quinta-feira, outubro 28, 2004

adeus choupo que foste vítima de mentecaptos


1.

Hoje o acordar foi triste.

Eram talvez umas 09:45 quando saí do quarto e entrei no escritório.
Olhei pela janela, em parte para ver como estava o tempo, ultimamente manhoso, mas também para deixar os meus olhos passearem-se pela copa do magnífico e imponente choupo, visível a uns 5 ou 6 metros da minha varanda.

Um pormenor de imediato captou a minha atenção: um preto empoleirado num ramo, de serrote em punho, serrava furiosamente algumas grossas ramadas à sua volta.
No entorpecimento matinal, ocorreu-me ingenuamente que a Câmara, receosa de potenciais acidentes, ou avisada da iminência de algum, tivesse decidido podar algumas ramadas de natureza mais instável.

Achei bem.
Há que zelar pela segurança de pessoas e bens.
Há que acautelar, antes, para não ter depois que 'reparar o irreparável'.

Sentei-me na cadeira e concentrei-me no ecrã do computador.
Havia muito trabalho para fazer.
Muitas ilustrações para desenhar.
Assim se passou talvez uma ou duas horas.
Concentrado, como é meu hábito, desligado de tudo o que me rodeava, não assisti, felizmente, ao crime hediondo e inqualificável que estava a ser perpetrado.

Fui para ele despertado pelo grito de horror de minha esposa, que entretanto entrara no escritório:
— Destruíram o nosso choupo!
Olhei para a janela e fiquei horrorizado, completamente estarrecido.
Da frondosa e imensa copa, refúgio de centenas de pardais e outra passarada, já nada existia.

Via-se apenas a ponta serrada, partida, triste e ferida do tronco, projectando-se deste os cepos selvaticamente rachados do que antes foram grossos ramos e compridas ramadas, que sustentavam como braços de gigante aquela copa imensa que murmurava no silêncio da noite, que dançava na brisa fresca, que tantas vezes me embalara em noites de insónia.

É indescritível, é inefável, o som do murmúrio daqueles milhares de folhinhas a roçagarem umas nas outras no silêncio lunar.
Não tenho palavras para descrever o profundo, sublime, sentimento de prazer provocado por essa sinfonia, que era o ciciar das folhas acompanhado pelo pipilar cúmplice da passarada.
Quantas vezes, à noite na cama, me deliciei a ouvir esse autêntico concerto de jazz consubstanciado no swing das vibrações do ar, que vindas do choupo me entravam pelo quarto dentro e se espraiavam por cima da cama como um suave véu de seda macia, que me adormecia na convicção da transcendência.


2.

Quando saí de casa para ir almoçar, tive oportunidade de falar com algumas pessoas, sendo que a primeira foi uma engenheira florestal da Câmara Municipal de Oeiras, assim se identificou, que tinha sido alertada por um munícipe e estava a procurar averiguar de quem partira a ideia daquela barbárie.
Pouco tempo passado, disse-me, sem o garantir, que a acção parecia ter partido da própria Câmara, por razão de um qualquer projecto de acesso pedonal com rampa para deficientes, a construir naquele mesmo local.

É de louvar a preocupação com a melhoria das acessibilidades, mas quem conhece o local não acredita de modo algum na impossibilidade de desenhar uma solução capaz de poupar a vida a tal árvore, cujas características a tornavam indubitavelmente Património Natural do Concelho.

Uma outra senhora com que falei referiu-me que morava ali há cerca de 30 anos e lembrava-se de sempre ter visto ali a árvore.
Um senhor disse-me da dificuldade de uma mãe ou avô, não recordo bem, que passava, explicar à criancinha com quem ia e que a questionara, o que estava a acontecer e porque razão aqueles homens estavam a fazer aquilo à árvore.
Mais duas ou três pessoas com quem também falei mostraram-se escandalizadas com o acontecido.
O léxico utilizado pelas pessoas contemplava, em regra: crime, barbaridade, selvajaria, hediondo, etc.
O sentimento geral dos munícipes pareceu-me de revolta e indignação.

