domingo, outubro 17, 2004

ocaso


nota: esta estória foi escrita em 2002 e é um bocadinho grande, mas tenho um especial carinho por ela (os meus amigos vão perceber porquê; basta recuarem a 1995...), e decidi deixá-la aqui, sem a alterar excepto num ou outro acento que 'fugiu'.


Eram talvez sete horas da manhã. O trânsito estava uma merda como de costume!
O previsível dia de calor enchia a rua de carros repletos de marmanjada que se dirigia que nem carneiros para as praias das redondezas, para além dos desgraçados que iam trabalhar, porque não estavam de férias. Toneladas de carne gorda e balofa, mal passada, a caminho da Caparica e da Fonte da Telha. A ponte começava a encher. Os acessos já o estavam. Mas não era para aí que eu me dirigia apesar de seguir na mesma direcção. Simplesmente, via agora, tomara uma decisão errada em pretender ir primeiro a Lisboa. O volks, no meio da multidão, gemia que nem uma carroça. Mas mantinha-se impecável ou não fosse um volks. Eu é que começava a ferver e não era da temperatura que subia rapidamente. Só havia uma coisa a fazer. Saí da autoestrada na primeira saída que apareceu, para vias mais calmas e desimpedidas. Fiz a inversão de marcha e voltei à autoestrada, desta feita em sentido contrário. Claro que quase não existia movimento. O volks cantou contente e acelerou. Sentia-se valente com certeza. Estava eufórico. Tive que o agarrar com força para que não me escapasse das mãos.

Acendi um éssegê e colocando o cotovelo esquerdo na janela aberta dei uma longa baforada espreguiçando o corpo, dentro do possível a quem vai a conduzir. Não demorei a chegar onde queria. Procurei estacionamento, o que não foi muito difícil. Eu sabia onde estavam os carros! Desliguei o motor, fechei a janela. Saí do volks, fechei a porta e tranquei-a. Dirigi-me ao enorme edifício de vidro e metal e cruzei as portas de vidro, que se abriram à minha aproximação. Com um sussurro, fecharam-se nas minhas costas, enquanto eu me dirigia ao elevador. Carreguei no botão de chamada. Para subir. Segura na mão direita levava a enorme pasta negra dentro da qual, bem protegida, seguia a maqueta para o cartaz polícromo, que tanto trabalho dera a executar. E a conceber. Esperava uma aprovação sem problemas.

O elevador parou com um plim e a porta abriu-se à minha frente. Afastei-me pois de dentro dele saiu um cão todo lampeiro. Dei-lhe os bons-dias quando passou pela minha frente. Armou-se em importante e não respondeu. Um cão de raça com aspecto de bem tratado. Não era nenhum rafeiro vadio. Tinha uma dimensão média. Dava-me pelo meio da coxa. Não sou muito alto. Bem, nem muito nem pouco. Também sou médio. O cão era castanho, com o pêlo impecavelmente cuidado. Saiu do elevador rapidamente em direcção à entrada principal. O seu corpo accionou o dispositivo automático e as portas abriram-se à sua passagem. Entrei no elevador observando a minha imagem reflectir-se nos inevitáveis espelhos. A porta fechou-se atrás de mim. Pressionei a tecla do andar pretendido e aguardei. O elevador começou o seu movimento rápida e suavemente. Com um pequeno solavanco e um plim imobilizou-se. Empurrei a porta e saí, sempre segurando a minha pasta negra.

O vento frio fez-me estremecer. Era um daqueles ventos gelados de inverno que parecem querer cortar-nos as orelhas. A luz em que eu estava mergulhado fazia também recordar o mais rigoroso dos invernos. Olhei para trás. O elevador tinha desaparecido. No lugar onde se deveria ver a porta nem parede havia. Olhei em redor. O compartimento, de três paredes, não era muito grande. As paredes, de madeira, faziam lembrar o interior de uma barraca tipo T0 da Buraca. Estava vazio. Vazio, vazio, não. A um canto divisava-se, enrolado sobre si mesmo, um gato cinzento mal encarado à brava. Estava sujíssimo e carregado de marcas de muitas batalhas. Movi-me, para passar o peso de uma perna para a outra e os meus sapatos fizeram barulho, rilhando a gravilha no piso de cimento cinzento, rival das paredes em sujidade. O gato levantou a cabeça e olhou para mim. No lugar do olho esquerdo, um enorme buraco preto, sujo de sangue ressequido, fitava-me. Miou. Levantou-se. Espreguiçou-se. Miou. Deitou-se. Enroscou-se de novo e fechou o único olho. Provavelmente adormeceu. Virei-lhe as costas. Continuava a segurar a minha pastosa.

