domingo, fevereiro 26, 2006

"Com que então..."



Não são bem 39... na verdade são mais 10!
E não é quinta-feira mas domingo.
Seja como for, neste dia que nos impingiram como sendo 'especial', apesar de em nada diferir dos outros, lembrei-me de comemorar a efeméride parabenizando-me com a recordação de um importante poeta português. Ei-lo:

Com que então caiu na asneira
De fazer na quinta-feira
trinta e nove anos, que tolo!
Ainda se os desfizesse,
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo!

Não sei quem foi que me disse
Que fez a mesma tolice
Aqui o ano passado...
Agora o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo. Coitado!

Não faça tal; porque os anos
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho:
Faça outra coisa; que, em suma,
Não fazer coisa nenhuma,
Também não lhe aconselho.

Mas anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois se se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los queira ou não queira!

JOÃO DE DEUS (1830-1896)

p.s.: Um beijo especial para a mamã Elvira, que teve a pachorra de aguentar o parto no dia em que ela própria fazia 21 anos. Olha que bela prenda!!

terça-feira, fevereiro 21, 2006

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

a abadessa leiteira


desenho: © josé antónio 2006

esclarecimento / declaração de intenções

Olá visitante.

Não recordo se alguma vez o disse. Mas mesmo que nunca o tenha dito, parece-me que um simples passeio por este blog permite tirar a seguinte conclusão. Este é um espaço onde tudo pode acontecer, e sem aviso prévio ou qualquer justificação.
Desde a publicação de uma prosa de ficção, um texto sem pés nem cabeça, um poema, uma citação, uma fotografia ou um desenho, uma coisa séria ou uma simples brincadeira, qualquer coisa pode de súbito acontecer por aqui.
Este é um espaço que assume integralmente e em pleno que "de sábio e de louco, todos temos um pouco". E eu, mais que 'pouco', acho mesmo que tenho 'muito'. Para que algo aconteça basta apenas que me apeteça.

Vem isto a propósito de eu ter para aqui algumas coisas que gostava de expor. Mas não faço tenções de para cada uma delas ter que estar com explicações, que me soariam primárias, rebuscadas e inúteis.
Tenciono simplesmente começar a expô-las para vossa fruição, dentro dum espírito de 'obra aberta'. Cada um terá a fruição que quiser e como quiser.
Não excluo, obviamente, a hipótese de responder a quem me quiser questionar sobre o que eu expuser. E muito me agradarão todos os comentários que possa suscitar. Aliás, agradeço que não se escusem de os fazer.

Mas o que me interessa mesmo é que se divirtam tanto na fruição como eu me divirto na execução. É esse o meu objectivo primeiro. Divertir-vos.
Fico por aqui.
Passo à EXPOSIÇÃO (permanente).

Abraços.

josé antónio, 15 de Fevereiro de 2006, Oeiras.

domingo, fevereiro 12, 2006

... normal...


Tenho como adquirido que o 'normal' é o que segue a norma comummente aceite e o 'anormal' é o oposto do anterior, aquilo que, pelos mais diversos e tantas vezes incompreensíveis, inauditos e intangíveis motivos, não se rege por essa mesma norma.
Frequentemente na dinâmica dos entes, o anormal, pela sua dialéctica de vulgarização, acaba por tornar-se normal. Isto é histórico.
Veja-se o caso do preservativo masculino, vulgo camisa-de-vénus, em Portugal, ou camisinha, no Brasil.
Durante muito tempo foi considerado uma coisa obscura e obscena, julgo mesmo que obstipante, nomeadamente nos primórdios em que era feita de tripa de porco, acerca da qual não se devia falar ou escrever, muito menos exibir, e que hoje, não só se refere livremente em todos os 'media', como se pode adquirir nos supermercados. Vulgarizou-se. Passou da anormalidade à normalidade.
Ou o caso da homossexualidade, vulgo paneleirice.
Durante muito tempo foi considerada 'anormal' e até mesmo uma doença. A própria Ciência, num conluio com a igreja ainda não devidamente esclarecido e clarificado, aprovou e sancionou esta tese, dando-lhe fundamentos científicos, durante muito tempo incontornáveis. Contudo, hoje em dia assiste-se a uma inversão de valores e é o heterossexual que é subrepticiamente e subliminarmente considerado um anormal (freak, em inglês). A um tal extremo tal, que os heterossexuais começam a temer assumir a sua condição, com medo de serem alvo de represálias sócio-profissionais...
Em suma, o que no passado era anormal hoje é normal, e vice-versa. Esta é a dinâmica das coisas.
É por isso que não compreendo que esdrúxula lógica subjaz a certas modalidades de pensamento de determinadas pessoas.

