quinta-feira, outubro 14, 2004

mosca


A sala estava mergulhada numa semi-obscuridade outonal de fim de tarde, a escorrer líquida pelas paredes rugosas do apartamento suburbano.
Era um daqueles dias de Outubro em que se começa a sentir o cheiro da chuva e o odor do vento nas folhas tropeçadas da berma da estrada.
Tinha-se abandonado nas almofadas do sofá, como um boneco de trapos displicente.
O cachorro dormitava ao seu lado, num claro sinal abusador de bicho que se sabe protegido e apaparicado.
Estava de tal forma distraído, de olhos pregados no reallity-show, telecomando adormecido na mão, que não se apercebeu de nada.

A mosquita aproximou-se da sua cabeça, volteou duas ou três vezes no ar e rapidamente entrou-lhe por um ouvido. Casualmente o esquerdo. Para ela era indiferente.
Deu umas quantas voltas esvoaçando na escuridão opressiva do interior do crâneo, batendo assustada contra as duras paredes deste, e saiu pelo outro ouvido, tocando ligeiramente com a ponta da asa num naco de cerume e afastando-se rapidamente na direcção da cozinha e do apelativo caixote do lixo.

O cachorro emitiu um pequeno gemido, sinal de que sonhava.

6 comentários:

Anónimo disse...

Pois... Não sei o que é o neo-realismo - talvez um brazuca que lê Rebelo Pinto me explique - mas gosto das tuas histórias.

Já te disse uma vez: Caga na filosofia, que não tens jeito p'ra isso, nem dá dinheiro.

Val

José António disse...

Mas quem foi o 'iluminado' que disse que EU escrevo Filosofia?

Tudo o que escrevo são ESTÓRIAS, qualquer a roupagem que tenham.

Pela menos, são a minha es-his-tória...

Abraço,

José António disse...

Ah, já me esquecia.

Toda a gente fala nessa tal de 'Rebelo Pinto'.

Afinal, quem é?

:)

Anónimo disse...

A Rebelo Pinto?!... Então não é aquela escritora estilo Bobone?!...

Ou não???!!!... Será a dos livros de receitas???!!!... Não me lembro!

Mas que tem p'raí livros, tem.

Val

rsd disse...

Olá!
Este é o primeiro post que leio e invoca instantaneamente tiras de BD.
As quais têm como título precisamente:"A Mosca".
É muito fixé. E lê-se espectacularmente bem: não tem uma única palavra.
(já deves ter percebido que declarei guerra às palavras)

José António disse...

Ói up_tightabductee:

Bem vinda a este baú de tralha onde a liberdade se chama ABSOLUTA. Também se serve 'Absolut', mas gosto mais de gim tónico (alô Val :) ) ou Jack Daniels.

Sou assim tão transparente? A BD é há muitos anos a minha leitura de eleição!

Bilal, Moebius, Pratt (costumo dizer que este ensinou-me a desenhar), Quino, Sempé, Boucq, Ernst... é melhor parar, são tantos.

Sinta-se em casa.