco sinistra sigla. Não, não se trata de nenhuma organização secreta ou grupo terrorista, da moda.
São as iniciais de Mulher-Cobra/Homem-Lagarto.
Ora a que chamo eu 'período Mulher-Cobra/Homem-Lagarto'?

Simplesmente a esta fase horrenda em que o bronze, conseguido à custa de muitas horas de solário classe-pseudo-alta-burguesia-da-treta e/ou sol classe-média-baixa ou ainda bronzeador pintor-tintura-de-iodo-chico-esperto, estala e a pele começa a escamar e a cair dando às pessoas aquele horripilante aspecto de mortos-vivos a desfazerem-se em merda e que tira ao ser mais eros-carente, por muito alimária que ele seja, qualquer desejo sexual...

Qual o homem que tem prazer em acariciar um ventre ou umas nádegas que parecem uma cobra cascavel na muda de pele? qual a mulher que tem gozo em abraçar um tronco ou acariciar uma peitaça que lembra um lagarto ou crocodilo?

Nah, é melhor esperar pelo Inverno... Ai é, é!

sábado, agosto 27, 2005

el sardon pergunta:



Imagino que muita rapaziada lagarteira vai ficar escandalizada e a protestar o facto do titular guardador-de-nets de sua graça Ricardo não ter sido convocado pelo treinador-de-moços-futebolistas de sua graça José Peseiro para o jogo com o Marítimo no Funchal capital.
Esta questão está a ser amplamente noticiada pelos media e serve aqui apenas como exemplo da minha ideia.

Gostava que as pessoas tivessem pela política o mesmo grau de entrosamento que têm pelo futebol.
Que se ESCANDALIZASSEM e PROTESTASSEM com as opções dos partidos, governantes, políticos e afins (mesmo sendo 'sócios' deles...)

sexta-feira, agosto 26, 2005

o hífen 'tracinho' para o vulgo




"O 'hífen' (-) usa-se para ligar elementos de algumas palavras compostas ou derivadas, para ligar pronomes átonos a formas verbais, para ligar a preposição 'de' a algumas formas do verbo 'haver' e ainda na mudança de linha, para dividir em duas partes as palavras. (...)" (p. 363)
in: "Prontuário Ortográfico", Correio da Manhã, Lisboa, 2004.

n.b.: Passei os dedos pelo autocolante para confirmar que é mesmo impresso provável serigrafia em vinyl e que o hífen NUNCA lá existiu.

quarta-feira, agosto 24, 2005

anonimato 2

— PRIMEIRA FORMA!!

Afinal não serviu para nada e o meu 'lendas...' continua a receber os tais comentários/pub...
Voltamos à primeira forma (comentem à vontade...) até eu descobrir uma maneira de me livrar dos sacaninhas.

Abraços,

anonimato



Olá meus amigos e minhas amigas!

Há pouco comecei a ver despejarem-se no meu blog 'lendas tecnológicas' comentários anónimos, 6 ao todo, que apenas eram anúncios a sites comerciais, a sites de jogos online, a sites de empréstimo de dinheiro, e coisas quejandas (cabrões, que não têm outro nome, inventam tudo...)
É lamentável que estas coisas aconteçam, mas nós que andamos aqui pela blogosfera não estamos livres de sermos alvo destes abusos e violações. Para evitar que tal se repita, pelo menos temporariamente, tomei uma decisão que muito me custa, porque respeito o direito à privacidade de cada um, logo ao anonimato. Os comentários a todos os meus blogs SÓ poderão ser feitos por utilizadores registados, i.e., não serão permitidos comentários anónimos.
Permitam-me o desabafo: — Foda-se!

p.s.: Alguém que pretenda fazer algum comentário e que pelo acima exposto não o consiga ou possa fazer, vá ao meu perfil e escreva-me directamente pelo meu email. Prometo responder-lhe e colocar o seu comentario no lugar adequado, se mo indicar. Obrigado.

Abraços,

Depressa, cura-me a depressão...