Para dar uma ideia da dimensão da citada árvore refiro que moro num 2.º andar e a minha varanda ficava abaixo do meio da copa.
Tanto quanto recordo, e tenho ainda documentado com 2 fotografias, a árvore atingia no seu ponto mais alto quase o 5.º andar do meu prédio.
Refiro ainda que o ponto de implantação da árvore não era ao nível do prédio, mas mais abaixo, cerca de uns 2,5 m., pois daquele lado existe um pequeno talude.
Isto tudo somado dava ao choupo uma altura estimada de cerca de 15 a 20 m.


3.

Onde estava um choupo, que nos dava qualidade de vida, agora vamos ter ferro e cimento...

Onde estava um choupo cuja copa nos dava privacidade, agora temos as janelas dos vizinhos...

Onde estava um choupo que era uma barreira natural contra o vento agora vamos ter a ventania...

Onde estava um choupo que era um 'planeta' carregado de vida vegetal e animal, numa miríade de microorganismos e de pequenos seres vivos que nele tinham o seu habitat, o seu ecossistema, ou parte dele, e que com a árvore inter-agiam num processo vital de simbioses e cadeias alimentares multifacetadas e riquíssimas, agora vamos ter...


4.

Enquanto escrevo isto, sentado frente ao computador, no mesmo sítio de sempre, olho para a direita através da janela e sinto um aperto na garganta. Há algo que me estrangula e falta-me o ar!

p.s.: Este texto encontra-se também publicado no meu blog Rememorar Oeiras. Pela relevância do acontecido achei por bem publicá-lo nos dois locais.

4 comentários:

rsd disse...

Realmente há câmaras municipais cujas decisões me deixam perplexa e duvidosa da real proveniência dos seus membros deste palneta...
As árvores são de uma imponência sublime. Um conforto cósmico aos sentidos.Quando tinha 4 anos (morava numa aldeia da Beira Alta) vi arder imensos hectares de pinheiros com mais 30 anos, tudo o que de verde se poderia ver defronte até à majestosa Serra da Estrela. Lembro-me do iuvo de morte do fogo nocturno a sibilar no devorar neptúnico da vida, dos gritos selvéticos de dor de coelhos apanhados pelas chamas, correndo de pêlo a arder... às vezes as pessoas esquecem-se que a morte não acontece só aos animais...
Também gosto do silvar do vento entre as folhas das árvores,quando praticava karate passava treinos inteiros concentrada no silvar do vento invernal entre a folhagem das árvores lá fora, era qualquer coisa de fenomenal...

José António disse...

Olá res nulius:

Obrigado pela visita.

Também me questiono muitas vezes, mais do que sobre a origem, sobre a natureza e o carácter das pessoas que estão à frente das autarquias, qualquer que seja a orientação política destas, se bem que há algumas piores que outras...

Neste caso concreto do choupo, suspeito de pressões de certas pessoas sobre a autarquia no sentido de acelerar o tal projecto (que não sei se existe mesmo), à revelia da consulta de técnicos da mesma autarquia sobre a viabilidade da referida árvore e da adaptação do projecto, de forma a poupá-la.

A autarquia cá do sítio não prima pela isenção e incorruptibilidade no que toca a tráfico de influências e etecéteras do género. É o que se diz por aqui à boca fechada...

Raquel V. disse...

"Muitas pessoas julgam os gatos pelas unhas... não vêem em profundidade! Olho para o lado e vejo o meu Fausto Basílio a dormir (será que dorme?) em cima do meu Macintosh Performa 5200, de cujas colunas sai a exaltação de Deus na harmonia celestial do concerto (...) E interrogo-me: o que vai no espírito do Basílio, tão sereno e concentrado na audição? Certamente sente a presença de Deus. Aquele olhar não me engana. É o olhar profundo da transcendência! É o inconfundível olhar da inabalável Fé!"

Um gato e um Mac...
Faz-me lembrar a minha gata... sempre em cima do monitor do velho G3, noutras eras, alturas em que ainda a podia ter comigo. Ou então seguindo-me pela casa.
Se pudesse voltava atrás, desligava o G3 deste mundo irreal e deixava a pata da Blue pender sobre o ecrã... sempre que ela o quisesse.
Raquel Vasconcelos (raqs)

José António disse...

Olá Raqs:

Pois é... é uma discussão recorrente entre mim e a minha mulher.
"Deixas o gato fazer tudo... por isso é que ele é um selvagem..."
Mas é isso mesmo que apetece. Deixá-lo seguir a natureza dele!
E se ele quer dormir em cima do computador...

Cumps,