quarta-feira, novembro 16, 2005

l'huomo diroxo e Mutcha

Em rigor, esta estória não pode ser considerada o primeiro episódio da saga "l'huomo diroxo, mutcha e siegref". Em verdade mesmo, a saga não está completa e é constituída, neste momento, por estórias esparsas sem grande alinhamento. Em todo o caso, sem esta estória nenhuma das subsequentes faz sentido, na medida em que esta introduz personagens, e dá um certo 'ambiente' e uma certa 'cor' à saga, pelo que pode ser considerada uma espécie de introdução.
Assim, a pedido da SaraMM, aqui fica:

L'HUOMO DIROXO E MUTCHA

atracções

Naquela parte da cidade as ruas eram cinzentas e sujas. Velhos edifícios abandonados, arquitecturas antigas, funções duvidosas. Vapores fétidos subindo por todo o lado, saindo de buracos engradados, no pavimento pejado de poças de água oleosa por toda a parte, conspurcado de detritos industriais e restos orgânicos.
Um saltinho...priii! Outro saltinho...priii! Ainda outro...chap!

l'huomo diroxo saltitava ao longo da rua sem passeios. Indiferente às poças de água que existiam por todo o lado, saltitava. Mãos nos bolsos, apito na boca, a pés juntos saltitava. A cada saltinho, uma apitadela. E assim avançava. Um saltinho...priii! Outro saltinho...priii! Ainda outro...chap! Entretanto, enquanto l'huomo diroxo saltitava na inconsistência do tempo e na insolubilidade da rua esparrinhando água das poças em todas as direcções, a noite caía, escorria pelas paredes, pelos objectos que encontrava no seu caminho. A noite caía escorrendo pelos corpos, sorvendo tudo o que encontrava. A escuridão fechava-se em torno dele, d'el huomo diroxo, ao mesmo tempo que alguns candeeiros — dos poucos que funcionavam — se acendiam soluçantes, enquanto perigosos smorfles ameaçavam invadir o negrume cúmplice da ausência de luz, ensaiando curtos voos, prenúncios do seu domínio das trevas. Naquele lugar, naquela cidade, o cosmos avançava e o caos recuava. Ao longe ouviam-se sons, sonoridades saxofónicas dolorosas e frementes, rasgando a noite como gritos de mocho, lembrando gotas de água a pingar sobre metal. Saltitando, l'huomo diroxo prosseguia, a pés juntos. Saltitando e apitando, saltitando e apitando...

Do outro lado da cidade, as ruas também eram cinzentas e sujas. Velhos edifícios de arquitecturas abandonadas, duvidosas intenções. Fétidos detritos orgânicos em movimento, arfantes (vivos?), alguns parados pelas esquinas, mergulhados em poças de água, reflectindo neons. Do outro lado da cidade a noite não existia. Melhor dizendo, a noite estava de tal modo transfigurada que parecia não existir. A ilusão era a norma. A ilusão era o ser. A ilusão era o caos. A ilusão... passar a noite em claro...
O olhar oblíquo, o cigarro ao canto da boca, a barba por fazer, as sereias no cais, o rugido dos motores das naves preparando-se para partir, a quietude do rio embalando ilusões (algumas dolorosas), mulheres do dia passeando na noite, neons estalando, doendo nos olhos, pavor do negro, da luz que se apaga por falta de corrente... E os pingos de água caindo sobre metal. E os mochos piando na noite, ecoando nos eucaliptos da imaginação...

Aí caminhava Mutcha. Cruzando neons, desviava-se rápida e bruscamente, no seu ar de habituée, dos obstáculos que lhe surgiam pela frente. Caminhava Mutcha. Na mão, um pião. Enquanto caminhava, descontraída, cantava mentalmente: eu tenho um pião, um pião que gira... eu tenho um pião a girar na mão; o pião, por seu turno, parecia um mocho. De madeira. Ilusão? Rumo ao bar, com o livre-trânsito no bolso, caminhava Mutcha, de pião na mão, e mochos esvoaçando no ar, cantando mentalmente. Para si própria? E assim prosseguia a noite que não era noite... Mutcha prosseguia. Indiferente, afinal, aquilo que já conhecia bem. O mocho a piar, os saxofones a tocar, o pião na mão, a canção a martelar-lhe o cérebro...