Bom, então aqui fica mais uma foto, para curar possíveis depressões e ataques de choro convulsivo que a foto do post anterior possa ter provocado.
E também para que não se pense que em 4 dias apenas andei a fazer um mórbido périplo por terras queimadas.
Vi muita e também alguns fogos, mas felizmente no meio das cinzas sobraram alguns nichos de beleza verde, inebriante e esmagadora. Como este, uma vista das faldas da soberana Serra da Estrela, tirada da casa onde fiquei, em Chãos.

O resto, quando puder mostro.

Castelo Novo, sinistras cinzas de obscuros interesses...



Olá!

Pois... ainda estou a organizar as tais fotos que fiz nos 4 dias que passei no Fundão e arredores. Sempre são 247 e a vida não é só divertimento. O trabalho não falta por aqui e há que dar-lhe despacho.
De qualquer forma, deixo aqui uma das ditas, tirada em Castelo Novo, que para alguns poderá ser deprimente. Isto foi das coisas mais marcantes que vi à frente dos meus olhos naquela bela terra.
É um testemunho do drama que o nosso pobre e desidratado país tem vivido.

n.b.: Castelo Novo não é só isto. É uma bela localidade cheia de património histórico e cultural que merece uma visita demorada.

domingo, agosto 21, 2005

back to office

Olá, meus caros!

Acabo de chegar de uma curta estadia de 4 dias no Fundão e arredores.
Ainda estou a tentar ambientar-me com a minha própria casa, mas espero em breve poder dizer alguma coisa sobre aquelas belas vilas e aldeias — Alpedrinha, Castelo Novo, Donas, etc.

Inté!

quinta-feira, agosto 11, 2005

exaggerare



Exagera. Exagera sempre. Não temas exagerar.

A ARTE é incompativel com o MEDO.

terça-feira, agosto 09, 2005

chuva em dia de verão



Foi uma sensação particularmente agradável e doce, quando cheguei ao scriptorium domesticus e olhei pela janela e a vi.
A porta entreaberta fazia entrar uma brisa fresca que acariciou o meu corpo nú.
A fotografia mostra o olhar que lancei para a rua.
Ela lá estava, a cair não muito forte, pouco mais que um chuveirito, sensual e a saber-se desejada.

Adoro a chuva em dia de verão!

segunda-feira, agosto 08, 2005

TESTE FOTO



PORREIRO!

Acabo de descobrir que FINALMENTE o Blogger dá para os utilizadores MAC colocarem imagens nos seus blogs. Pelo menos assim me parece e por isso decidi fazer um pequeno teste. Coloco aqui uma foto, escolhida um pouco ao acaso (moi même) , para ver o que acontece. Se funcionar, imagino as potencialidades...

terça-feira, julho 26, 2005

molha molha os tolos qu'eles agradecem!

Começou agora a cair daquela a que chamam molha-tolos e outros molha-parvos a chuva que tanta falta tem feito neste país desidratado é pouca mas não desesperemos talvez seja o prenúncio anúncio do que de facto necessitamos uma valente duma carga d'água!

HAJA DEUS!

segunda-feira, julho 25, 2005

mudança de ângulo

Hoje decidi mudar a minha perspectiva angular sobre o mundo.

Até aqui a minha visão era ortogonal, limitada a ângulos de 0° (sim, existem!), 90°, 180°, 270°, 360° (o fechar do círculo), o que era perceptível em toda a minha obra plástica — desenho, fotografia, etc. Talvez menos perceptível na minha obra de ficção, mas está lá.
No máximo, dentro destes parâmetros, eu admitia visões a 45° e/ou múltiplos desta.
Agora pretendo mudar a perspectiva e dar o primado da razão 'passional-racional' à visão a 30°.
Porquê?
Ainda não o sei.
Sinto, apenas sinto que essa perspectiva angular começa a fazer sentido para mim e me explica o mundo.

Dá-lhe equilíbrio.

NÃO !!!

o bochechas outra vez... NÃO !!!

sexta-feira, julho 22, 2005

lei da guerra

Quem passou pela 'guerra' sabe que a 'lei da guerra' é "dispara primeiro e pergunta depois".
A questão do terrorismo em Londres colocou a cidade em estado de guerra.
As forças de segurança cumprem a 'lei da guerra'.
Era inevitável.