Por exemplo, o caso da BICA.
Refiro-me à pequenina chávena de café expresso pela qual pagamos quase dez vezes mais que o seu real valor.
Quantas vezes, ao pedirmos uma bica num estabelecimento, o empregado nos olha com ar de quem julga que estamos a falar chinês e nos pergunta "a bica é NORMAL?"
Confesso que fico frequentemente sem palavras.
Por uma razão simplérrima: não sei o que é uma bica anormal...
Respondo, quase sem dar por isso, que "Sim."
Muitas vezes apenas acenando com a cabeça, numa inconsciente e paupérrima imitação de uma cornuda vaca com tonturas.
O caso repete-se tão frequentemente, que acabou por se tornar uma obsessão compulsiva reflectir sobre a questão: "O que é uma bica anormal?"
Confesso que por vezes tenho a tentação de não responder ao empregado, com a esperança de que ele decida por 'motu proprio' trazer-me uma das referidas bicas anormais, de modo a eu poder tomar contacto estético (aisthetikós), sensorial, com ela e poder apreciá-la em todos os seus caracteres. Percepcioná-la em toda a substância do seu ser, na sua concreção, em toda a sua constância e inconstância.
Já pensei mesmo em tomar a iniciativa e na altura de responder, pedir uma bica anormal.

Mas temo.
No momento de o fazer, quando o empregado ali está solicito com aquela típica e promíscua cara de boi à minha frente, aquele seu ar de borrego trombeiro, aguardando uma resposta, faltam-me as forças, vou-me abaixo pois um enorme terror invade todo o meu ser.
Temo que o pedido, verbalizado finalmente, soe na minha límpida boca como uma ofensa conspurcativa aos mais altos valores pátrios, e a polícia me leve para interrogatório numa cave escura, fedorenta e húmida (sofro muito com a humidade, tenho bronquite asmática) ou, pior ainda, que apareçam uns senhores corpulentos com ar labrego mas fardados de branco, que me metam num carro com pirilampos luminosos e me levem para um quarto forrado de paredes nacaradas de branco e me obriguem a ver as gravações todas dos programas da Maria de Lurdes Modesto ou, pior ainda, a fazer cunnilingus à Manuela Ferreira Leite.
Quando me preparo para formar as palavras, que não chegam a vibrar, nem nas cordas vocais da minha garganta nem no ar à frente dos meus doces e carnudamente lascivos lábios, o meu coração decide por sua auto-recreação trabalhar como um cavalo a galope e o meu sangue, indiferente ao seu carácter O Rh+, lateja nas minhas têmporas com o rufar de mil tambores.
A minha tensão altera-se e sobe até níveis mortais, mesmo para um rinoceronte.
Suores frios invadem-me e sinto a transpiração escorrer-me pelas vértebras num fiozinho gelado que parece o gume duma lâmina de barbeiro a correr-me a espinha. Penso que vou desfalecer. Uma tontura toma conta da minha pobre existência.
Fico literalmente congelado e a resposta acaba por sair automática: "Sim, Se Faz Favor."
Acobardo-me. Escondo-me no meu íntimo, enrolado num casulo de arame farpado que construí de propósito para estas ocasiões e que faria inveja aos israelitas.
Sou previdente. Tenho sempre este casulo à mão-de-semear para qualquer ocasião em que necessite de refúgio rápido e imediato.
Adio. Protelo.

Um destes dias, talvez me ocorra ao espírito um vulgar e vernacular "Foda-se!" e quando já nada tiver a perder pronuncie a expressão fatal: "Dê-me uma bica ANORMAL, se faz favor!!!"

foto: © josé antónio

domingo, fevereiro 05, 2006

a Torre, o café, e a neve! (a)



Olá! Após algumas peripécias informáticas que me obrigaram a uma breve ausência forçada, cá estou de novo. Ainda não a 100%, que tenho alguns pormenores para resolver.
Contudo já deu para passar por aqui e deixar este post que, como não podia deixar de ser, é sobre o tema mais falado nos últimos tempos por estas bandas: o prémio "Bica na Praia da Torre em Oeiras".
Assim, 'a pedido de várias famílias' aqui fica a fotografia da célebre bica saboreada na Praia da Torre, no dia 29 de Janeiro, com a qual se premiou a pessoa, I.M., que acertou na mouche e deu a resposta certa ao pequeno exercício que propus.
Pena foi as restantes pessoas que estavam convidadas para assistirem à entrega do prémio terem-se, na sua maioria, deixado intimidar pelo clima, porque perderam um bocadinho bem passado e muito agradável (ah, a esplanada é fechada e aquecida, não se pense que estivemos ao frio e à chuva). Mas estejam atentas porque temos uma surpresa em preparação...
Aproveito ainda para deixar uma imagem da praia tirada pouco tempo antes de ter começado a NEVAR!

(a) título furtado à Isabel, que sei não vai levar a mal, mas achei-o sublime! ;)