À minha frente, um comprido cais de madeira avançava pelo mar dentro. Não lhe via o fim. Perdia-se no nevoeiro. Segurei com mais força a alça da pasta. Um pouco aquém do cais e a um dos lados um velho, vestido com um fato de palhaço e uma horrível gravata bege, estava sentado numa cadeira de praia. Uma cadeira de lona queimada pelo sol, sobre um quadrado de alcatifa azul-escura. Dirigi-me a ele com cuidado, procurando não pisar nenhum dos lagartos verdes que se espreguiçavam na alcatifa. Cumprimentámo-nos. Abri a pasta e tirei para fora o trabalho. Claro que o aprovou sem qualquer discussão ou hesitação. Despedimo-nos e afastei-me dele.

Avancei para o cais. As travessas de madeira, húmidas, envelhecidas pelo tempo, gemiam sob os meus pés a cada passo que dava. Passos lentos mas seguros. Embrenhei-me na neblina. Olhei ao meu redor. Além do branco daquele manto que me envolvia nada mais estava ao meu alcance. Atingi o fim do cais. Terminava numa parede de tijolo vermelho, assim como o mar. Este, ondulante beijava suavemente a parede, num lascivo sobe e desce. Olhei em frente. Exactamente onde o pontal de madeira penetrava a parede, uma porta de elevador. Carreguei o botão de chamada, que se iluminou de imediato. Esperei pouco.

De novo com um plim, o elevador surgiu. Abri a porta e entrei. Os mesmos espelhos. Pressionei o botão correspondente ao rés-do-chão e o elevador arrancou, num sussurro. Olhei para a minha mão. Firmemente segurava a pasta. Suavemente, o elevador desacelerou e imobilizou-se na saída. Abri a porta e saí. Tive de me desviar pois o cão castanho dirigia-se ao elevador no qual entrou. Deu-me as boas-tardes ao passar por mim. Armei em importante e não lhe respondi. Ouvi o elevador arrancar. Dirigi-me à saída do prédio. As portas de vidro abriram-se à minha passagem. O calor tórrido da rua envolveu-me. Soprei. O meu volks estava no mesmo sítio. Caminhei até ele, abri a porta e atirei a pasta para cima do banco traseiro. Entrei. Baixei o vidro da janela. Coloquei a chave na ignição e pus o motor a trabalhar.

Arranquei. Tomei o caminho da marginal. Eram talvez cinco da tarde e eu sem almoçar. Dirigi-me à esplanada do costume, junto à praia. Lá sempre poderia comer uma sandes ou um cachorro acompanhado de uma cola, porque almoçar a esta hora já não valia a pena.
Estacionei o volks e fui comer o tal cachorro com vista para o mar. Eram quatro da manhã quando fui para casa.

5 comentários:

rsd disse...

Gostei sobretudo do surreal. Dos esforços evasivos à angustiante realidadeque é a vida.
Revejo-me nessa solidão... tanto!
Mas um gato ferido e sem um olho não é mais que isso. A predisposição para sentir essa perda é a triteza emergente no coração humano.
Post Scrip: notei que fui pouco cordial em dirigir-me a si na 2ª pessoa. Apresento-lhe as minhas apologias.

José António disse...

Olá up_tightabductee:

Obrigado pela visita e pelo comentário.
Gato sem um olho... marcas da infância.
Marca duma realidade vivida e incompreendida pelos olhos do petiz.
Um dia ponho a estória, algures nesta esfera virtual.

Não, não me incomoda nada que me tratES por TU!
Aliás, já começámos, agora seria hipócrita mudar, não achAS?
Parece-me até que tal forma de tratamento, de familiaridade, aproxima mais as pessoas neste universo frio que é o virtual.
Faz-me sentir mais humano, e que do outro lado está uma pessoa (e não uma máquina que debita bits :) ).

[] volta sempre.

Anónimo disse...

Zezinho Caracol(as),

eram quatro da manhã quando foste para casa?! ganda vadio!

Um abraço do

A. Gomes

José António disse...

Olá Gomes:

Seja bem aparecido, que não há quem o veja!

Pois, naquela época era assim... :)

E nós, para quando outra valente jantarada?

Abraço,

Anónimo disse...

Olá meu amigo!
Li o Conto com um interesse especial. Quero saber como é o meu amigo do outro Continente. Você é mesmo o que demonstrou?
Abraços,
Idálya