Eu faria a mesma coisa.

quinta-feira, julho 21, 2005

notifiquem-no

Então o Teixeira não apresentou as declarações de rendimentos porque NÃO foi notificado!?

Notifiquem lá o homem, PORRA!

p.s.: porque é que ele tem que ser notificado e o resto dos portugueses não?

alguma coisa vai acontecer...

Em 27 de Setembro de 1995, disse para mim mesmo que seriam 10 anos.
Em 27 de Setembro de 2005, completar-se-ão precisamente esses 10 anos.

A minha Fé diz-me que alguma coisa vai acontecer, tenho a certeza!

terça-feira, julho 19, 2005

the Eagle has landed

1969, 4:17:42 pm Est

"Houston, Tranquility Base here. The Eagle has landed." Neil Armstrong

Quando hoje revejo as imagens que os meus púberes olhos viram naquela longínqua madrugada de há 36 anos, sinto o mesmo fascínio e emoção, e o renovar da esperança e da fé.


Há mais coisas no céu que aquelas que podes imaginar.

domingo, julho 17, 2005

argumentos

os argumentos predilectos dos estúpidos e ignorantes:

"É assim porque é assim, porque sempre foi assim, ora!"

"Isso não se discute."

"Contra factos, não há argumentos."

sábado, julho 16, 2005

spiritu

como diria um amigo meu de Viseu:

FUADASSE !

segunda-feira, julho 04, 2005

liquefacção

É triste. É deveras triste.
Um dia de manhã acordamos e sentimos que o nosso corpo se está a liquefazer. A matéria corpórea firme e dura transforma-se num líquido verdengoso e pútrido que escorre para o chão e se espalha inexoravelmente entranhando-se nos interstícios do tempo que já passou. Queremos pará-lo. Queremos impedi-lo. Queremos que o líquido se volte a fazer carne e regresse ao seu sítio donde nunca devia ter saído assim o acreditamos. Mas não conseguimos. Não existe força não existe poder capaz de parar o imparável.

Sermos 'demiourgós' de nós mesmos é mais difícil improvável que deuses dos outros vermes que se arrastam pelo terrarium granuloso.

segunda-feira, junho 20, 2005

bardamerda prós cigarros

Um destes dias irrito-me a sério e deixo mesmo de fumar.
Não, não é por razões de saúde. É que estou farto desta cabrãozada de merda que vive à custa de enganar os outros.

Eu explico:
Fumo Português Suave azul com filtro. Apenas por razões económicas. Porque é o mais barato. Mas a porra destes cigarros são a maior merda que anda aí.
Para começar, fazem uma fumarada do caraças. Cigarro que se preze, depois de aceso e pousado no cinzeiro, fica a deitar uma suave coluna de fumo. É o normal.
Mas estes abusam. Parecem um incêndio num pinhal ou a chaminé do complexo de Sines. E isso é deveras desagradável. Depois, como se não bastasse, sabem mal como a merda.
Não acredito em teorias da conspiração, mas a verdade é que suspeito que os gajos da tabaqueira andam à noite por aí a recolher móveis velhos que as pessoas deitam para o lixo. Móveis que eles levam para a fábrica, desmontam e trituram aquela madeira toda e misturam-na com o tabaco para confeccionarem a marca. Porquê esta suspeita? Porque os cigarros cheiram e sabem a madeira envernizada queimada...

Ora pagar o balúrdio que custa o maço, 2.40 €, para fumar madeira e verniz, PUTA QUE OS PARIU !

domingo, junho 19, 2005

viagem

Conforme o tempo vai passando, sinto aproximar-se o dia da minha pobre e atormentada alma e do meu estafado e martirizado corpo partirem em viagem.
Uma viagem que, sei-o, devo fazer, mas cujo termo desconheço.
Partir, sim... mas para onde e com que fito?

quinta-feira, junho 16, 2005

lembrete.

ADIAFA !

Amanhã, às 22 h., no PICADEIRO, Jardim Municipal de Oeiras, os ADIAFA !

quarta-feira, junho 01, 2005

NÃO!

