quinta-feira, outubro 13, 2005

joana, uma tese possível


Claro que não acredito que o MP esteja a tratar este caso com leviandade e displicência, e se o mesmo pede a pena máxima para este caso é porque detém fortíssimos indícios, que desconhecemos, da prática dos crimes de que acusa os réus. Assim julgo eu.
Contudo, não acredito em absolutos e sou um relativista. Acredito que a verdade muitas vezes nos escapa por entre os dedos, oculta por uma cortina de aparências as quais têm um aspecto de verdade insofismável tão grande e tão densa que não nos permitem imaginar outra possibilidade para além daquela que nos aparece como a óbvia.
Mas ela pode existir. As nossas emoções podem tolher-nos a racionalidade, a nossa lógica pode conter falhas, a precipitação pode levar-nos a cometer erros, o hábito, terrível inimigo da razão, pode insinuar-se perfidamente, etc.
Para lá do plano que consideramos o 'real', 'verdadeiro', 'evidente' e 'factual' acredito que existe um outro plano. Um plano que de momento não conseguimos alcançar. Um plano que é o 'aquilo que realmente pode ter acontecido'.

Chamar-lhe-ia, a esse plano, a essa zona, o Limbo da Especulação, isto é, aquilo que está para lá da cortina, e que por vezes é revelado a posteriori, frequentemente muitos anos passados, e que nos surpreende levando-nos a perceber que afinal estavamos iludidos e enganados. Mostrando-nos respostas outras, perfeitamente coerentes que substituem as que tinhamos aventado e que considerávamos as únicas possíveis e inabaláveis. É assim que, indipendentemente da, também minha, forte convicção da prática dos referidos crimes, entrando naquela área indefinida e volúvel da especulação, me proponho fazer um pequeno exercício.
Este é apenas isso mesmo. Um exercício especulativo, elaborado com base apenas nas poucas informações que os media nos vão fornecendo. Outra coisa não é possível. Mas considero que de acordo com a pouca informação de que disponho, este exercício não ultrapassa as barreiras do bom-senso. Com este exercício pretendo abrir uma porta de possibilidades, que desconheço onde pode conduzir. O futuro o dirá.


A 'ESTÓRIA':
Leonor e João decidiram matar a garota, Joana. A razão, para o caso, é irrelevante por agora. Importante é que sabiam que não o podiam fazer em casa nem com ela consciente. Era necessário adormecê-la primeiro e levá-la para um sítio ermo onde a pudessem eliminar.
Assim, puseram-na inconsciente, talvez com éter, soporiferos, ou outra coisa qualquer. Meteram-na num carro e transportaram-na para Espanha. Meteram-se por caminhos escuros e ermos até chegarem a um local afastado onde encontraram uma lixeira, onde não se percebia vivalma. Trânsito na estrada também não se via nenhum. O local parecia ser excelente para os seus tenebrosos propósitos.
Tiraram a criança, ainda inconsciente, do carro e levaram-na para a lixeira. Aí, estrangularam-na com uma corda, um lenço, um cinto, ou algo assim. Contudo a garota tem a garganta pequena, o dispositivo não apertou o suficiente e ela não morreu. Também a podem ter esfaqueado, mas o nervoso estragou a precisão dos golpes e as facadas não foram mortais. Outros métodos poderão ter sido usados, qualquer um de forma desajeitada, e a criança não morreu.
Mas continuava inconsciente e parecia estar morta pois não dava acordo de si. Eles estavam convencidíssimos que tinham morto a garota e rapidamente taparam o pretenso cadáver com um monte de lixo para o ocultar e a correr voltaram para o carro e regressaram à aldeia, a casa, onde passaram o resto da noite a fornicar, para aplacar a sensação de culpa e o remorso, procurando realizá-lo nos braços um do outro.

Passadas muitas horas, já noite cerrada, a criança recupera a consciência, ferida, dorida, assustada, com frio, no meio da mais absoluta escuridão e do cheiro nauseabundo do lixo que a cobre. Está completamente desorientada, como é natural naquelas circunstâncias. Não sabe o que há-de fazer.
Grita por socorro e de dor, mas não há ninguém para a acudir. Mantém-se imóvel durante muito tempo e chora. Até que lentamente se vai apercebendo que há objectos sujos e mal-cheirosos que a cobrem e fazem pressão sobre ela.
O instinto animal fá-la reagir. Empurra o lixo e contorce-se, até sentir o ar mais respirável. Consegue afastar o lixo e sair para descobrir que está sozinha, num local que lhe é completamente desconhecido.
Não existem luzes, não existem sons, excepto uma coruja furtiva que pia ao longe, que a ajudem a orientar-se. Começa a caminhar como qualquer criança perdida e amedrontada: sem direcção, ao sabor do acaso. E é fruto do acaso, ou do azar, que os seus passos acabam por a conduzir até uma estrada. Talvez a estrada por onde veio.
Ali chegada descobre algo que conhece e sabe: uma estrada tem dois sentidos, duas direcções, e qualquer delas leva a algum lado. Talvez a leve à ajuda que deseja ansiosamente. Assim começa a caminhar, com dificuldade que as dores ainda são muitas, ao longo da berma. A estrada não tem movimento excepto o dela própria e passam horas até que um carro aparece. Talvez seja a salvação almejada.