Também prosseguia, do outro lado da cidade, saltitando, l'huomo diroxo. Sem destino, resignado à sua condição de 'saltitão que apita'. Algures, l'huomo diroxo saltitava. Ausente. Foi subitamente que se apercebeu do silêncio. Parou bruscamente como se tivesse chocado com uma parede invisível. A sonoridade saxofónica que o acompanhara ao longo do seu deambular à deriva não se ouvia. Imobilizou-se. Completamente. A pés juntos. Apito suspenso entre os lábios. Respiração suspensa à entrada do apito. Apurou os sentidos. Tentou ouvir... Nada! Não se ouvia nada. Nem os smorfles. Parecia que tudo tinha parado. Então, no meio do silêncio, sem saber porquê ou como, ouviu uma canção bater-lhe no cérebro: eu tenho um pião...; um calafrio terrível percorreu-lhe o corpo amorfo. Estremeceu. E olhou.
Olhou para o fundo escuro da rua, para as poças de água a reflectir a pouca luz dos poucos candeeiros acesos, tremeu com o frio, sentiu passar sobre si o zumbido de um smorfle, encheu-se de coragem vinda não sabia de onde nem porquê, tirou o apito da boca, colocou-o no bolso, e caminhou decididamente, inchando o peito, em direcção ao negrume, desaparecendo na escuridão dos becos.

12out2002, sab., 02:50

pintura: josé antónio, 1995, guache sobre cartão, 100x70 cm

8 comentários:

Caracolinha disse...

Olá primo !!!!

Há quanto tempo !!!! Isto agora com o tempo húmido é ver-nos para aqui todos fora da casca !!!!

Fica, como não poderia deixar de ser, uma beijoca muito encaracolada ;)

José António disse...

Olá prima, bem aparecida !!!

Pois é, o tempo está bera para nós. Está na altura de hibernar, mas... há TANTO para fazer !

Mesmo assim, eu vou tentando passar o máximo possível dentro da casquinha, quentinho, e só ponho os corninhos de fora de vez em quando para ver se chove... :)

bjs,

Sara MM disse...

gostei de imaginar esse "saotiao que apita"... mas o desenho tá ainda melhor!!

Sara MM disse...

"saltitão" (ops!)

José António disse...

Olá Sara. Obrigado!

Tenho no espírito uma imagem forte e bem definida dos personagens, nomeadamente do l'huomo.
Mas na prosa deixo-a intencionalmente aberta e com contornos difusos para permitir esse 'gozo' de imaginar a quem lê.

bjs,

José António disse...

Olá Sara, sou eu de novo.
Esqueci-me de referir:
Como dá para perceber a pintura é anterior à prosa. E às prosas que se relacionam com esta.
Contudo existe uma relação entre esta pintura (homem-caracol) e tudo o que escrevi e escrevo (e desenhei e desenho; e fotografei e fotografo;etc.).
Este blog é um exemplo disso.
A ideia do 'caracol' é muito antiga. Tenho-a expresso de diversas formas.
O 'caracol' é uma espécie de meu alter-ego.

bjs,

Vespinha disse...

Ora então és tu o primo da minha amiga Caracolinha??
E também visitas a amiga Uroborus,certo?

O mundo é pequeno!

Passo para te deixar um beijinho e agradecer a visita ao vespeiro.
"Vêmo-nos" por aí.

José António disse...

Olá Vespinha. Bem-vinda ao meu cantinho.

É, o mundo é pequeno. E este, além de pequeno, é rápido. "Estou aqui e já estou ali", né?
Pois, Uroborus, Caracolinha, Sentidos Ocultos, Lua de Lobos, Menina Marota, o teu Vespeiro, etc. Gosto de passear por aí para não me sentir muito só.

Volta, serás sempre bem recebida.

bjs,