NAO, NÃO e NÃO !!!

p.s. (post scriptum para o PS & Cia): com vaselina godofredo, NÃO é preciso meter o dedo!

sábado, maio 28, 2005

'Tá tudo doido!

Reforma aos 65 anos. Porreiro!
Até parece que já estou a ver daqui:

— A idosa e alquebrada professora, com a sua bengalinha de castão doirado, oferta dos netos pelo Natal, entra na sala de aula e, no meio da algazarra da miudagem que não dá por ela entrar, dirige-se à secretária, onde um orgulhoso computador windows (que só funciona às vezes...) a aguarda, para escrever o sumário. Como não percebe nada de computadores, nunca percebeu e ninguém a ensinou, acaba por deixar a tarefa para depois, se entretanto o Alzheimer não a fizer esquecer. Senta-se na cadeira e dirige-se aos miúdos, que ainda não deram pela presença da idosa senhora, concentrados que estão a jogar e a ouvir música nos seus telemóveis última geração. Ela pigarreia e diz: "abram o livro na página 37, abram o caderno, e vão copiando o texto do livro a partir do capítulo 23 até a campainha tocar para a saída". Alguns miúdos, relutantemente obedecem. Outros continuam na galhofa que "a velha é surda..." A professora pressiona um pequeno botão por baixo do tampo da secretária. A empregada surge rapidamente "sôtora..." A velhota dirige-se a ela: "Gisela, se faz favor, traga-me um chá de camomila não muito quente sem açúcar e uma torrada. Ah, e traga também um copo de água para eu tomar os comprimidos da tensão". A empregada assim faz e deposita o tabuleiro sobre a secretária, voltando costas "com licença" e saindo. A professora come a torrada com pequenas dentadinhas cuidadosas para não lhe saltar a prótese dentária, enchendo o teclado de migalhas amanteigadas, e bebe em ligeiros golinhos o chá, salpicando também o rato que o Parkinson também é danado. Recosta-se um pouco para trás, que os bicos de papagaio estão a dar-lhe cabo das costas e, coisa de velhos, adormece suavemente. Acorda com o toque da campainha para a saída.


MAS ESTA GENTE ESTÁ TODA DOIDA, OU QUÊ !?

quinta-feira, maio 26, 2005

visita de médico...

Olá !
Isto hoje é uma visita muito rápida ao meu blog, que o aperto do trabalho é grande, apenas para divulgar um outro blog de cuja existência tomei há dias conhecimento, e que me parece merecer destaque e uma visita (menos rápida que a minha :) ).
Chama-se Oeiras Local, debate temas relacionados com o Concelho de Oeiras e, pelo que me pareceu, fá-lo com um espírito bastante democrático.
Podem encontrá-lo aqui: http://oeiraslocal.blogspot.com/

Até já!

quarta-feira, maio 18, 2005

uefa

Há mais marés que marinheiros.

VIVA O SPORTING !!!

segunda-feira, abril 25, 2005

DECLARAÇÃO

Na madrugada do dia 25 de Abril de 1974, o Movimento das Forças Armadas, comandado pelo Capitão de Cavalaria Salgueiro Maia, jovem de 30 anos de idade, desencadeou uma operação militar cujo objectivo foi o derrube do governo fascista, objectivo esse concretizado rapidamente e, podemos dizê-lo, 'facilmente', tal a instabilidade e falta de apoio do mesmo, nomeadamente no seio das Forças Armadas.

Sempre que se refere esse acontecimento histórico, ele é mencionado pela expressão "O Vinte Cinco de Abril".
Ora "25 de Abril" é meramente um dia de calendário que acontece todos os anos. E não só em Portugal...

Ao fim destes 31 anos, sinto esta expressão desgastada e, sobretudo para as gerações mais jovens, sem significado.
A expressão adquiriu um tom nostálgico e revivalista, que é anti-pedagógico e não lhe dá o devido valor e enquadramento histórico.
Por estes factos, para marcar com maior ênfase aquele acontecimento, e dar-lhe a individualização e o rigor histórico que ele tem e merece ter, declaro que passo a utilizar, sempre que a ele me referir, uma expressão que já utilizei em prosas passadas.