O condutor apercebe-se da presença dela e o carro pára ao lado dela e ela imobiliza-se também, encolhendo-se um pouco e estremecendo.
O homem, enorme, corpulento, mal vestido, a tresandar a suor e álcool, sai do carro e aproxima-se dela:
— Hei niña, que haces aqui?
Ela não percebe, aquilo soa-lhe estranho. Lembra-lhe vagamente o falar de alguns ciganos que em dia de feira passam lá pela aldeia dela. Mas estes andam com carroças, mulas e burros. Não andam de carro, têm barba e vestem de negro.
Percebe que o homem lhe está a fazer uma pergunta, mas não percebe qual. Tenta responder na única língua que conhece. Diz a coisa mais óbvia. Diz o seu próprio nome. Tenta explicar o que lhe aconteceu, mas não o sabe fazer porque na verdade não sabe o que lhe aconteceu. A última coisa de que se lembra foi ter acordado debaixo dum monte de lixo. Balbucia, gesticula, engasga-se, atrapalha-se, geme de dor, tem o rosto sujo e as lágrimas cavaram sulcos na sujidade obscena que lhe cobre o rosto.
O homem percebe que ela está perdida, que está magoada e que é uma criança portuguesa.

A atitude correcta seria conduzi-la às autoridades. Mas a criança está com azar. Aquele homem não é boa rês. O demo anda à solta pelos caminhos perdidos da escuridão. E qualquer vítima que lhe apareça pela frente é uma dádiva.
Aquele homem feio e mal encarado anda metido em negócios escuros, vive de expedientes, do roubo, da falcatrua, do tráfico, tem ligações ao bas-fond, especialmente o da prostituição infantil e da pedofilia. Todo o dinheiro é bem vindo, venha de onde vier. É caso para dizer "um azar nunca vem só".
O homem, afinal um especialista em falinhas mansas, consegue aliciá-la com um sorriso onde se vê brilhar um dente de ouro, e convence-a por gestos a entrar no carro e leva-a para casa dele, a alguns quilómetros dali. Chegam passado pouco tempo.
Uma casa térrea na beira da estrada, guardada por um negro doberman, acorrentado à parede, que ladra e arreganha os dentes como um louco quando saem do carro e se aproximam da porta para entrarem. O cão reconhece o dono e cala-se, permitindo-lhes a entrada.

Para ganhar a confiança total da garota, o homem trata-lhe as feridas o melhor que sabe. Não é raro, por via das suas escaramuças, ter que tratar a si próprio arranhões, esfoladelas, facadas e, uma vez, até um tiro de raspão. Deita-a numa enxerga improvisada à pressa, confortável e bem agasalhada e, para a ajudar a adormecer, até se dá ao trabalho de lhe arranjar um ursinho de peluche que ela aceita deliciada e sorridente.
O boneco é dum lote para fornecer o chico cigano que vende nas feiras, mas ele pensa no boneco como um investimento que reverterá em lucro, rapidamente, e portanto o cigano pode bem passar sem aquele boneco. E se o chico se armar em parvo e reclamar, para alguma coisa serve aquela navalha que ele trás sempre consigo no bolso.
Ela, sentindo o doce calor do cobertor, adormece abraçada ao peluche. Dorme, como talvez nunca tenha acontecido em toda a sua ainda curta vida.
De manhã, o inevitável super-pequeno-almoço. O homem sabe que tem que a alimentar bem, para proteger o investimento. Por isso, ainda antes dela acordar, tinha ido ao pequeno supermercado fazer compras, ante o olhar estupefacto de algumas vizinhas, que nunca o tinham visto comprar aquele tipo de géneros. Vinho, cerveja, aguardente, sim... agora, leite, bolachas, chocolate, coisas de criança? Mas aquele homem é estranho, ninguém gosta dele, ninguém se mete com ele, e todos se abstêm de fazer comentários. É mais seguro para a saúde.
Enquanto ela se delicia com o leite com flocos, o pão com manteiga e as bolachas de chocolate, o homem faz um telefonema:
— Tengo una cosa para ti. Cuanto valle?
Do outro lado, o franciú:
— Báton oú fente?
Combinado o preço, combinada a hora, resta esperar.
A criança, ainda agarrada ao ursinho de peluche, que já perdeu um olho de vidro, diverte-se a espreitar pela janela os carros que passam na estrada a poucos metros e o tenebroso doberman negro de ar tão ameaçador que ladra por tudo e por nada. Não passam muitas horas.