Concretamente, referir-me-ei aos acontecimentos ocorridos na madrugada de 25 de Abril de 1974 por: A ACÇÃO CAPITÃ DE 1974.

josé antónio, Oeiras, 25 de Abril de 2005.

terça-feira, abril 19, 2005

finito

Talvez me engane mas... acho que é o THE END deste filme com 2000 anos!

Senão o the end, pelo menos o princípio dele.
Este Ratzinger pode aparecer agora com cara de anjo. Suspeito que se tratou de fachada para conquistar o poder. Aliás, não me canso de dizer: eles andam aí...
Avizinham-se tempos difíceis para a Igreja, que bem poderão significar o fim dela.

Um Papa conservador e reaccionário é igual a um Papa fundamentalista.
Isto não vai contribuir em nada para aproximar as pessoas, não só os fiéis ou crentes, mas as pessoas todas, da Igreja. Bem pelo contrário.
Isto lembra-me a atitude dum certo partido político português...

p.s. para o novo Papa: HEIL FUHRER...

domingo, abril 17, 2005

há dias assim...

Estou com um tremendo apetite para escrever alguma coisa. Apenas não sei o quê. Abri o Blogger e fiquei a olhar para a janela de post sem saber o que fazer.
Acontece-me o mesmo ao olhar para a porta de vidro que tenho aqui ao meu lado direito. Vejo a rua, o dia está cinzento, as nuvens criam um tecto esbranquiçado e brilhante que fere os olhos, os carros estão estacionados no parque privativo da torre ao lado, amontoados de metal, plástico, vidro e borracha, a encher o ego amorfo duns quantos palhaços sem noção do ridículo, quase percebo o mar, que não vejo daqui, lá ao fundo na praia, cinzento como o céu, apetece-me que me façam um broche, imagino as ondas a trazerem até à areia toda a espécie de lixo e porcaria, muita de origem humana, cagalhões a rolarem nos calhaus, talvez a saciarem a fome de algum bicharoco, a essência humana a desfazer-se em merda neste mundo de cornetas gregas sem consciência de o serem, esta porra nunca mais acaba, onde andará Fernão?, será que os beduínos ainda estão junto da mesma árvore?, quem dorme a esta hora do dia são as putas e os chulos, trabalham de noite, os que não trabalham de dia, lavam os corpos com esporra, dizem que torna a pele mais fresca e bela, sem borbulhas, coisas das hormonas, e a conta da luz para pagar, caralho, tenho que trabalhar, quem não trabuca não manduca, quem manduca fica obeso, os obesos são gordos como potes, e esta prosa parece escrita por um esquizofrénico, o sol nunca mais desponta, peguem o toiro pelos cornos, em pontas, toiros bailarinos a dançar em pontas, bardacaca, bardachicha e bardaporra, para não dizer BARDAMERDA!!!

Há dias assim...

segunda-feira, abril 04, 2005

cultura

conjunto dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições e de outros valores morais e materiais, característicos de uma sociedade

in: dicionário Priberam Informática - Língua Portuguesa On-Line
http://www.priberam.pt/dlpo/dlpo.aspx

sábado, abril 02, 2005

noticia necrológica

Karol Wojtyla morreu.

Paz à sua alma.

qu'é feito dos homens!?

Só por curiosidade, fiz uma busca no MSN Paquera (pessoas que procuram outras pessoas para fins de amizade...). Nunca tinha ido a um sítio destes, pois amigos e amigas tenho em número suficiente (poucos mas bons) e, para outros fins, também não tenho razões de queixa.
Mas estava curioso em ver o resultado de uma pesquisa destas e assim fiz. Pus como critérios de busca apenas: entre 40 e 50 anos e em Portugal. O resultado surpreendeu-me, ou talvez não!
Surgiu-me uma lista com um total de 214 mulheres, maioritariamente divorciadas, separadas, solteiras, e algumas viúvas.

É caso para perguntar: Que é feito dos homens!?

Agora a sério:
É impressionante a solidão em que as pessoas vivem. Já aqui o tenho referido.
Quanto mais, melhores e mais rápidos meios de comunicação temos, menos comunicamos uns com os outros, e mais isolados vivemos, fechados no nosso interior, incapazes de exteriorizar o nosso ser, por falta de um receptor francamente aberto a essa exteriorização.
Não admira, então, que alguns dos cursos que hoje dão melhores garantias ao estudante de uma futura vida profissional segura e profícua, e que garantam bons rendimentos, sejam os de Psiquiatria e Psicologia... Há cada vez mais pessoas a recorrer, ou a necessitar de recorrer, à psicoterapia.

Numa relação causal, de causa-efeito, atribuo a causa ao ritmo alucinante em que se vive hoje em dia.
As pessoas correm desabridamente de um lado para o outro, sem tempo para nada. Sobretudo sem tempo para pararem um bocadinho e pensarem em si próprias. Bastaria isso, pensarem em si mesmas, para que pensassem nos outros. Pois ao pensarem em si mesmas e baixarem o ritmo, teriam tempo para estar com os outros.
Baixar o ritmo para poder fruir a vida. Viver como se tivéssemos todo o tempo do mundo (e temos...) e não como se o mundo fosse acabar amanhã. Perceber que não temos que viver tudo no mesmo dia, e que o amanhã existe.

A minha canção preferida é do Pedro Abrunhosa e tem por título: É PRECISO TER CALMA.

sexta-feira, abril 01, 2005

quarta-feira, março 30, 2005

a saga do beduíno VI

Este episódio, o sexto, salta por cima do episódio "a saga do beduíno V" a qual se resumia à simples asserção: O beduíno tem esse nome por causa do forte cheiro a bedum.
Considerámos este episódio pouco profícuo no alinhamento psico-social da estória dramática cujo desenrolar temos vindo a acompanhar desde o primeiro dia.
Assim passamos de imediato ao episódio VI:

Após o dromedário (alentejano, de ascendência Ostrogoda) ter aliviado as tripas por sobre os dois beduínos, que já lá estavam, e se ter afastado após um sonoro e retumbante peido (o designado 'tracus camellius'), as coisas pioraram. Vinda de Oriente, surgiu de súbito uma praga de chatos, 'Phthirius pubis', transportada nas virilhas dum bando irregular de dançarinas do ventre, 'danccarinae ventralis'.

terça-feira, março 29, 2005

a saga do beduíno IV

O dromedário aproximou-se da árvore e como estava com uma grande vontade de arrear a bosta e limpar a tripa, cagou. Como só um dromedário é capaz de cagar. Formou-se um grande monte de bostas e os dois beduínos ficaram atolados em bosta até ao pescoço, ficando só com as pobres cabecitas de fora.
O dromedário era um dromedário português... ... alentejano.

segunda-feira, março 28, 2005

a saga do beduíno III

A situação era deveras estranha naquele imenso deserto de areia, de dunas, que se estendia até ao infinito, e naquele insignificante local; aquela pequena árvore rodeada de bostas de dromedário, à sombra da qual se sentavam dois beduínos... simplesmente perdidos.

domingo, março 27, 2005

a saga do beduíno II

O beduíno caminhava pelo deserto e encontrou uma árvore rodeada de bostas de dromedário junto à qual estava outro beduíno, e o beduíno parou, olhou para a árvore, olhou para as bostas, olhou para o beduíno que já lá estava, e exclamou:
— Mas ca ganda merda!

sexta-feira, março 25, 2005

o beduíno

Andava um beduíno perdido no deserto quando encontrou uma árvore rodeada de bostas de dromedário.
— Mas ca ganda merda! — exclamou o beduíno (era um beduino português).

quarta-feira, março 23, 2005

ultrapassagem

Há coisas que me ultrapassam, e as normas do Bem Falar e Bem Escrever a Língua Portuguesa são uma delas.

Neste inefável e inaudito momento dou comigo a pensar:
Se um homem que trabalha numa mina se chama MINEIRO, porque razão um homem que toca trombone não se chama TROMBEIRO?

fallor ergo sum