O carro cinzento metalizado, reluzente com os reflexos da manhã, um topo de gama, chega à hora marcada. Já não há fronteiras. O homem que sai do carro, usa fato e gravata, parece um doutor, tem rabo de cavalo, e tem os dentes muito brancos e brilhantes. No rosto traz um imenso sorriso estampado, como se fora dono do mundo. Aproxima-se do outro, que o espera com a garota ao lado, quase não falam, e entrega-lhe um envelope que tira do bolso de fora do casaco. Olha para a garota e acaricia-lhe a cabeça. Fala para ela, também ele numa língua esquisita, que lembra flores multicolores agitadas pela brisa e ainda mais incompreensível que a do que a recolheu.
Ambos os homens, cada um naquelas línguas que ela não percebe, tentam convencê-la a entrar para o carro. Ela está muito confundida, quer é regressar para os braços de alguém conhecido que a acarinhe, ou pelo menos que fale numa língua que ela perceba e que a perceba a ela. Mas o homem, apesar de feio e um pouco fedorento, foi bom para ela e o outro homem tem bom aspecto, sorri muito, é simpático, deu-lhe um caramelo, e parece quererem os dois dizer-lhe que o de rabo-de-cavalo a vai levar até alguém que a vai tratar muito bem.
É o que ela compreende dos gestos que eles fazem. Gestos como o de comer, de embalar, de agasalhar, de dançar, de beijos, de mão no coração, etc., tudo acompanhado de muitos risos e sorrisos bonitos. Gestos alegres. Gestos felizes. Decide-se e entra no carro.

Nunca andara num carro tão bonito e confortável. Estofos fôfinhos, ar condicionado, música, este senhor que fala uma língua estranha deve mesmo ser boa pessoa. O conforto é tanto que cai de novo no sono.
O seu destino é França. Os subúrbios de Paris. Aí, o seu destino é a pedofilia e a prostituição infantil.
E assim vai ser durante muito tempo. Com o passar dos anos, torna-se uma 'profissional' da prostituição de luxo. Das ruas, discotecas, bares, aos clubes privados, tudo conhece, por tudo passa. Não há segredos para ela. Também nunca conheceu outra vida, ou não se lembra de a ter conhecido e vivido. Na realidade, o seu espírito fez com que ela esquecesse aqueles seus longínquos e dolorosos oito primeiros anos de vida.
Um dia, já passados 10 anos, com o homem com quem vive, e que é chulo, vigarista e toxicodependente, num Verão de muito calor, decidem fazer uma pausa e passar uns tempos de férias, e para tal escolhem Portugal. Destino natural, Algarve.

As redes informatizadas e os bancos de dados das várias polícias europeias, da Europol e da Interpol estão muito desenvolvidas e funcionam excepcionalmente bem. Inclusivé em Portugal, ao contrário do que seria previsível, mas a UE investiu muito nesse domínio para combater a criminalidade.
Portugal recebeu assim ajuda 'imposta' e sem qualquer possibilidade de 'desviar' as verbas e os equipamentos, pelo que as coisas funcionam mesmo.
O avião aterra em Faro.
Os dois amantes saem de braço dado do avião, vão levantar as bagagens e dirigem-se para a saída do aeroporto para apanharem um táxi que os conduza ao hotel frente à praia.

Dois homens, de fato cinzento, aproximam-se deles e identificam-se:
— Bonjour. Police. Venez avec nous, s'il vous plait.
— Polícia Judiciária. Façam favor de nos acompanhar.


José António, Oeiras, 13 Outubro 2005


n.b.: Como disse, esta 'tese' é apenas um exercício especulativo. Uma 'teoria' para desembrulhar a horrível confusão de dizeres e desdizeres em que o caso parece estar mergulhado. 'Tese' talvez nascida da esperança funda e profunda de que o sórdido crime de que os réus estão acusados nunca tenha acontecido e de que a Joana, afinal, esteja viva algures. Julgo que essa é a esperança da maioria de nós todos.

5 comentários:

Raquel V. disse...

Não costumo dizer para ir visitar o meu cantinho... mas se foram eles... a minha tese está por lá...




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Oh história tenebrosa que desenvolveu...

José António disse...

Olá Raquel.

Vou visitar o cantinho certamente.

A minha estória é tenebrosa sim. Mas é apenas uma especulação, como referi. Temo que a realidade, quando a descobrirmos, venha a chocar-nos ainda mais!

guevara disse...

CANECO...

Menina_marota disse...

Este "filme" será exibido num cinema perto de si, muito brevemente...

É assim que nasce um guião de cinema... pega-se num caso real... uns pós ali, uns acolá... e aí está. Um sucesso de bilheteira!

Tirando a "brincadeira"... lamento a Joana... como lamento!

José António disse...

Olá 'menina_marota', foi exactamente o que pensei quando me ocorreu a ideia e a desenvolvia mentalmente:
"Mas... acabei de idealizar um argumento para um filme!"

Acho é que a realidade ultrapassa em muito a ficção, por mais tenebrosa e sinistra que esta possa parecer.

Abraços,